Carta a mim mesmo.

Oi, Cássio. Sou eu. Cássio.
Sim, você mesmo, só que do futuro. Estou em 2015, dez anos à sua frente. Louco isso, né? Coisa de filme e tal.

Escrevo porque venho refletindo muito sobre a vida que levei e que você levará. Tentei compilar uma porção de coisas que, se em 2005 eu tivesse a oportunidade de ter eu mesmo, uma década mais experiente, para me falar, eu tentaria pelo menos levar em consideração. Você com 15 anos já está um pouco acostumado a escrever, então sabe que não demoramos muito para concluirmos um texto, certo? Este, no entanto, fiz questão de escrever aos poucos, pois é uma oportunidade única e quis garantir que fosse bem aproveitada. Diferentemente das coisas que a gente escreve que, bom, são alguns sentimentos vomitados.

Sente-se e relaxe. Nenhuma desgraça aconteceu ainda. Sua vida é ótima. Você tem saúde e passa fome só quando quer. Por isso, já começo com o primeiro item:

1- Não seja ansioso. Pare de colocar seus pensamentos e energia no futuro. Posso lhe afirmar que você passará por muitas e boas nos próximos dez anos, mas assim como as poucas e boas que já passou – e garanto, foram poucas mesmo apesar de você firmemente acreditar que tenham sido muitas – você superou, deu um jeito, fez acontecer e está aí hoje, bem. Isso não mudou dez anos para frente. Você encontrará diversos obstáculos e razões para ficar pensando demais em como as coisas serão quando elas finalmente acontecerem. Pare! Deixe para se preocupar com os problemas quando eles finalmente acontecerem e verá que para tudo se dá um jeito. Ou você não estaria aí hoje, vivo. Muito menos eu aqui escrevendo. Perceba que nenhuma ansiedade até hoje realmente valeu a pena. Tudo foi muito menos do que esperávamos.

2- Doe-se. Aproveite o momento. Não se exclua do mundo. Sabe essa parede que criamos em volta de nós? Esse muro? Essa bolha? Destrua-a agora. “Mas e os nossos sentimentos?” Pois é, eles existem e estão aí dentro para serem colocados para fora. Não interessa quantas decepções já tenhamos tido. Todo mundo passa por isso e seria bom que você descobrisse isso o quanto antes. Não faz diferença se as nossas decepções foram maiores ou menores. Aquele que entende o que é se doar mais, passa cada momento mais intensamente, entra de corpo e alma numa situação, num relacionamento, numa oportunidade e realmente vive. E ao contrário do que parece – e tenho certeza que essa é uma dúvida que está na sua cabeça agora – essa é uma prática extremamente boa. Doar-se para o momento e aproveitá-lo é que é ser feliz.

O segredo para a felicidade de segredo não tem nada. Decepções ocorrerão. Se seguir o que digo, provavelmente se decepcionará muito mais do que eu, mas viverá muito mais e quando tiver 25 anos talvez possa escrever um texto muito mais completo, rico e maduro do que este para o nosso Cássio que hoje tem 5 anos lá em 1995 e só se preocupa com Cavaleiros do Zodíaco. Certamente terá também aproveitado muitos momentos gostosos que eu não dei a chance de desabrocharem.

Recentemente descobri que muitos dos problemas que carrego desde a sua época até a minha vêm desse nosso medo de se expor, de se magoar, de passar vergonha. Não tenha medo. Um barco parado no porto está seguro, mas não foi para isso que foram construídos.

3- Seja menos exigente. Falando nisso, aproveite para ser menos exigente. Você não é e nem tem que ser perfeito. Aliás, aprendi recentemente também que ninguém “tem que” nada nesse mundo. Tudo o que fazemos são coisas voluntárias. Tudo, sem exceção. Você não vai à escola porque tem que fazer isso. Você vai porque quer um futuro e sabe que sem ela você não o terá. Eu não trabalho hoje porque tenho que garantir minha vida. Eu trabalho porque eu quero viver bem. Eu poderia abrir mão e sofrer as consequências se assim o quisesse. É uma escolha. Eu poderia desobedecer meus chefes. Terei consequências. Mas ainda é uma escolha. Eu faço o que eles determinam porque eu concordei e escolhi isso. Quem passa por alguma dificuldade pode escolher acomodar-se ou até desistir. Ninguém e nem nós temos que fazer absolutamente nada. Ninguém tem obrigações. Todos temos escolhas. Portanto, pare de querer ser o bonitão porque na verdade você não tem que sê-lo. Você precisa é de autoaprovação e não da aprovação alheia. Aprenda logo cedo e não deixe para aprender só com 24 ou 25 anos que errar não é errado. Você aprenderá muito errando e se decepcionando. Isso lhe fará um ser humano melhor. Não há problema nenhum em errar. Muito pelo contrário. Abandone seu orgulho.

4- Não se culpe pelo seu passado. Lembra que falei para não ser ansioso? Ansiedade é o medo do futuro. Culpa, por sua vez, é o rancor do passado. Pare de pensar em coisas do passado que deram errado. Nada deu errado. Tudo deu da maneira como era possível ter dado. Tire o quanto antes tudo que for arrependimento e rancor de dentro de você. Além desses sentimentos não lhe acrescentarem nada, eles só lhe deixarão louco e isso vai demorar para sair. Acredite. Mais uma vez, não exija demais de si mesmo. Tudo o que fez, mesmo quando errou, você fez da melhor maneira que podia naquele momento, com aquela disposição e cabeça. Sabendo disso, seu nível de exigência se abaixará e verá que o item anterior fará muito mais sentido. Não fique pensando no que poderia ter sido diferente ou melhor. Pense que foi da melhor maneira que você poderia ser e tire o passado de sua cachola. Aproveite o seu momento agora. Apesar de eu escrever uma carta para lhe ensinar e tentar melhorar um pouco sua vida, é importante que entenda que eu não me arrependo de um ponto sequer do que vivi até hoje e é isso que quero lhe passar desde cedo.

5- Saiba se relacionar melhor. Sabe aquela história de “Homem de muitas mulheres, poucas paixões e nenhum amor.”? que você fala já aos 15 anos? Pois é, com 25 eu ainda carrego isso comigo, mas hoje isso não faz muito mais sentido. Nessa próxima década você encontrará alguns amores. Aliás, estamos em setembro e daqui alguns dias você se surpreenderá muito. A essa altura você já deve ter uma ideia de quem seja. Vá fundo. Ela é uma garota de ouro. Mas lembre-se, você se doará no começo e terá a recaída de se fechar. Portanto, tenha em mente todas as palavras que falei sobre doar-se e viver o momento. Mantenha-se aberto com ela e com o resto do mundo. Será duradouro, coisa de vários anos, por isso, é importante que você não cometa o mesmo erro que eu. Depois de um tempo ficará desgastante e você pensará que o problema não é com você, mas com ela. Engano nosso. O problema é que nós deixamos de nos abrir, ficamos exigentes conosco e com o mundo – principalmente com ela – e paramos de aproveitar cada momento. O meu fim foi ruim, mas se você aprender tudo isso logo no começo, poderá fazer uma história diferente. E por mais diferente que essa história seja, para bom ou para ruim, é importante que você a viva intensamente sem medo de errar, tendo a tolerância e sabedoria de que do outro lado existe uma pessoa e que, ao contrário de você, não tem a sua versão 10 anos mais experiente para lhe falar algumas coisas. Ela também tem seus conflitos internos. Respeite-a como o ser humano que ela é, assim como nós.

Depois dessa você conhecerá outras garotas. Sim, acredite, ela não é a única nesse mundão. Das que virão, todas serão tão especiais quanto a primeira – na verdade, tão especiais quanto a singularidade delas as faz. A primeira foi de ouro, as outras também e verá que cada uma será um ouro com um brilho diferente e único. Não as compare jamais. Elas lhe ensinarão muitas coisas e é importante tentar aprender o máximo possível. Aproveite cada instante, sem passado, sem futuro.

Você terá um breve relacionamento com uma pessoa totalmente diferente de todas as outras. Alguém cuja personalidade sempre lhe servirá de exemplo para tudo o que estou falando hoje com 25 anos. O relacionamento será curto mesmo, cerca de um mês e pouco, talvez por você não esperar se envolver com alguém assim e não saber lidar com isso. Mas foi tão curto quanto marcante. Ela continuará sendo sua amiga, ainda que distante, e você ficará muito feliz só de poder conversar com ela de vez em quando em dia de jogo quando a encontrar no bar.

Depois, não estranhe, você se dará conta de que se relacionará com uma garota muito mais nova que você e que isso não é, nem de longe, um sinal de que ela não tem nada para lhe acrescentar. Seja gentil com ela. Você terá passado por coisas que ela ainda não passou, mas reconheça que ela também certamente tem coisas singulares que nem você e nem eu, com 25 anos, imaginamos. Tente passar algumas coisas do que sabe para ela e tente absorver o que ela tem para lhe passar, sempre lembrando que o que é certo para nós pode não ser para os outros. Ela é uma pessoa tão mais nova quanto sensacional e você se surpreenderá muito com isso. Se for como aconteceu comigo, seja delicado na hora de dizer que não quer mais essa relação. Vocês se gostam muito, mas ela terá o jeito dela de reagir e é importante que você seja compreensivo com a confusão que você formará na cabeça dela. Principalmente porque em pouco tempo aparecerá uma nova pessoa maravilhosa em sua vida. De um ouro com único brilho também.

Esta virá de tempos difíceis e é importante que você não os menospreze. Assim como você, ela também teve problemas que, como já falamos, não interessa se são maiores ou menores. É importante que você passe segurança a ela e que saiba lidar com as diversas situações com muita tolerância. Se você não “tem que” ser perfeito, ela também não. Aceite-se e ensine-a a se aceitar. Ela precisa disso e você se sentirá muito bem em poder ajudar. Aproveite também cada momento em seu lado, faça-a de sua grande companheira e amiga para todas as horas – ela saberá retribuir isso extremamente bem – e, de novo, assim como serve para as outras relações anteriores, serve para essa: viva cada momento, doe-se e não se feche.

Se você se fechar durante qualquer que seja o relacionamento, fechará também as portas dele e tudo tenderá a sucumbir eventualmente. Não tenha medo da decepção, Cássio. Você e seus amores serão muito mais felizes juntos! O que falei para uma vale para todas as outras, mesmo as não mencionadas, e isso não significa que elas sejam iguais. (Não as compare! Elas são muito diferentes em muitos aspectos!) Significa que o único igual aí fui eu por não ter aprendido essas coisas a tempo e sempre atraí pessoas únicas, maravilhosas, mas com situações parecidas, ainda que muito diferentes entre si. Repare, então, que toda vez que pensar que o problema está na outra pessoa, na realidade, está em você, só que você ainda não tem maturidade para entender isso sozinho. Respeite-as. Respeite seus familiares. Se elas são pessoas especiais, só podem ter sido pessoas especiais que as criaram. Respeite seus amigos. Largue de intriga. Você tem os seus, elas têm os delas. Saiba confraternizar-se com eles e saiba respeitá-los. Vocês só terão a ganhar com isso.

Depois que cada uma partir e seguir com a vida, se você ficar com algum rancor ou algo mal resolvido, desfoque-se disso. Jogue seu orgulho fora e fale tudo o que precisa falar. Não guarde. Não interessa o que dizem por aí de “dê um gelo”, “deixe que ela sinta sua falta” etc. Não importa o quanto os outros sejam peritos em relacionamentos. O que interessa é o seu bem estar no momento, lembra? Então vá e fale tudo o que estiver sentindo. A garota poderá lhe rejeitar de novo. Não tem problema, pelo menos você não guardará nenhum trauma e terá optado pela melhor opção possível que é e sempre será seguir sua intuição. Garanto, é melhor quebrar seu orgulho e sua cara do que sofrer consequências de problemas mal resolvidos anos depois.

6- Aproveite seus amigos. Você ainda não sabe porque ainda tem 15 anos e está no final do primeiro colegial, mas os amigos que fez aí dentro continuarão sendo seus amigos por (pelo menos) mais dez anos e muito provavelmente para a vida toda. Você se dará conta de que muita gente por aí tem boas amizades, mas pouquíssimos podem dizer que são amizades com duração de 10, 15 ou até 20 anos e verdadeiras. Você nasceu e não teve irmãos, mas sem saber já encontrou um punhado deles por aí e que estarão dispostos a fazer muita coisa por você e vice-versa. O nível de fidelidade entre vocês ultrapassa qualquer descrição que eu possa tentar produzir aqui. Talvez o Cássio de 35 anos possa ter mais maturidade para tentar descrevê-la e, com sorte, ainda estará ao lado desses irmãos. Como dito, viva com seus amigos cada momento. Saiba compartilhar o seu tempo com suas namoradas e com eles. Ambos possuem diferentes importâncias na sua vida e podem muito bem coexistir sem nenhum tipo de problema. Hoje convivo com esses “irmãos” e falamos com muito orgulho que nossa amizade tem mais idade do que você tem hoje aí em 2005. O mais legal disso tudo é que, se você souber disso desde já, você até já saberá de quais caras estou falando. :)

7- Dê mais ouvido a seus pais. Aproxime-se mais deles. Enquanto você não encontrar um sentido para sua vida – e espero que esse tempo dure menos do que durou comigo -, eles serão a sua única razão para existir. Para começar, isso é besteira. É importante saber que eles são adultos e possuem suas próprias vidas assim como você, bem como suas razões para viver. Embora, reforce o quanto puder o elo entre vocês. Ouça mais o que eles têm para falar. Sua mãe tentará lhe alertar e ensinar muitas coisas durante muitos anos e não será à toa. Aliás, de tudo o que aprendi nos últimos tempos, só aprendi porque finalmente me dei a chance de ouvi-la. Quem sabe além desta enorme carta que lhe ensinará muitas coisas (ou não), você também não aprende coisas boas mais cedo. Entenda seu pai. Ele é um ser difícil como você. Sua cabeça dura, ao contrário do que acha, tem origem, nome, sobrenome e seu sangue. Você ainda é novo, portanto tente amaciar as coisas entre vocês três. Não se preocupe. Até seus 25 anos nada de mal acontecerá com seus pais. Mas aproveite mais, muito mais.

8- Você é sua melhor companhia. Não importa quão próximo dos seus pais e familiares você esteja, não importa quantos irmãos você continuará cultivando e novos que encontrará, não importa com quantas garotas douradas você se relacionará. Aprenda desde cedo que você é a sua melhor companhia. É exatamente por isso que eu estou lhe escrevendo. Ninguém melhor do que você mesmo para lhe abordar e dar alguns conselhos. Só você se conhece, só você sabe o que é bom para você. Só você pode lhe fazer feliz. Só você toma suas decisões. Aproveite cada momento para fazer o que gosta, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Você é o único cara que se garante. Você é o único cara que tem a capacidade de dizer o que é bom e o que é ruim para você. Você é o único cara que vai lhe dar a paz que tanto procura. Nunca, em hipótese alguma, deposite essa responsabilidade nos outros. Se souber administrar isso, perceberá que aquelas decepções das quais já falamos e das quais você tanto tem medo serão fichinha. Ninguém pode ser capaz de lhe derrubar senão você mesmo. A sua autoconfiança está aí dentro, junto com sua felicidade e paz que, não por acaso, chamamos de “paz interior”. Pare de procurar aprovação das outras pessoas. A opinião delas não vale nada se não forem usadas para elas mesmas. Só a sua opinião vale. Você tem seus princípios, seus valores. Siga-os. Tem dúvida? Converse consigo mesmo. O que lhe fizer bem, faça. Seja independente, seja seguro de si, seja autossuficiente, seja feliz, seja a sua melhor companhia, seja o seu melhor amigo.

9- Desapegue. Pratique o desapego desde já. Você tem uma mania estranha de querer guardar objetos e pessoas pelo valor e consideração que tem por elas. Saiba dosar isso. Alguns objetos você nunca mais usará, melhor que fiquem só na memória. Algumas pessoas idem. Você não vai querer nem se lembrar mais tarde. Entenda que uma coisa tem que sair de sua vida para que novas possam entrar. Abra as portas para as novas experiências e novas lembranças e deixe de lado pessoas que não lhe querem ou que não lhe fazem bem.

 

Cássio, são muitas coisas para escrever. O texto já ficou enorme e eu queria lhe falar mais, muito mais. A intenção não era lhe ensinar a viver, até porque se fosse eu ficaria aqui escrevendo mais páginas e páginas sobre cada detalhe da nossa vida. Mas não quero e nem devo reviver uma vida. Ela é mais sua do que minha, se é que posso dizer isso. Viva-a você, da melhor maneira possível. Porque é importante que você se atente a todos esses pontos, mas se for para jogar todos esses conselhos fora, jogue, contanto que permaneçam estes: Você é o único dono da sua vida. Você é quem determina o que é melhor para você. Siga seu “eu interior” e aproveite o momento, sem passado e sem futuro. Fazendo isso, saberá ter uma boa vida muito mais excelente do que a minha foi.

Não existe uma carta perfeita, conselhos perfeitos… Texto perfeito. Entretanto, eu já não me cobro mais por ser perfeito. E eu só queria lhe mostrar o quanto isso é incrível!

Aproveite e seja tão feliz quanto você se permitir ser.
Com carinho,

– Você mesmo

Protegido: Amarelo Azedo

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Sacada

E então ela o chamou para conhecer sua sacada. O seu céu estrelado. O que só ela, dali, via. Nem se atentaram ao fato de que as nuvens o cobriam e que de estrela mesmo só duas. Mais brilhantes que qualquer uma que pudesse ser vista dali.

Conversa vai e vem, elogios alheios irônicos e azedos despejados naqueles cujas orelhas deveriam queimar. Só um contexto para aquilo que queriam e não tinham coragem de assumir sentados ali no chão. O frio tomava conta do ambiente. Não o frio de frio… quer dizer, o frio também, mas o frio de ansiedade era maior.

Meio que sem jeito ele se aproximou e ela se retraiu. Ela, de lado e fitando qualquer coisa abaixo, com seus longos cabelos castanhos e ondulados jogados do lado esquerdo cobriam sua timidez. Ele sabia que não se pode entrar no mundo de uma mulher sem antes bater na porta e pedir permissão. Muito menos se fosse para fazer bagunça. Mulheres já têm suas bagunças internas que bastam e não precisam da bagunça e irresponsabilidade de muitos homens que só isso têm a oferecer por aí. Tinha que ser com consentimento. Especial. Tinha que fazer certo.

Esperou paciente até que num instante que durou cerca de um milênio ela o fitou, seus olhos, as tais das duas estrelas da noite, brilhando como nunca, foram cobertos por suas pálpebras e, ali, o alívio, a ansiedade, adrenalina e o frio, que virara calor, dominaram a sacada sob o céu que, nublado, era o mais lindo de todos.

Consciência Negra

Sempre perdido nesta escuridão infinita. A sombra que mais parece crescer enquanto procuro sua beirada.
De todos os males, o pior… não sei.
A convivência que me cala com o costume, rotina, para não dizer cansaço.
Não conheço remédios. Nem dos naturais, nem dos químicos e nem dos humanos. Tudo o que conheço é o que alivia. Apenas. Não ataca a raiz. Nem conheço a raiz. Talvez não tenha. Talvez seja eu. Provável.
Ouço que o mundo do lado de lá da sombra é uma utopia e que, na verdade, ninguém lá vive e que a realidade é comum. Está aquém. Do lado de cá. Não sou o único.
Não existe um lado negro da lua de fato. Na verdade, é tudo negro. Pelo menos é o que dizem os velhos sábios da música.
Algo assim. Quero acreditar nisso quando estou são. Muito embora eu esteja já há muito tempo com os olhos na falta de luz e não consiga enxergar o que não é meu.
Então me resta uma música, uma companhia, um copo que nunca fica vazio. O de sempre. Pelo menos o aceitável. Não me perdoaria se fizesse algo que piorasse.
Perco-me dentro de mim. Viagem louca num vazio imensurável. Negro. Denso. Pego-me desprevenido, com cisco nos dois olhos procurando um corrimão. E vamos lá de novo…
Sempre perdido nessa escuridão infinita. Nessa insana consciência negra.

E se diz diferente…

E pensam que me conhecem, mas não conhecem nada.
Pensam que sou assim, mas disso não sou nada.
Que sou só mais um que se diz diferente, mas quando me deixo ser, fogem.

Solidão irônica

Que ironia a dessa solidão…
Como pode?
Tanta gente solitária, junta no mesmo buraco, ainda se sentir só?

Esperar

[…]

Esperar não significa inércia, muito menos desinteresse;
Renunciar não quer dizer que não ame;
Abrir mão não quer dizer que não queira;
O tempo ensina, mas não cura.

(Martha Medeiros)

Caixa de papelão

Deixem-me contar sobre minha vida. Sobre minhas vontades, esperanças.
Quando foi que pedi para ter tudo o que tenho? Quando foi que escrevi meus sonhos num papel e entreguei nas mãos de alguém que chamam de Deus? Dessa realidade que vivo, o que ganharei saindo daqui e por que não consigo ficar em paz?

Essa vida que me prega peças todos os dias como se quisesse me ensinar algo diferente. Dizem que quem insiste no erro é burro. Se for assim, não teria passado da pré-escola. Cometendo os mesmos erros de um garoto de quinze anos, com a consciência de cometê-los. Um misto de orgulho com teimosia e cara-de-pau. Perseverança já não é há muito tempo.

Existe alguém para me salvar? Salvar-me de mim mesmo. Penetrar minhas barreiras que já não sou capaz de abrir e mostrar o quão florido pode ser o mundo do lado de lá, com amor, vulnerabilidade e sentimentos. Tão mais colorido e cheiroso que o mundo do lado de Cá, rústico, cinza, chuvoso e mórbido. Baseado em passados e sem abertura para o futuro. E de que adianta ser se for para ser assim? Ser isso e não ser um ser humano. Abro a janela e vejo o céu chuvoso enquanto sinto o vento gelado cortando meus olhos que doem.

Acompanhado de minha principal companhia que chamam por aí de Solidão, saio de casa na madrugada e caminho enquanto sinto as gotas que caem do céu no topo de minha cabeça. Um sobretudo que se umedece aos poucos me envolve como um abraço. Quente por agora, mas que se esfria com o tempo. Cruzo as ruas, os semáforos, viro esquinas e só o que encontro são extensões de minha companhia. Casais passam dividindo guarda-chuvas enquanto sorriem. Chegarão ao conforto de suas casas sem reclamar da água no corpo, tomarão um banho e se encolherão debaixo de algum edredom em frente a um filme mequetrefe que, para a situação, está mais do que bom. Pergunto-me se essa sombra que tanto insiste em me perseguir faria o mesmo comigo. Uma tigela de pipoca, um copo de refrigerante com gelo. Não é pedir muito.

Andando sem rumo, sento num banco de praça. Apenas a luz de um poste bem acima de mim ilumina o ambiente. A chuva dá uma trégua e aproveito para me aconchegar no pouco de calor que meu próprio corpo produz e penso nas coisas que tenho feito, nas coisas que têm feito comigo, por aí. Tudo o que tenho errado, tudo o que voltaria atrás. Tudo o que tenho feito com as pessoas que não deixo entrar. Todos precisam de alguém. Precisam de um alguém. Meu corpo intacto judiado pelo tempo que se passou se sente só. Uma vez escutei que esse tal de tempo cura qualquer coisa. Bobagem. Uma das maiores que já pude escutar. O tempo fecha buracos, mas jamais apagam as cicatrizes. Há muito que já sinto falta de alguém. Alguém corajoso o suficiente para persistir. Alguém mais forte que eu, que possa me vencer e entrar, cavar até achar o baú onde guardo sentimentos cujos nomes não lembro mais. E que tenha uma escada grande para voltar porque a viagem até o fundo do buraco não é pequena e eu sei que não.

Viver sozinho no mundo não é bom. Queria poder dividir mais alegrias que tristezas. Mais sorrisos e abraços que raiva e ódio. Mais sol e menos chuva.
Levanto do banco, a chuva voltou a cair. O mundo é silencioso, sem música, sem cantos. Com poças de água para todo lado que só aumentam. Um cachorro cruza meu caminho e entra numa caixa de papelão de um beco de onde faz sua casa. Pobre cão. Identifico-me com ele. Pobre cão. Sem um lugar para chamar de seu. Sem alguém para chamar de dono, para se aconchegar nos braços enquanto abana o rabo sem ter que pensar em como será o dia de amanhã. Cachorros são inteligentes, mais que os humanos. Enquanto nós buscamos sabedoria, coragem e iniciativa para viver um dia como se fosse o último, eles são mais espertos e vivem um dia como se fosse único. Amanhã este cachorro acordará e terá esquecido do dia anterior. Da chuva que tomou, do frio que passou, dos chutes que levou. Das comidas que lhe foram rejeitadas e, principalmente, da solidão que o acompanhou. Certo de que o próximo dia será único, ele viverá novamente. Queria ter sua sabedoria.

Passo a passo de volta para casa. Horas se passaram como minutos. A madrugada castigou os filhos da noite. Parado em frente à minha porta de entrada com a chave na mão, penso no que encontrarei lá dentro. Uma pessoa, vestindo uma calça e uma blusa moletom cujas mangas ultrapassam as mãos. Cabelo longo e preso, caído de lado. Cara de preocupação que logo muda quando me vê. Corre ao meu encontro, me abraça com mil palavras a dizer, sem dizer nenhuma. Deitaremos juntos pelo resto da noite, felizes como se eu fosse uma boa pessoa. Duas voltas na chave, uma volta na maçaneta e ninguém do lado de dentro. Da casa e de mim. O mesmo ar, as mesmas cores cinzas e o mesmo tempo chuvoso do lado de fora. Do lado de lá e de Cá. Tiro meus sapatos gastos e encharcados, subo as escadas, jogo minhas roupas molhadas na cadeira e tento preencher uma cama para dois sozinho. Fazendo dela a minha caixa de papelão.

Indecisão

Prosas hoje me são assaz longas
Meu pensamento corre muito rápido para elas
Começo uma e termino pensando que é outra.
Decidi por coisas mais curtas
Que me acompanhem durante essa louca viagem
Mal sabia que a loucura era muito longa para tão curtos versos.

Suposto

Era suposto que seria diferente. Suposto que tudo seria lindo como prometia e que lágrimas de nenhum tipo caíssem. Era suposto que nós seríamos felizes e que coisas pequenas não nos atingissem.
Era diferente, era lindo, era natural. Hoje só é natural.
Eu me conheço e sei aonde posso chegar…

… E é isso que supostamente me preocupava.

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