Uma criança em seu quarto escuro, sem luz, sem esperança, sem caminho. Enfiada em seus medos mais profundos que a consomem lentamente. Ela jamais acreditaria, jamais apostaria, até que acontecesse. Um castelo de fantasias criado em tanto tempo pelos seus sentimentos desabou em segundos como se feito de cartas de um baralho e o mundo todo em guerra lá fora, para depois dos limites de seu reino, finalmente invadiu seu território e mostrou a fria e amarga verdade da vida.

Sem forças, a criança não se levanta. Fica apoiada em duas paredes, repousando-se no chão e abraçando seus joelhos enquanto imagina o que estaria acontecendo do outro lado. O lado de lá, aquele lado que ele não dava valor e que agora, já quase definitivamente tão longe e fora de alcance, faz-lhe falta como se fosse um lado inteiro de seu corpo. Acabando-se em arrependimentos, suas lágrimas escorrem tais quais seus pensamentos entram e saem de sua mente.

Vozes ao fundo, pai, mãe e amigos chamando pelo seu nome como ecos a fim de tirá-lo de lá, daquele fundo, mas não passam disso, meros efeitos sonoros em seus ouvidos que logo se extinguem. Seus sentimentos falam muito mais alto que qualquer coisa agora. Quem dera pudesse mostrar ao mundo, ao seu reino e depois dele, tudo o que está dentro de seu coração. Quem dera fazer certo. Quem dera fazer dar certo. Demonstrar confiança e também, senão mais importante, transmitir.

E por que não desistir? Por que acreditar? Por que não deixar a vida continuar, as pessoas lhe indagam. E com olhos marejados e mãos trêmulas enxugando suas bochechas vermelhas ele só responde que vale a pena. Vale a pena ter tudo de novo. Vale a pena ser feliz daquela forma. Esperança, um fio, ainda existe. Sofrer tanto assim por ele? Sim, vale a pena, segundo ele. Depois de tanto fazer mal e judiar de seu castelo, que tanto resistiu às tempestades, tanto lutou contra as pedras acertadas contra sua mais forte estrutura, agora que se rompeu, ela encontra motivos para reconstruir. Ele sempre foi forte, robusto, resistente. Caiu, mas seus alicerces ainda estão lá e desta vez, uma vez reconstruído, ficaria ainda mais forte. Porque desta vez haveria confiança correndo entre suas barreiras, torres etc.

De seu reino ele não abre a mão, seu castelo de cartas, ele não desiste de reconstruir. Seus medos profundos continuarão vagando pela sua mente até que tudo seja destruído, pois é o que parece, mas não é o definitivo. Não é o que acredita. E o Tempo, tão sábio Tempo, aquele que é o que arruma todas as coisas, mas aquele que mais faz sofrer; aquele que é o melhor amigo por resolver tudo, mas o maior inimigo por fazer esperar; há de agir. E ao lado dele, a criança caminha sofrendo como inimigo, mas aguardando a recompensa de um melhor amigo. Ao lado dele, carrega em sua pequena bolsa nada mais que esperança e medo. Mas tudo há de chegar novamente e todo o castelo há de se reerguer. Em seu quarto escuro, sem luz, ele novamente brilhará entre as guerras e eras. Carta por carta.

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