Quando era pequeno sempre quis fazer essas viagens para o interior, conhecer pequenas cidades e vilarejos sem essas coisas da modernidade. Queria algo rústico mesmo, como aqueles lugares desertos com longas estradas de terra para se chegar no seu destino. Onde a lei é você e sua coragem.

Dentro do meu escritório onde trabalho, sob a luz artificial e envolto a um ar condicionado que ataca minha sinusite vez ou outra, programei minhas férias. Desta vez não visitaria nenhuma praia paradisíaca, nem convidaria nenhum de meus amigos para andar em minha lancha. Tampouco sairia do país ou visitaria lugares com neve porque de frio já bastava na minha mesa de trabalho. Eu queria mesmo é ir em busca de um lugarzinho desses no meio do nada como nos filmes.

E fui. Com a cara e coragem que Deus me deu, peguei minha mochila que comprara na loja de artigos de esportes radicais há cerca de cinco anos quando me prometi praticar escalada e jamais dera um passo sequer em direção a esse objetivo. Fiquei tão impressionado quando a abri com o tamanho do seu interior que logo notei que poderia passar até mesmo semanas perdido por aí apenas com o que carregaria ali dentro. Comprei algumas passagens de ônibus para qualquer lugar desconhecido, certo de que seria um dos momentos mais preciosos para me conhecer melhor enquanto sozinho.

Desci do ônibus na beira de uma estrada e avistei uma pequena cidade. Ao chegar naquela cidadezinha, logo no fim da tarde, vi de cara que estava bem onde queria. Um lugar simples, com pouco movimento, caminhonetes antigas sujas de barro e eletricidade que parecia servir de abastecer as velhas casas e os postes de luz que iluminavam as ruas escuras. Ainda assim, algumas lamparinas começavam a se acender em frente aos estabelecimentos para ajudar com a visão. Logo encontrei uma pousada humilde e entrei para pedir informações. Uma senhora de cabelos sem cor, curtos e cacheados me olhou da mesa de recepção. Deve ter notado que eu descaradamente não pertencia àquela região e me desejou boas vindas com muita empatia:

– Olá! Seja muito bem-vindo! Vamos, entre, entre, Deixe-me lhe apresentar as nossas excelentes opções de quartos.

Ela pegou seus óculos pendurados por uma correntinha em seu pescoço e os pôs na ponta de seu nariz e me disse logo que tinha ótimos quartos, aconchegantes e quentes para uma boa estadia. Era de fato uma senhora muito simpática. Não tive dúvidas de que ficaria ali, até porque não haviam muitas opções ao redor. O preço era bem convidativo, ainda que eu tivesse a impressão de que fosse um dos lugares mais elitizados da cidadezinha. Talvez por estar acostumado com hotéis de alta sociedade que meu salário acima da média, mesmo na metrópole do país, dava-me o luxo de frequentar.

A senhora, que ao meu ver era a dona do estabelecimento e que parecia cuidar de tudo quase sozinha, fez questão de me acompanhar até meus aposentos. Destrancou a porta do meu quarto e me deu uma cópia da chave com uma etiqueta feita de fita crepe branca com o número “7” escrito em tinta azul.

– Por favor, fique à vontade e se precisar de algo pode me chamar.

Agradeci satisfeito e entrei. O quarto era simples, ajeitadinho e tinha tudo o que eu precisava: uma cama de casal com cobertores e travesseiros, uma área pequena com um tanque e um fogão, um banheiro, uma poltrona com abajur para leitura e um armário de madeira antigo para guardar os pertences que, se bem reformado, valeria a soma do preço da diária de todos os nove quartos juntos. Abri minha mochila e joguei as coisas na cama para pegar uma troca de roupas e ir tomar um banho. Entrei no box do banheiro que era pouco iluminado, com aquelas banheiras antigas que você têm opção de tomar banho em pé ou relaxar deitado. Tomei um banho rápido, pois ainda queria sair e comer. Vesti-me, calcei minhas botas, passei a chave na porta do quarto e fui procurar a senhora na recepção. Assim que cheguei, percebendo minha presença, ela saiu de um corredor escuro agitada.

– Oh, meu filho. Desculpe pela demora. Estava cuidando de algumas coisas ali dentro e não notei que estava aqui. – Disse ela.

– Ora, não se preocupe. – Respondi rindo. Não estou aqui nem há um minuto. – Deduzi que ela estava preparando o jantar na casa dela, que ficava ali mesmo na pousada, pois veio me atender com um avental já com marcas de uso e com detalhes bordados à mão.

O sol já se punha e toda essa dedução me fez lembrar que já estava na hora de comer. Não comia desde as 11 e meia da manhã.

– Quais as opções para comer por aqui? Estou faminto.

– Humm… – Frisou seus olhinhos através dos óculos. – Aqui nesse vilarejo não tem nada, mas você consegue encontrar um desses bares e lanchonetes de beira de estrada que ficam abertos 24 horas, sabe? Daqueles lugares mal encarados que caminhoneiros e motoqueiros frequentam quando param em suas viagens.

– Entendo. – Convencido de que não acharia nenhum restaurante de frutos do mar dentro de um raio de centenas de quilômetros. – Que direção eu devo tomar para achar um desses?

A senhorinha apontou para uma direção e dizendo:

– Essa é uma estrada que encontrará algo. É um pouco mais longe, mas sugiro ir pra lá.

– Mas e quanto essa outra estrada aqui atrás? – Apontei para o fundo da pousada. Ela virou para mim, tirou seus óculos pendurando-os pela corrente em torno do pescoço e me disse com um olhar sombrio:

– Ah, filho. Essa estrada é ruim. Tem um bar que fica mais próximo e que sei que servem alguns lanches bem simples, mas já está tarde para ir por lá, não é?

– Mas está tarde para a primeira estrada também, não? E essa segunda tem um bar mais perto. – Perguntei curioso.

– Sim, é verdade, mas essa estrada é perigosa. Se fosse você eu só passaria por lá durante o dia. O sol está quase se pondo. – Retrucou a senhora com a voz agora levemente trêmula.

– Mas qual o perigo dela? Estamos num vilarejo tão pequeno. Há muitos assaltos por aqui? – Meu instinto aventureiro estava à flôr da pele.

– Nãããão, não tem esse negócio de assalto por aqui, não! – Respondeu ela num tom de espanto e logo em seguida mudou para outro de quem acabara de escutar uma tremenda bobagem até que sua voz ficou ainda mais trêmula que antes. Engoliu seco, suspirou, aproximou-se de mim sobre a mesa e cochichou olhando para os lados como quem verificava se alguém nos escutava. – É que aquela é a “Estrada Velha”. Dizem que pessoas estranhas andam por lá à noite. Nunca ouvi falar de nenhum crime, mas quem experimentou disse que não gostou. Dizem até que tem um pessoal cigano que mora por lá e de vez em quando se escuta umas cantorias estranhas, com fogueiras e essas coisas. Um rapaz que se hospedou aqui uma vez voltou apavorado de lá e disse ter visto coisas horríveis. Cruz credo. – Terminou com um gesto típico de arrepio e fazendo o sinal da cruz.

Eu agradeci as informações e disse que sairia então para comer algo e que logo voltaria. Despedi-me, saí do estabelecimento e estava pegando o caminho da primeira estrada quando repentinamente parei e pensei “Por que diabos estou fazendo isso? Não é tão tarde assim e o bar da tal Estrada Velha é mais perto. Eu vou conseguir voltar mais cedo para descansar para amanhã e, afinal, eu estou aqui pra quê? Ficar na minha zona de conforto é que não é. Então vamos de aventura! Até porque estou acostumado a lidar com os assaltos e bandidos da metrópole, não vou lidar com um povo que mora na beira da estrada e que nunca registraram nenhum perigo? Bora lá!”

Peguei a saída da cidadezinha à pé, com minha carteira e minha jaqueta. Andei cerca de dois quilômetros e já não se via mais casas ou estabelecimentos comerciais. Era apenas a estrada e os postes de luz velhos de madeira, apenas do lado direito da estrada, que já estavam acesos, mas com uma luz muito fraca. Passei por um deles onde se via pregado uma placa em formato de seta grande e de madeira, claramente feita à mão há muitos anos, com os escritos “Estrada Velha” em tinta preta. Andei mais alguns metros quando notei o sol radiando seus últimos raios de luz bem à minha frente, por detrás de uma serra que subia e ficava quilômetros além. Não havia mais nada, nem sinal de vida. A estrada era de um asfalto muito velho e quase coberto de terra. À direita só se via uma terra plana e espaçosa. Nada mais. À esquerda se via no horizonte o início das montanhas que formariam a serra adiante. Continuei andando por mais alguns quilômetros quando comecei a me incomodar com o frio e com a distância. Esperava que meu destino fosse bem mais perto do que aquilo, em tempo que agradecia por não ter escolhido a opção da primeira estrada cujas lanchonetes e bares eram ainda mais longes. Andei por mais alguns minutos e comecei a ficar irritado. Estava com fome, a noite havia chegado de vez e já não havia claridade além das lâmpadas dos postes e ainda por cima eu tinha subestimado o frio, como sempre faço. A questão é que já tinha andado distância e tempo o suficiente para voltar de mãos vazias. Ou estômago vazio. Desejava ter me convidado para jantar com a senhora recepcionista, que além de simpática, estava preparando algo muito cheiroso. Já queria que meu espírito aventureiro fosse pro saco.

Andava, andava, andava… O lugar era tão deserto que me fazia ter a impressão de andar e não sair do lugar. Já tinha perdido a noção de quanto tempo estava caminhando na Estrada Velha sem sinal de vida ou de uma taverna, bar, quiçá uma lanchonete. A certa altura, já muito angustiado e considerando realmente voltar, avistei, há uns 600 metros à frente, um cruzamento da Estrada Velha com uma outra estrada qualquer. Vindo dessa outra estrada em direção ao cruzamento, caminhava lentamente uma pessoa. Fiquei eufórico e comecei a correr ao seu encontro. Gritei com uma mão acenando acima da cabeça enquanto a outra fechava a gola da minha jaqueta para me proteger do frio.

– Ei! Ei, você! Aqui! Me ajuda, por favor! – E a pessoa não esboçou nenhuma reação. Eu gritava cada vez com mais força até que minhas cordas vocais falhavam. Foi quando me dei conta de que estava definitivamente com receio da situação na qual me encontrava. Chegando mais próximo do cruzamento, notei que a pessoa estava agora passando por ele, vindo no sentido da direita para a esquerda. Era um homem alto, se eu tenho 1,76 ele devia ter seus 1,90 para mais, vestia uma capa longa e muito preta, botas pretas e o resto a capa cobria. A gola era alta, as luzes dos postes eram tão fracas que mal iluminavam seu rosto. Para ajudar, a luz mais forte ficava atrás dele, ofuscando o pouco do rosto que seria possível de se ver. Eu finalmente o alcancei e falei:

– Ei! Você não me viu correndo e gritando? Enfim, desculpe. Eu queria lhe pedir uma informação. Estou a procura de algum estabelecimento para comer. Estou faminto e preciso voltar para minha pousada naquela cidadezinha que fica ali para trás o quanto antes. Você sabe se encontro algum lugar por aqui? – O homem que estava agora parado e de lado para mim nem sequer reagiu. Já atordoado com a situação, gritei: – PO#%@, CARA! CÊ TÁ ME ESCUTANDO, CAR&$*#?! EU PRECISO DE AJU…

– Não precisa gritar. – Virou-se para mim falando com uma voz grossa, num tom baixo e soberano, mas que por alguma razão parecia vir de todos os lados e fazia o chão de terra tremer. – Ouço muito mais do que imagina.

As luzes dos postes começaram a piscar, dificultando ainda mais a visão. Respirei fundo e falei gaguejando no início:

– Certo, m… me desculpe… ok? Vamos começar de novo. – Suspirei. – Boa noite. Meu nome é ######### e eu estou hospedado na cidadezinha que fica ali atrás. Estou com fome e vim para cá porque me indicaram um estabelecimento que pudesse me vender algo para comer, mas já estou nessa estrada há muito tempo e nã…

– Quanto tempo? – Ele me interrompeu.

– Cara, acho que há uma hora, não sei. – Olhei para meu relógio e notei que ele estava parado marcando 12 horas em ponto. – Bom, não sei. Meu relógio deve ter parado de funcionar e não percebi. Eu saí da cidadezinha com o sol se pondo e aqui estou.

– O sol se pôs muitas horas atrás. Não vê a lua acima de você?

Assustado, olhei para o céu estrelado e uma lua cheia brilhava como nunca vira antes. Eu teria dito que ele estava mentindo ou louco, pois não andei tanto tempo assim, mas a posição da lua, bem acima de mim, estava de acordo com sua fala. Parecia realmente ser muito próximo da meia-noite. Comecei a analisar tudo mentalmente. “Será que perdi tanto a noção do tempo? Será que peguei o caminho errado em algum lugar? Impossível, só tinham duas estradas. Aquela placa dizia que esta era a Estrada Velha. Uma única direção. Só se louca era aquela recepcionista! Não pode ser. Eu deveria ter ido pro mar, andar de lanc…”

– Você pensa demais. – Falou abruptamente num tom mais alto que o anterior. Assustei tanto que dei um pulo. Sua voz e a maneira como falava me arrepiou por inteiro. – Não é à toa que está perdido.

– O… O q… Hãn? O que você quer dizer? – Falei espantado.

– Você deveria parar de escutar o que as pessoas ao seu redor lhe falam para começar a escutar mais o que ELES lhe falam. – Falou virando de costas, pronto para continuar seguindo seu rumo.

– Eles? Eles quem? – Perguntei já não entendendo mais nada do que estava acontecendo ali.

Ele parou, de costas, embaixo de um foco de luz mais forte que o anterior. Sua capa preta brilhava e eu pude ver, desenhado na altura de suas costas, um grande triângulo preenchido na cor vermelha que chamava tanta atenção que parecia saltar para fora dela. Virou apenas sua cabeça sobre seu ombro esquerdo e disse:

– Nem a lua foi capaz de notar, quanto menos aqueles que querem lhe ajudar. Pois saiba que você anda mais bem acompanhado quando está só. – E voltou-se inteiramente para frente e começou a andar devagar. Seu andar era sereno, imponente, parecia que flutuava sobre o chão e que tinha tudo sob seu controle. Fiquei tão impressionado que por alguns instantes esqueci-me do que estava passando. De repente a lâmpada do poste por onde ele passava e piscava finalmente explodiu. Foi um barulho muito forte que me deixou atordoado. Uma dor de cabeça tomou conta de mim. Eu ajoelhei e senti o mundo girar ao meu redor. Urrando de dor, levei minhas mãos à cabeça gritando socorro e só consegui ver a silhueta da capa preta sumindo sob uma nevoeira escura devido à recente falta de luz e sua voz que ecoava por todos os lados. – Você deveria aproveitar mais o tempo que lhe foi concedido assim. Mas não se preocupe, as coisas vão melhorar. – Quando ele finalmente sumiu, cedi minhas forças àquela dor e desmaiei. Quando acordei, minha cabeça estava latejando, mas não doía mais. Levantei-me e fiquei me perguntando quanto tempo passara desacordado. A dor foi tão forte que acordei totalmente desorientado. Olhei para os lados e me vi bem no meio do cruzamento. Todas as luzes estavam funcionando como se nada tivesse acontecido e eu já não sabia de qual lado eu viera, para qual lado aquele homem fora. O cenário era igual para os quatro cantos da rua. Eu estava ferrado. Sabia que a serra estava à minha esquerda, mas apesar da noite limpa, não enxergava mais do que 300 metros à frente e a serra já tinha sumido de vista. O jeito era arriscar um dos quatro caminhos daquele cruzamento e rezar.

Tentei a sorte, tomei o que me parecia mais adequado e saí correndo. Corri, corri, corri muito. A sensação de antes de encontrar aquele homem, de que corria, mas não saía do lugar, repetia-se. Coisas horríveis já passavam pela minha cabeça. Era só o que me faltava passar a noite na estrada, no frio. “E se tiver bichos que podem me atacar? Urubus, sei lá.” pensei. Corri cerca de quinze a vinte minutos, segundo o que minha consciência me dizia. Minha cabeça começou a doer novamente, mas era uma dor muito pequena se comparada a que me fez desmaiar. Pensei que pudesse ser fome e o esforço físico que estava fazendo. Não comia desde o salgado que fingi ser almoço que comprei na rodoviária da minha própria cidade. Avistei algumas centenas de metros à frente uma grande árvore à beira direita da estrada. Grande mesmo, parecia uma figueira de muitos, muitos anos. Era um lugar estranhamente mais claro e logo notei uma figura vermelha embaixo daquela árvore. Tive a impressão de ser uma mulher. Comecei a correr mais rápido ainda até que me aproximei. Era mesmo uma mulher. Vestia um vestido muito vermelho. Ela percebeu minha presença e se virou para mim com um sorriso. Ela era linda e parecia ter seus 27 anos. Nunca imaginaria ver uma mulher daquelas ali, no meio do nada. O que ela fazia ali? Seu cabelo era negro, longo e ondulado, com um enfeite da mesma cor de seu vestido, assim como seu batom, deixando o resto dos cabelos caindo sobre suas costas decotada. Sua pele era branca e perfeita como o luar. Logo percebi que parecia ser uma cigana e lembrei-me do que a senhorinha da pousada havia me dito. Usava um colar de contas prateadas que combinavam com sua sandália. Seus brincos que caíam sobre seus ombros, por sua vez, eram dourados bem como seus adereços na cintura. Era de fato uma cigana. Em sua mão direita, coberta por uma luva preta, abanava um leque lentamente. Não sei quanto tempo perdi olhando hipnotizado para aquela mulher até que ainda ofegante, falei:

– Com licença, moça. Eu estou completamente perdido. Poderia me dizer para onde vai essa estrada? Essa é a Estrava Velha?

A mulher ainda sorrindo me disse com sua voz aveludada e cheia de classe:

– Olá, boa noite. Sim, esta é a Estrada Velha. Ela leva a uma antiga cidade adiante para quem nela caminhar. Diga-me, meu bom homem. O que estás a fazer por estes lados a esta hora?

Espantado com a pergunta, já que eu estava pensando em fazer a mesma, respondi:

– Como disse, estou perdido. Quero voltar para casa, mas não sei o caminho.

– Tu me pareces um pouco assustado. A Estrada Velha leva e traz bons homens assim em apenas uma direção. Como terias te perdido? – Perguntou ainda sorrindo e sem parar de se abanar. Reparei repentinamente que o frio tinha cessado. Ela, inclusive, não estava com roupas adequadas para a temperatura que eu sentira minutos antes. Certamente teria passado muito frio apenas com aquele vestido.

– Aconteceram algumas coisas muito estranhas, moça. Venho de uma cidadezinha na qual estou hospedado, caminhei aparentemente por horas sem perceber. Encontrei um homem que não falou comigo direito e logo depois passei mal e desmaiei. Agora já não sei em que sentido estou.

– Outro homem como tu está a vagar por essas bandas a esta hora? – Indagou curiosa.

– Sim, um homem estranho, falou umas coisas estranhas… que as coisas da minha vida iriam melhorar… Sei lá, umas loucuras assim.

Ela parou de abanar seu leque e seu rosto redondo com um sorriso logo deu lugar a uma expressão de dúvida e espanto. Num tom mais sério perguntou-me:

– Com licença, belo rapaz, poderias me descrever mais esse estranho homem que foi ao teu encontro?

– Ele não veio ao meu encontro. – Respondi sem saber qual a real necessidade daquela conversa. Queria logo ir embora dali, mas aquela moça era tão cativante que me fez ficar. – Nós cruzamos nossos caminhos por acaso. Era um homem alto, mas não tenho muitos detalhes porque não consegui ver seu rosto direito. E ele vestia uma capa que cobria todo o seu corpo.

– Uma capa? Como era essa capa?

– Preta. Muito longa e tinha um triângulo vermelho nas costas. – Falei forçando a memória.

A mulher expressou uma curiosidade que parecia tão grande quanto a minha. Fechou seu leque, colocou-o debaixo de seu braço esquerdo e pegou minha mão direita. Olhou bem para a minha palma e disse:

– Entendo. Tu és realmente mais especial do que imaginei.

– O que quer dizer? – Perguntei com medo de que aquilo se tornasse outra conversa maluca. – Você conhece aquele homem?

– Conheço o que meu povo me conta. Ele não é de se mostrar muito e é de poucas palavras.

– Sabe o que ele queria me dizer com tudo aquilo?

– O que mais ele te disse?

– Disse que eu caminho mais bem acompanhado quando estou sozinho.

– Se ele disse, então acredita.

– Quem é ele? O que ele quer dizer com essas coisas?

– Ninguém sabe o nome dele. Alguns que dizem conhecê-lo o chamam de Zanza. Mas isso não passa de uma lenda e não te podes confiar na palavra de qualquer um. Não se sabe se é seu nome mesmo ou se é porque fica a zanzar por aí. – Respondeu ela tirando os olhos verdes de minha mão e voltando-os para mim.

– Então por que eu devo acreditar no que ele diz? Como sei se era mesmo esse homem que falou? – Perguntei mais interessado que nunca. A essa hora já me esquecera da situação que estava e até da fome.

– Era ele porque a descrição que me deste bate e vejo em teus olhos que não estás a mentir. Lá de onde venho dizem que é um homem muito poderoso e que não se mistura com muitas pessoas, mas que os poucos com quem se mistura são pessoas muito formosas. Poucos se dão o luxo de tê-lo como amigo e que não te deves jamais tê-lo como inimigo ou te arrependerás eternamente. Contam que quando se pensa que ele está a caminhar sozinho para atacá-lo, surgem cem vezes mais criaturas da noite para defendê-lo, mas que mesmo assim ele não precisaria, pois daria conta de todos sozinho. – Abriu novamente aquele sorriso encantador e também o seu leque. – Tu pareces mesmo ser um rapaz de sorte além de muito belo.

– D… Da onde você vem? Mas… Como assim? – Gaguejei sem saber o que mais me espantava naquela conversa. – Afinal o que você está fazendo aqui a essa hora?

A mulher soltou uma gargalhada alta e imponente e continuou:

– Tu és belo, mas não tão esperto assim, não é mesmo? Achei que jamais perguntaria. Muito prazer, meu nome é Maria… – Era Maria. Maria…alguma coisa. Um nome composto. Eu estava tão nervoso que hoje não consigo me lembrar do nome daquela mulher. – Eu moro com meu povo nesta região. Estava aqui apenas a apreciar os presentes que este belo luar me envia todas as noites. Aqui, tome esta rosa. – E esticou sua mão esquerda que não vestia luvas, mas cujo braço estava enfeitado com uma grande quantidade de pulseiras prateadas. Ela me entregou uma rosa vermelha tão viva que lembrava aquele triângulo da capa daquele homem. Não sei da onde aquela flor surgiu que não havia reparado que estava com ela durante todo esse tempo, mesmo tendo prestado atenção em tantos detalhes. – É para retribuir o presente. Ela te trará sorte e te deixará mais calmo em tua caminhada. – Seus olhos brilhavam como verdadeiras esmeraldas.

Hesitei em pegar aquela rosa de uma maneira tão rude que fiquei até com vergonha.

– Que presente? – Perguntei.

– Ora, não és esperto mesmo. – E riu com classe. – Não te preocupes. Que mal uma simples rosa poderá fazer a quem está a caminhar perdido e desorientado? Afinal, tu agora és amigo de Zanza, o poderoso misterioso e eu não seria tão tola de fazer-te nenhum mal. – E me olhou com seu olhar sedutor, balançando seu leque veementemente.

Eu aceitei a rosa. De fato, o que uma flor poderia me fazer de mal? Aliás, que sorte e calma ela poderia me trazer também? Enfim, decidi aceitar apenas para não parecer grosseiro. Era só uma rosa afinal.

– Agora vai. Não te preocupes mais. Estás no caminho certo e a cidade logo aparecerá na vista. Sugiro que não te esqueças do que ouviu essa noite. Tu és um homem afortunado e recebeste uma oportunidade dada a pouquíssimos enquanto outros tantos que se dizem muito mais merecedores nem sequer passaram perto do que tu alcançastes.

Uma parte do meu corpo queria dar o fora dali, mas uma outra grande parte estava completamente hipnotizado e intrigado e me fazia querer ficar ali conversando com aquela mulher por muito mais tempo.

– Sinto ter de te deixar, meu querido. Sinto mesmo. Mas como já disse, não sou tão tola de mexer com os protegidos daquele homem. Não quero que ele pense coisas erradas sobre uma pobre e solitária donzela que fica a vagar por esta velha estrada até a subida da serra ao horizonte. Além disso, já deu minha hora. Faz exatamente seis horas que os sinos tocaram para a chegada da grande hora e o galo logo cantará. A lua não mais brilha com tanta força a partir de agora. – E então eu olhei para o céu e vi que a noite estava se acabando e chegávamos próximos do nascer do sol.

– Obrigado pelo presente. – Ela continuou. – Foi um prazer conhecê-lo.

Eu sem sequer conseguir falar tchau e muito menos imaginar o que seria o tal presente, hesitei, afastei e virei para a direção indicada. Comecei a correr. Minha cabeça já não latejava mais e eu me sentia muito mais calmo e com uma estranha resistência de quem estivera muito bem alimentado. Alguns metros depois voltei meus olhos para trás sobre meu ombro direito e já não via nem a enorme figueira e muito menos a misteriosa mulher. Não quis saber, acelerei o passo em tempo que o dia nascia à minha frente. Estava, de fato, na direção certa. Cinco minutos correndo e avistei a cidadezinha. Passei pelo poste com os dizeres “Estrada Velha” e fui direto acertar minhas contas com a senhora da pousada para ir embora daquele lugar. A cidade ainda não tinha acordado. Entrei na pousada e não havia ninguém na recepção. Corri para meu quarto, peguei a chave e abri a porta agitado. Estava finalmente salvo. Olhei para minha mão e ainda carregava a rosa daquela mulher. De alguma forma aquilo realmente parecia ter me acalmado. Estava já tão consciente que decidi aproveitar para me deitar e descansar por algum tempo. Fui colocar a rosa sobre a poltrona e assustei ao me deparar uma bandeja com pães frescos, manteiga e uma garrafa de leite também fresco nela. Imaginei que a recepcionista tivesse entrado em meu quarto e deixado ali como cortesia para o café da manhã. Sem pensar, ataquei a bandeja que me serviu de banquete. Logo virei para a cama e capotei ao lado da rosa.

Horas depois acordei assustado. Havia dormido tão profundamente que acho que nem devo ter sonhado. Não sabia que horas eram, mas tratei de arrumar minhas coisas rapidamente para ir embora. Taquei minha mochila nas costas e, indo em direção à porta do quarto, parei, olhei para cama e vi aquela rosa lá, vivíssima. Logo lembrei daquela mulher dizendo “que mal uma simples rosa poderá fazer?” e voltei para pegá-la. Tranquei o quarto e caminhei para a recepção. Um senhorzinho muito velho e simples estava lá para me atender.

– Bom dia. – Disse a ele. – Obrigado pelo café da manhã. Perdi a noção do tempo. Poderia por favor fechar minha conta?

O senhor me olhava como quem vira um fantasma. Eu notei o espanto e falei:

– Desculpe-me a agitação. Eu cheguei ontem, não tive a oportunidade de te conhecer. Falei com aquela senhora que fica aqui. – E logo lembrei que passei tudo o que passei porque ela não me deu as orientações corretas, mas não conseguia ficar bravo com uma senhora tão simpática e que ainda teria me servido o café da manhã. – Aliás, agradeça a ela pelo café da manhã, por favor.

– Não há nenhuma senhora aqui, meu senhor. – Falou o homem quebrando seu silêncio.

– Como assim? Aquela senhorinha de cabelos curtos e óculos que mora aí.

– Receio que esteja confuso, senhor. Não há ninguém mais que mora aqui além de mim desde que minha esposa faleceu há 14 anos e você é o único hospede que temos no momento. Aliás, eu nem sequer sabia que você estava por aqui. Aonde conseguiu a chave desse quarto?

Eu estava ficando atordoado novamente, mas respondi:

– Pois foi essa senhora que me deu. Ela me recebeu ontem no final da tarde e me levou até o quarto 7. Tome aqui a chave. – E entreguei a chave na mão dele. – Se não foi ela e o senhor não sabia que eu estava aqui, quem então me serviu o café da manhã?

– Nós não servimos café da manhã, meu senhor. – Disse ele com o olhar tão curioso quanto o meu. – E o quarto 7 está interditado por problemas no encanamento há uma semana. Inclusive ontem no final da tarde eu estava a procura de um encanador e a pousada estava fechada. Não havia ninguém aqui.

Decidi simplesmente não dizer que no dia anterior havia tomado um banho normalmente. O homem já estava tão confuso quanto eu pensando que eu havia invadido a pousada. Paguei logo o que devia e saí apressado. Fui até o ponto de ônibus no qual tinha descido no dia anterior e peguei o primeiro ônibus de volta para casa já querendo tirar outras férias. Um lado da minha consciência queria se livrar daquela rosa e de tudo que me remetesse àquelas memórias, mas não consegui me desfazer dela que acabou durando viva cerca de duas semanas.

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