Estrelas do céu


Você se lembra daquela noite em que caminhamos juntos de pés molhados na areia sob o som, vento e reflexo da lua que vinham do mar? Uma praia que outrora tivera crianças que fantasiavam dentro e fora de seus castelos de areia tão rústicos quanto enormes em suas imaginações e que tinha agora, de um lado, apenas um homem pensativo tentando afogar sua vida em uma garrafa; do outro lado, luzes da pequena cidade litorânea que se afundava na ressaca da madrugada já pela metade; entre eles, eu, você, nossos dedos entrelaçados e um enorme rastro de pegadas que nos seguia.

Promessas jogadas ao ar iam e vinham no ritmo das ondas. Já cansados e sentados encarando a imensidão negra e hipnotizante, busquei seu olhar e me peguei confuso ao ver dois pontos misturados ao punhado de estrelas de luzes intensas ao fundo. Percebi para onde olhar ao buscar as duas mais ofuscantes.

A praia era vazia como o mar ininterrupto. Quantas poesias e declarações de amor aquelas águas já teriam escutado antes das minhas? Precisava de algo novo, diferente, único. Decepcionar o mar é como decepcionar a si mesmo. As águas são antigas e sabem o que ouvem. Muito mais, sabem o que falam. Sua maresia possui um motivo e fui muito feliz em perceber. Como com um guia, prestei atenção nas palavras que o mar dizia e, gradativamente, fui descobrindo o que lhe falar. Pensei que nunca seria capaz de falar coisas daquele tipo e, no final, me dei conta de que não precisei surpreender mar nenhum. Ele me ajudara e me encaminhara para o mais compensador dos tesouros. O que dinheiro nenhum compra e o que em lugar nenhum se encontra igual. Seu sorriso surgiu em tempo que suas estrelas quase se fecharam. Seus lábios se mexiam, mas eu não podia ouvir o que dizia, ainda estava sob o efeito do mar e do seu sorriso. São muitas coisas para um mesmo homem como eu racionalizar. Leva tempo. Tempo suficiente para não perceber sua mão sobre a minha e sua aproximação.

Como de supetão, estava deitado na areia e você em cima de mim com suas mãos em minhas bochechas me dando leves beijos apaixonados. Não achava mais as duas estrelas. Seus olhos fechados foram como um aviso de que deveria fechar os meus também. Momentos depois, lado a lado, admiramos o céu de um jeito que me fez viajar até a próxima galáxia. O mar cochichando e a grande escuridão sobre nós me foi tirando a atenção de tudo o que ainda restava. Perdi meus sentidos e finalmente caí no sono. Lembro-me de sentir por último o calor de sua macia mão esquerda em cima da minha direita.

Gritos, latidos e um clarão surgiram. Amanhecera e famílias agora chegavam para mais um dia de férias. Um homem com seu cachorro. Aquele da garrafa sumira assim como nossas pegadas e as estrelas. Hoje voltamos para casa, caminhando e rindo. Seus cabelos que tanto insisti para deixar crescer balançavam ao vento. Despedi-me do mar mais uma vez e agradeci por tanto que fizera por mim, prometendo que voltaria mais uma vez não dando por satisfeito com o que vira na noite anterior, com novas esperanças, novos sorrisos, mas sempre buscando o melhor caminho para o mais belo par de estrelas.

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