Os amigos que não enxergamos.


Hoje acordei com uma intuição. Já estou de férias e não perderia minha primeira manhã da mesma indo à faculdade para ver minha prova cujo resultado já sabia e também sabia que fora reprovado. Mas fui. Fui porque a intuição estava muito forte. Alguém praticamente berrava silenciosamente em meus ouvidos para ir. Fiquei pensando se pudesse ser uma intuição do tipo “Vá, que o professor aumentará sua nota.”. Pensei tanto que decidi ver o horário e ir, ainda dava tempo.

Trânsito tranquilo. Surpreendentemente eu não estava atrasado e nem tampouco maus motoristas ficavam em minha frente. Todos estranhamente saíam do meu caminho, o que me deixava ainda mais intrigado com a intuição. Será que ela se concretiza?, pensava enquanto dirigia calmamente em direção à PUCC. Ao chegar, encontrei-me com meus usuais colegas e notei que ainda que acordando um pouco mais tarde do que o comum para dias letivos, chegara antes do horário da aula. Quase dez minutos depois, eis que surge a fera, o professor, o responsável por dar a palavra final. Eu, assim como muitos daqueles colegas presentes, estava reprovado, mas tinha uma peculiaridade: eu não estava ali para chorar nota. Eu estava ali por causa de uma intuição. Já conformado com a nota abaixo da média, fui apenas para não ficar com peso na consciência de possivelmente depois alguém chegar e dizer: “Poxa, ele aumentou a nota de todo mundo que estava lá! Deveria ter ido!”, ainda mais por se tratar da disciplina mais difícil do meu curso e quiçá da PUCC inteira. Entramos na costumeira sala de aula e nos acomodamos friamente em nossos lugares, uns afoitos, uns angustiados e outros, no caso eu, simplesmente vendo o que acontecia.

Uma breve entrega de provas e alguns desesperados já rodeavam o professor para buscar um milésimo de ponto que fosse em qualquer risco de grafite contido em seus papéis. Eu, sentado, conferindo o gabarito e o que deveria ter feito. O professor em questão tem personalidade muito forte e já ia logo dispensando aluno por aluno até que me dou conta de que só restava uma pessoa dentro da sala enquanto o último aluno saía acuado. Eu, acomodado numa das carteiras no centro da sala e o professor em sua mesa voltando-se para mim que perguntou: “E você, Cássio? Fale…”. Já conformado desde muito antes, preocupei-me em deixar claro que não estava ali para encher seu saco e respondi: “Eu nada. Não tenho nada para falar.”. Um certo nervoso se instalou em mim e senti um vácuo pouco acima da boca do estômago quando o intervalo silencioso entre as falas terminou e ele retrucou: “Eu sei que não. Mas eu tenho.”. Fiquei surpreso e ainda mais nervoso, mas como obriga meu Ego, mantive a postura com classe, coloquei minha máscara de pessoa que tem tudo ao seu redor sob controle e disse “Pode falar, [nome].”…

Certas coisas vem para o seu bem, por mais que pareçam o contrário. Não estou fazendo discurso de que papai do céu está aí te enviando mensagens e blablablá. E nem espere isso de mim. Mas naquele momento eu já sabia que minha intuição não falhara e eu certamente perderia um momento importante se tivesse ficado dormindo aconchegado em meu par de edredons. Naquele momento, depois de tudo o que tinha presenciado a respeito dos outros colegas que a essa hora já tinham deixado a sala, sabia que eu não seria aprovado por mais que o professor quisesse me ajudar, portanto não esperei algo desse tipo, mas foquei toda minha atenção nas palavras que estavam por vir. Sempre admirei muito esse professor, por sua personalidade, pelo seu caráter, pela sua história, pela sua tamanha inteligência e competência naquilo que faz etc. É um dos caras que eu mais confio lá dentro da instituição, por mais que isso possa soar estranho. Um professor de faculdade é o cara em quem eu mais confio. Ele então olhou atentamente para mim e disse: “Você é um desperdício, sabia?”.

O impacto foi grande, o vácuo em meu interior até sumira e eu tive quase a sensação de escorregar pela cadeira e parar no chão depois disso, mas meu Ego foi insistente e me segurou, muito embora a porrada tivesse sido forte o suficiente para quebrar em quinhentos e trinta e sete pedaços e meio a máscara que estava usando. Sem ela, respondi calmamente: “Sim, é eu sei mesmo.”. A resposta foi tão repentina que senti meu Ego me dar um tapa na cara, mas revidei e pedi mentalmente que ele se sentasse ao meu lado e se acalmasse porque isso era algo que eu deveria escutar. O professor então continuou seu raciocínio e completou: “Eu te acho um dos maiores desperdícios desta faculdade. Consigo perceber que você não merece estar aonde está. Você merece pela quantidade de esforços que você dá, mas não merece se esforçar tão pouco.”. As palavras, que não foram exatamente essas, mas que claramente representam exatamente o que ele quis me dizer, fizeram com que meu Ego sumisse da cadeira ao lado. Mandado direto para um lugar aonde não o encontrei até agora – talvez nem tenha voltado da universidade comigo, deve ter ficado por lá perdido – fiquei sem força nenhuma e todas as barreiras que eu criei em longos anos de trabalho duro desmoronaram. Estava completamente vulnerável e escutei atentamente cada frase que saía da boca daquele homem, cada expressão em seu rosto, cada gesto de suas mãos. Tentei assimilar tudo que achava possível. Inclusive sua postura.

No final da conversa, sem a máscara do controle total do ambiente, tentei ao menos parecer que tinha o controle de mim mesmo para não chorar, mas não precisei me esforçar muito pois logo ouvi sair de sua boca: “Faça uma autocrítica. Agora que está de férias, pegue um momento sozinho sem pensar em mais nada e repasse tudo o que fez neste semestre. Como você tem agido? Aonde chegou? É isso que você queria no começo do semestre? O que fez que agora pensa que teria feito diferente? Depois que fizer essa autocrítica, entre em contato comigo e vamos tomar uma cerveja para conversar.”.

Terminamos a conversa caminhando para nossas respectivas saídas da universidade. Uma conversa amigável, ainda no mesmo assunto, mas não se tratando do mesmo tema. O foco não era mais minha pessoa. Ao nos despedirmos, uma troca de votos de boas férias foi dada, um aperto de mão partido da iniciativa dele e mais duas mensagens: “Você reprovou, não foi desta vez. Da próxima vez, cobre-me e eu lhe cobrarei para lhe ajudar. Se você tiver vontade, eu te ajudo a não ser mais um desperdício.”.

O professor em questão é alguém por quem tenho muito respeito e admiração. Pelas coisas que já citei lá em cima, mas principalmente por uma delas: seu caráter. Ele é professor há mais de vinte anos só na PUCC, pai de três filhos, marido e, depois de hoje, ficou muito claro que também é um verdadeiro e valioso amigo. Porque amigo para mim é isso. Amigo não te consola, amigo não te diz que as coisas são assim mesmo e fica por isso, amigo não te diz para seguir em frente. Amigo mesmo é capaz de fazer tudo isso e ainda apertar a sua mão e dizer na sua cara “Você está errado. Não é assim. Eu vou te direcionar para o lado certo e nós vamos juntos.” sem mesmo precisar ser alguém próximo de você.

Obrigado, intuição. Você estava certa de novo. Ganhei muito mais que uma aprovação ao sair da cama nesta manhã.

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