Caixa de papelão


Deixem-me contar sobre minha vida. Sobre minhas vontades, esperanças.
Quando foi que pedi para ter tudo o que tenho? Quando foi que escrevi meus sonhos num papel e entreguei nas mãos de alguém que chamam de Deus? Dessa realidade que vivo, o que ganharei saindo daqui e por que não consigo ficar em paz?

Essa vida que me prega peças todos os dias como se quisesse me ensinar algo diferente. Dizem que quem insiste no erro é burro. Se for assim, não teria passado da pré-escola. Cometendo os mesmos erros de um garoto de quinze anos, com a consciência de cometê-los. Um misto de orgulho com teimosia e cara-de-pau. Perseverança já não é há muito tempo.

Existe alguém para me salvar? Salvar-me de mim mesmo. Penetrar minhas barreiras que já não sou capaz de abrir e mostrar o quão florido pode ser o mundo do lado de lá, com amor, vulnerabilidade e sentimentos. Tão mais colorido e cheiroso que o mundo do lado de Cá, rústico, cinza, chuvoso e mórbido. Baseado em passados e sem abertura para o futuro. E de que adianta ser se for para ser assim? Ser isso e não ser um ser humano. Abro a janela e vejo o céu chuvoso enquanto sinto o vento gelado cortando meus olhos que doem.

Acompanhado de minha principal companhia que chamam por aí de Solidão, saio de casa na madrugada e caminho enquanto sinto as gotas que caem do céu no topo de minha cabeça. Um sobretudo que se umedece aos poucos me envolve como um abraço. Quente por agora, mas que se esfria com o tempo. Cruzo as ruas, os semáforos, viro esquinas e só o que encontro são extensões de minha companhia. Casais passam dividindo guarda-chuvas enquanto sorriem. Chegarão ao conforto de suas casas sem reclamar da água no corpo, tomarão um banho e se encolherão debaixo de algum edredom em frente a um filme mequetrefe que, para a situação, está mais do que bom. Pergunto-me se essa sombra que tanto insiste em me perseguir faria o mesmo comigo. Uma tigela de pipoca, um copo de refrigerante com gelo. Não é pedir muito.

Andando sem rumo, sento num banco de praça. Apenas a luz de um poste bem acima de mim ilumina o ambiente. A chuva dá uma trégua e aproveito para me aconchegar no pouco de calor que meu próprio corpo produz e penso nas coisas que tenho feito, nas coisas que têm feito comigo, por aí. Tudo o que tenho errado, tudo o que voltaria atrás. Tudo o que tenho feito com as pessoas que não deixo entrar. Todos precisam de alguém. Precisam de um alguém. Meu corpo intacto judiado pelo tempo que se passou se sente só. Uma vez escutei que esse tal de tempo cura qualquer coisa. Bobagem. Uma das maiores que já pude escutar. O tempo fecha buracos, mas jamais apagam as cicatrizes. Há muito que já sinto falta de alguém. Alguém corajoso o suficiente para persistir. Alguém mais forte que eu, que possa me vencer e entrar, cavar até achar o baú onde guardo sentimentos cujos nomes não lembro mais. E que tenha uma escada grande para voltar porque a viagem até o fundo do buraco não é pequena e eu sei que não.

Viver sozinho no mundo não é bom. Queria poder dividir mais alegrias que tristezas. Mais sorrisos e abraços que raiva e ódio. Mais sol e menos chuva.
Levanto do banco, a chuva voltou a cair. O mundo é silencioso, sem música, sem cantos. Com poças de água para todo lado que só aumentam. Um cachorro cruza meu caminho e entra numa caixa de papelão de um beco de onde faz sua casa. Pobre cão. Identifico-me com ele. Pobre cão. Sem um lugar para chamar de seu. Sem alguém para chamar de dono, para se aconchegar nos braços enquanto abana o rabo sem ter que pensar em como será o dia de amanhã. Cachorros são inteligentes, mais que os humanos. Enquanto nós buscamos sabedoria, coragem e iniciativa para viver um dia como se fosse o último, eles são mais espertos e vivem um dia como se fosse único. Amanhã este cachorro acordará e terá esquecido do dia anterior. Da chuva que tomou, do frio que passou, dos chutes que levou. Das comidas que lhe foram rejeitadas e, principalmente, da solidão que o acompanhou. Certo de que o próximo dia será único, ele viverá novamente. Queria ter sua sabedoria.

Passo a passo de volta para casa. Horas se passaram como minutos. A madrugada castigou os filhos da noite. Parado em frente à minha porta de entrada com a chave na mão, penso no que encontrarei lá dentro. Uma pessoa, vestindo uma calça e uma blusa moletom cujas mangas ultrapassam as mãos. Cabelo longo e preso, caído de lado. Cara de preocupação que logo muda quando me vê. Corre ao meu encontro, me abraça com mil palavras a dizer, sem dizer nenhuma. Deitaremos juntos pelo resto da noite, felizes como se eu fosse uma boa pessoa. Duas voltas na chave, uma volta na maçaneta e ninguém do lado de dentro. Da casa e de mim. O mesmo ar, as mesmas cores cinzas e o mesmo tempo chuvoso do lado de fora. Do lado de lá e de Cá. Tiro meus sapatos gastos e encharcados, subo as escadas, jogo minhas roupas molhadas na cadeira e tento preencher uma cama para dois sozinho. Fazendo dela a minha caixa de papelão.

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