O Mundo do Lado de Cá: parte I


Os ponteiros marcavam dois minutos para oito horas. Na janela só o brilho da lua. Era mais uma noite limpa lá fora. Em seu rosto a marca do tempo. Já se passara trinta e seis anos desde que entrara pela primeira vez naquela cela. Sua pele branca e desidratada traduzia a angústia da solidão. Após mais um dia de serviços, o velho homem já nem pensava mais no mundo conhecido como o lado-de-lá. Assim era chamado tudo após as fronteiras do lugar pelos guardas. Sua vida, no entanto, se resumia inteiramente em um lugar escuro, úmido, com paredes de pedras frias e uma goteira bem ao lado esquerdo de quem, livre, vê. Livres ali somente os guardas autorizados. Homens fardados de preto com seus cacetetes embainhados, lustrados e quase nunca utilizados. Não é preciso força para aquietar aquele que não tem esperança. Esses homens também tinham um nome como eram reconhecidos. Os roupa-pretas. Roupa-preta e roupa-cinza que, por sua vez, eram os prisioneiros. Cinza para ser suficientemente melancólico. Uma cor homogênea que se mistura com o fundo da cela a fim de nada se enxergar além de algo insignificante, imóvel. Preto por ser cor que lembra a morte. A cor dos carrascos. Para se olhar e não se lembrar de mais nada a não ser o próprio destino. Desnecessário. Ninguém ali tinha mais do que se lembrar.

Oito horas. Tempo de comer. A janelinha na porta se abriu e uma luva preta segurando um prato cheio encobriu a luz de fora da porta, depositando aquilo que lhe sustentaria vivo nas próximas horas. A comida não era ruim, pelo contrário, era bonita e de qualidade. O prato sempre parecia muito limpo e os talheres descartáveis vinham dentro de um saquinho de plástico para não sujar. O objetivo ali não era tratá-los como prisioneiros em si, além do fato de ficarem trancafiados em celas particulares, mas sim mantê-los para vivenciar a solidão, escuridão e o barulho ensurdecedor que corria apenas em suas mentes. Em seguida, a janelinha novamente se abre e um copo de água aparece. Ele pegou o prato e os talheres e encheu seu estômago com o que tinha ali. Não demorou nem dez minutos para isso. Esvaziou todo o conteúdo do copo em sua boca e o colocou junto com o resto ali mesmo aonde os encontrou. Exausto pelo dia cheio de serviços pesados, voltou a se sentar em seu colchonete ao fundo da cela para encarar novamente o brilho na janela. Ela ficava tão alta que mal se conseguia ver o céu e a luz que entrava rasgada por causa das duas barras verticais que formavam uma grade. Seu olhar era profundo e seus pensamentos não estavam ali na cela ou sequer do lado-de-lá. Estava chegando a hora.

Às vezes se pegava tentando lembrar do porquê de estar ali. Após um crime grave em sua terra, o homem fora condenado a prisão e sentenciado à morte pelo seu povo. Não se conhece o crime nem o motivo pelo qual o cometeu. Pelos dizeres confusos, não se supõe também uma data e nem tampouco uma localização. Sabia-se que era uma terra distante e com costumes peculiares. Com tão pouca coisa a se fazer, a cabeça daqueles prisioneiros passavam a pensar cada vez menos no mundo real e cada vez mais naquela triste realidade. Com penas menores, alguns chegavam ao fim de suas vidas lúcidos.

Após algum tempo tudo tende a cair na rotina. Não foi diferente neste caso. A tal rotina tomara conta de sua vida. Acordar, tomar a primeira refeição do dia, fazer a primeira parte de seus serviços diários na prisão, tomar a segunda refeição, voltar para o trabalho e, ao pôr-do-sol, retornar para a cela e esperar o horário da última refeição diária. Era nesta hora que tinha tempo para pensar. O que mais cotucava sua mente nos últimos dias era, apesar da exaustão, a gratidão por poder trabalhar ali. Sua pena lhe dava o direito de sair de sua cela e prestar serviços para a prisão, o que certamente fora crucial para lhe manter vivo até então. Não podia falar com ninguém, mas de um jeito ou de outro ficara sabendo que muitos ali não tinham este “privilégio” e acabaram por morrer na loucura dentro de suas celas onde entraram e jamais saíram. Não conseguia se esquecer das noites que passou em claro escutando gritos daqueles que se renderam às próprias ilusões.

Sem família, pelo que parecia, jamais se casara ou procriara. Não implorava por sua liberdade e também não dava trabalho. Apenas vivia e se deixava viver. Ficava ali sentado pensando o tempo todo. Com o estômago cheio e sob o brilho daquela noite, deitou-se e fechou os olhos. Estava muito cansado e não demorou para cair no primeiro sonho. Viu-se num corredor cujas paredes eram uma fila de seres humanos. Prestou mais atenção e viu que estes eram vários roupa-pretas um ao lado do outro. Todos iguais como clones, com um rosto encoberto pela sombra do ambiente que não deixava ver os olhos e mãos para trás. O resto do lugar tinha um aspecto mórbido e vermelho, apesar de familiar. Chegara a conclusão de que era o pátio aonde passava o dia trabalhando. Olhou para trás e não conseguiu achar o fim da prisão. As duas fileiras de roupa-pretas que formavam o corredor parecia infinita e a imagem acabava ficando embaçada. Olhando novamente para frente, viu, a algumas dezenas de metros, uma plataforma, um lugar mais alto aonde se encontravam dois seres. Um roupa-preta que repetia o gesto dos demais esperando que ele fosse até lá ao lado de um ser estranho. Sabia que era uma pessoa, ou pelo menos tinha porte físico de uma, entretanto parecia embaçada, bem como a imagem do infinito a suas costas. Ela também vestia uma roupa preta, mas era diferente de uma farda. Parecia ser uma capa com um capuz encobrindo toda a cabeça. Em volta dela uma espécie de névoa que distorcia ainda mais a imagem do fundo, como uma aura bem carregada.

O homem então se sentiu atraído para lá. Não tinha mais para onde ir. Com um passo hesitante de cada vez ele chegou ao primeiro degrau da plataforma de cabeça baixa. Arriscou olhar novamente para os dois seres. O primeiro parecia ser igual aos que formavam o corredor. Virou-se para encarar o outro e ao direcionar seu olhar diretamente para aquela figura, sentiu como se um som altíssimo e agudo atravessasse sua cabeça como uma espada. Seu primeiro reflexo foi fechar os olhos e abaixar novamente sua cabeça. Não conseguira ver quem ou o que era, mas sentiu algo muito estranho. Algo como um receio, coisa que até o momento não tinha acontecido. Não queria olhar novamente. Achava que não deveria. Sem falar nada, subiu os outros cinco degraus da plataforma e se deparou com o que seria o fim de sua vida. Parecia como uma guilhotina. Um lugar para apoiar a cabeça, porém sem a lâmina. Ao invés disso, aquele com a capa preta carregava uma foice grande e aberta. Sabia que tinha que se ajoelhar e assim o fez. Sua angústia foi aumentando e só piorou ainda mais quando percebeu que conseguia sentir a presença daquela criatura assustadora chegando cada vez mais perto. No chão via apenas a sombra do roupa-preta ao lado direito, já a outra não, mas sentia que o ser estava lá, do seu lado, se movimentando. Era agora a única coisa que se movia. Um calor começou a subir em seu corpo, sentiu o ar ao seu redor parar e um silêncio absoluto tomar conta do ambiente quando subitamente fecha os olhos e tudo passa a ser preto. Abriu e estava ali, dentro de sua cela novamente. Um pouco mais clara que antes. Já era dia e a noite passara num simples piscar de olhos. Começava mais um dia de trabalho.

[Continua…]

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