Rascunho


O garoto sentado no banco da avenida vê a silhueta da menina à frente do pôr-do-sol na beira da praia. Subitamente um filme passa em sua cabeça. Que menina é aquela? Tamanha beleza e simplicidade. Olhar superior e delicadeza no andar. Para onde vai a menina? Ela tem namorado? Procura por um? Eu sou o namorado para ela, posso fazê-la feliz! Dizia o garoto dentro de sua mente.

Seus cabelos castanhos chicoteando o vento e os raios de sol refletidos reluzentes no detalhe de seu vestido. Parecia uma eternidade. O que estava fazendo mesmo? Pergunta-se, novamente voltando a realidade. Um lápis e um bloco de rascunho ao seu colo esperando por rabiscos de algo que não vinha a mente do garoto frustrado. Há dias não escrevia com medo da crítica que seu texto acarretaria. Ele sabe que sentimentos hoje não se falam para qualquer um. Não são aceitos por qualquer um. Não se demonstra qualquer coisa. Sua dificuldade era tamanha que já não sentia seus dedos formigarem freneticamente antes de escrev… ESPERE! Para onde fora a menina? Ali, do outro lado da rua, quase à beira da praia. Visão digna de foto premiada. Uma rua, uma menina, cabelos voando na brisa do mar, o mar e o pôr-do-sol. Era daquilo que ele precisava. Algo que o inspirasse. Mas nem tanta beleza era capaz de traduzir o sentimento daquele momento. Aquele olhar. Aquele andar. Seu vestido era tão leve que parecia uma continuação de seu cabelo que balançava com o vento.

Um coco em mãos, ela se vira e faz o caminho inverso. Acalme-se, garoto! Prestar atenção não é difícil. Ela vem, parece andar nas nuvens. Atravessara a rua e finalmente voltara para seu lado. A sandália rasteirinha raspando nas pedras da calçada cheia de areia da praia eram hipnotizantes. Não existiam coisas ou imagens ruins na mente. Ela levava a ponta do canudo amarelo que saía do buraco no topo do coco até sua boca e, semelhante ao gesto de um beijo, sugava seu conteúdo. Aproximava-se  e a cada passo os dedos que seguravam o lápis formigavam cada vez mais, finalmente. Chegara a hora. Era aquilo que queria escrever? Era daquilo que queria escrever? E olhando atentamente percebe o encontro dos olhares. Ela já estava muito perto para disfarçar. Tarde demais. Um olhar profundo penetrou os olhos do garoto de tal forma que nem o som da rasteirinha ele ouvia mais. O coco e o canudo já longe da boca foram esquecidos. Será que ela percebeu? Será que ela está realmente olhando para mim? Perguntas que gritavam dentro de sua cabeça. O que deveria fazer? De repente, um sorriso. O mais belo sorriso. A sincronia de seus passos, balançar de seus braços, cabelos e vestido era perfeito. O olhar que antes intimidava qualquer garota agora era meigo e humilde. Seu sorriso era para ele? Será que seria certo corresponder? Finalmente ela cruzou sua frente. Novamente a silhueta. A mesma silhueta, o mesmo brilho no detalhe do vestido. A mesma sensação. A cabeça totalmente virada para o garoto. Um sorriso que permanecia. SORRIA TAMBÉM, IDIOTA!, berrava sua consciência. Ela então se voltou para seu caminho e seguiu. A cada passo que se distanciava, seu sentimento sumia. Desvairado, não sabia o que fazer. Ia atrás? Será que sorriu? Será que ela percebeu? Jamais saberia. A garota sumira também. Já era. Seus dedos repousavam como se nada tivesse acontecido e seu bloco de rascunho cheio. Cheio. Duas páginas de um texto que ele mal tinha consciência do que estava escrito. Que texto era aquele? Ele não se lembrava de escrever ali antes. Estava tão exausto e de ressaca daquele momento que decidiu voltar para seu apartamento solitário. Jogou o bloco de rascunho ao lado do abajour sobre o criado-mudo. A menina esquecida nem tornou a aparecer em sua mente. Tomou um banho, jantou, escovou os dentes, aprontou-se para dormir, deitou-se, cobriu-se sob o aconchego de sua cama que nada mais desejaria naquela noite. Foi pegar seu velho livro sobre o criado-mudo. Teteou-o e achou umas folhas. Um bloco de rascunho. Lembrou-se. Que texto era aquele? Quem escrevera? Quando escrevera? Aquele bloco era protegido com tamanha zelotipia que não imaginava quem pudesse ter escrito. Folheou e finalmente achou, com a data daquele dia, o mesmo texto desconhecido. A letra era dele. Estranho, não lembrava de ter escrito nada em seu dia corrido e durante aquele pôr-do-sol não conseguiu a inspiração que procurava para redigir. Enfim começou a ler:

“Que menina é aquela? Tamanha beleza e simplicidade. Olhar superior e delicadeza no andar…”

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