Fones de ouvido.


Era um dia rotineiro de uma semana corrida, embora também rotineira. Noite de quinta-feira e o bom aluno, cujas aulas se revezavam entre manhã, tarde e noite na faculdade, estava a caminho de mais uma. Ao chegar na universidade, como sempre atrasado, o estacionamento já se encontrava costumeiramente tomado por um mar infinito de carros. Não restava alternativa a não ser estacionar seu veículo numa das vagas mais longes do mais distante dos estacionamentos. Coincidentemente ou não, aquele que ficava exatamente do outro lado do campus em relação a sua sala de aula.

Já cansado do óbvio e do dia, quando um curso integral como aquele tomava bem mais que simplesmente seu tempo, ele repousou seu carro ali num dos espaços, pegou sua mochila e preencheu seus ouvidos com fones e sua mente com sua seleção de poucas músicas que cabia na memória de seu celular. Era um longo caminho até a sala, já estava atrasado, então não fez muita questão de correr. Tranquilizou-se da adrenalina do trânsito noturno, jogou sua mochila nas costas e enfiou suas mãos nos bolsos do casaco enquanto andava sereno aproveitando cada segundo da música que escutava em direção ao seu destino.

Dois minutos de caminhada se passaram e ele já estava ao lado de um dos primeiros prédios de salas de aula onde alguns alunos conversavam, davam risada e se aconchegavam do frio. Olhou para o aglomerado com seu ar esnobe de sempre, apenas analisando cada uma das pessoas, até que algo aconteceu. Surgira repentinamente ao seu lado uma garota. Seu ar esnobe acompanhado de apenas uma sobrancelha levantada logo se transformou numa fisionomia de espanto. A garota andava na mesma direção e sentido que o rapaz e ele nem sequer tinha se dado conta de qual daquelas tribos ela saíra. Naquele momento não importava. Com sua grande admiração por mulheres que sempre teve e com uma discrição enorme, analisou aquela figura em um segundo e meio. Para isso, retirou seus fones de ouvido esperando transparecer uma imagem mais séria, algo que ele se arrependeria muito em determinado momento futuro. Era uma linda garota com seus 21 ou 22 anos, mesmo tamanho que ele, cabelos dourados e presos por uma trança lateral caída à frente de seu ombro esquerdo. Uma bolsa razoavelmente grande e de cor preta com franjas, onde ela deveria carregar todo seu material acadêmico necessário, pendurava-se em seu braço esquerdo dobrado em noventa graus. Usava uma camiseta estampada branca, uma jaqueta cinza escuro, calça do tipo legging preta e sapatilhas listrada em branco e preto. Um segundo e meio apenas. Apenas o suficiente.

Ele voltou com sua postura de alguém decidido a tomar seu caminho. Pararam lado a lado antes de atravessar a rua, esperaram o único carro passar e seguiram. O percurso ainda era longo até a classe. Nosso amigo ainda se perguntava até onde aquela garota seguiria os mesmos passos que ele. Andaram devagar durante uma longa subida e o clima inevitável surgiu. Era óbvio. Só tinham os dois ali. Ele sabia que ela estava prestando atenção nele. Ela sabia que ele estava prestando atenção nela. Ele sabia que ela sabia que ele prestava atenção nela. Ela sabia que ele sabia que ela prestava atenção nele. Todos já experimentaram isso. Eles experimentaram ali. Numa velocidade moderada continuaram a subir em direção à praça de alimentação, último ponto de referência do campus antes do prédio de sua aula que, a esta altura, já se encontrava longe de sua cabeça e preocupação. Atrasado? Jamais se lembraria deste detalhe.

Entraram juntos, caminhando a menos de dois metros um do outro, na praça de alimentação. Novas turmas e tribos se dividiam nas infinitas mesas claramente já utilizadas no intervalo de aulas anterior. Ainda com ar muito sério, ele atravessava o local sempre com seu olhar à frente ou ao lado contrário da garota, como se ainda estivesse fitando cada um ali, muito embora todos parecessem invisíveis naquele momento, já que aquela presença lhe consumia toda a atenção. A praça parecia muito maior que o de costume, até que finalmente acabou e eles chegaram nas portas contrárias daquelas que tinham entrado juntos instantes atrás. O rapaz voltou um pouco ao seu mundo real e viu que chegara em seu prédio, mas não pôde deixar de notar que ela ainda caminhava na mesma direção. Ela entraria no mesmo prédio. Aquilo era demais. Aquilo significava alguma coisa. Na cabeça dele significava. Aquilo era muita coincidência. Uma garota tão linda, tão sutil, tão delicada, tão bem vestida, ainda que com consideravelmente pouca roupa se levado em conta o frio que fazia, transmitindo certa agonia, mas que aumentava a vontade de virar e dizer um oi, oferecer abrigo para o frio embaixo de seus braços cobertos pelo seu grande casaco de moletom. Tão linda, tanto caminho, tanto tempo, tanto celular. Celular? Ah, sim, o celular dela tocou. Entravam no prédio e chegava a hora de tomarem seus caminhos e se separarem, cada um para sua classe. Mas o celular. Por que tocara? Não podia esperar a fantasia terminar? Tinha que acordá-lo de seu sonho consciente? Faltava pouco para que ele nunca mais a visse, talvez. Quem quer que tivesse ligado poderia ter esperado mais um minuto. Um minuto só.

Ela meteu a mão direita em sua bolsa, – nessa hora o rapaz já olhava diretamente para ela, a garota estava com sua atenção voltada para o som de seu celular e nem repararia nele e em seu, agora descarado, olhar – procurou lá dentro como se estivesse desviando de muitos acessórios que carregava, apanhou seu celular, olhou para a tela, deu um sorriso – e que sorriso -, botou na orelha e disse com uma voz tão aveludada quanto suave: “Oi, amor. Estava esperando você ligar.”

Eles se separaram e ele jamais deveria ter retirado seus fones de ouvido.

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