Quando era pequeno sempre quis fazer essas viagens para o interior, conhecer pequenas cidades e vilarejos sem essas coisas da modernidade. Queria algo rústico mesmo, como aqueles lugares desertos com longas estradas de terra para se chegar no seu destino. Onde a lei é você e sua coragem.

Dentro do meu escritório onde trabalho, sob a luz artificial e envolto a um ar condicionado que ataca minha sinusite vez ou outra, programei minhas férias. Desta vez não visitaria nenhuma praia paradisíaca, nem convidaria nenhum de meus amigos para andar em minha lancha. Tampouco sairia do país ou visitaria lugares com neve porque de frio já bastava na minha mesa de trabalho. Eu queria mesmo é ir em busca de um lugarzinho desses no meio do nada como nos filmes.

E fui. Com a cara e coragem que Deus me deu, peguei minha mochila que comprara na loja de artigos de esportes radicais há cerca de cinco anos quando me prometi praticar escalada e jamais dera um passo sequer em direção a esse objetivo. Fiquei tão impressionado quando a abri com o tamanho do seu interior que logo notei que poderia passar até mesmo semanas perdido por aí apenas com o que carregaria ali dentro. Comprei algumas passagens de ônibus para qualquer lugar desconhecido, certo de que seria um dos momentos mais preciosos para me conhecer melhor enquanto sozinho.

Desci do ônibus na beira de uma estrada e avistei uma pequena cidade. Ao chegar naquela cidadezinha, logo no fim da tarde, vi de cara que estava bem onde queria. Um lugar simples, com pouco movimento, caminhonetes antigas sujas de barro e eletricidade que parecia servir de abastecer as velhas casas e os postes de luz que iluminavam as ruas escuras. Ainda assim, algumas lamparinas começavam a se acender em frente aos estabelecimentos para ajudar com a visão. Logo encontrei uma pousada humilde e entrei para pedir informações. Uma senhora de cabelos sem cor, curtos e cacheados me olhou da mesa de recepção. Deve ter notado que eu descaradamente não pertencia àquela região e me desejou boas vindas com muita empatia:

– Olá! Seja muito bem-vindo! Vamos, entre, entre, Deixe-me lhe apresentar as nossas excelentes opções de quartos.

Ela pegou seus óculos pendurados por uma correntinha em seu pescoço e os pôs na ponta de seu nariz e me disse logo que tinha ótimos quartos, aconchegantes e quentes para uma boa estadia. Era de fato uma senhora muito simpática. Não tive dúvidas de que ficaria ali, até porque não haviam muitas opções ao redor. O preço era bem convidativo, ainda que eu tivesse a impressão de que fosse um dos lugares mais elitizados da cidadezinha. Talvez por estar acostumado com hotéis de alta sociedade que meu salário acima da média, mesmo na metrópole do país, dava-me o luxo de frequentar.

A senhora, que ao meu ver era a dona do estabelecimento e que parecia cuidar de tudo quase sozinha, fez questão de me acompanhar até meus aposentos. Destrancou a porta do meu quarto e me deu uma cópia da chave com uma etiqueta feita de fita crepe branca com o número “7” escrito em tinta azul.

– Por favor, fique à vontade e se precisar de algo pode me chamar.

Agradeci satisfeito e entrei. O quarto era simples, ajeitadinho e tinha tudo o que eu precisava: uma cama de casal com cobertores e travesseiros, uma área pequena com um tanque e um fogão, um banheiro, uma poltrona com abajur para leitura e um armário de madeira antigo para guardar os pertences que, se bem reformado, valeria a soma do preço da diária de todos os nove quartos juntos. Abri minha mochila e joguei as coisas na cama para pegar uma troca de roupas e ir tomar um banho. Entrei no box do banheiro que era pouco iluminado, com aquelas banheiras antigas que você têm opção de tomar banho em pé ou relaxar deitado. Tomei um banho rápido, pois ainda queria sair e comer. Vesti-me, calcei minhas botas, passei a chave na porta do quarto e fui procurar a senhora na recepção. Assim que cheguei, percebendo minha presença, ela saiu de um corredor escuro agitada.

– Oh, meu filho. Desculpe pela demora. Estava cuidando de algumas coisas ali dentro e não notei que estava aqui. – Disse ela.

– Ora, não se preocupe. – Respondi rindo. Não estou aqui nem há um minuto. – Deduzi que ela estava preparando o jantar na casa dela, que ficava ali mesmo na pousada, pois veio me atender com um avental já com marcas de uso e com detalhes bordados à mão.

O sol já se punha e toda essa dedução me fez lembrar que já estava na hora de comer. Não comia desde as 11 e meia da manhã.

– Quais as opções para comer por aqui? Estou faminto.

– Humm… – Frisou seus olhinhos através dos óculos. – Aqui nesse vilarejo não tem nada, mas você consegue encontrar um desses bares e lanchonetes de beira de estrada que ficam abertos 24 horas, sabe? Daqueles lugares mal encarados que caminhoneiros e motoqueiros frequentam quando param em suas viagens.

– Entendo. – Convencido de que não acharia nenhum restaurante de frutos do mar dentro de um raio de centenas de quilômetros. – Que direção eu devo tomar para achar um desses?

A senhorinha apontou para uma direção e dizendo:

– Essa é uma estrada que encontrará algo. É um pouco mais longe, mas sugiro ir pra lá.

– Mas e quanto essa outra estrada aqui atrás? – Apontei para o fundo da pousada. Ela virou para mim, tirou seus óculos pendurando-os pela corrente em torno do pescoço e me disse com um olhar sombrio:

– Ah, filho. Essa estrada é ruim. Tem um bar que fica mais próximo e que sei que servem alguns lanches bem simples, mas já está tarde para ir por lá, não é?

– Mas está tarde para a primeira estrada também, não? E essa segunda tem um bar mais perto. – Perguntei curioso.

– Sim, é verdade, mas essa estrada é perigosa. Se fosse você eu só passaria por lá durante o dia. O sol está quase se pondo. – Retrucou a senhora com a voz agora levemente trêmula.

– Mas qual o perigo dela? Estamos num vilarejo tão pequeno. Há muitos assaltos por aqui? – Meu instinto aventureiro estava à flôr da pele.

– Nãããão, não tem esse negócio de assalto por aqui, não! – Respondeu ela num tom de espanto e logo em seguida mudou para outro de quem acabara de escutar uma tremenda bobagem até que sua voz ficou ainda mais trêmula que antes. Engoliu seco, suspirou, aproximou-se de mim sobre a mesa e cochichou olhando para os lados como quem verificava se alguém nos escutava. – É que aquela é a “Estrada Velha”. Dizem que pessoas estranhas andam por lá à noite. Nunca ouvi falar de nenhum crime, mas quem experimentou disse que não gostou. Dizem até que tem um pessoal cigano que mora por lá e de vez em quando se escuta umas cantorias estranhas, com fogueiras e essas coisas. Um rapaz que se hospedou aqui uma vez voltou apavorado de lá e disse ter visto coisas horríveis. Cruz credo. – Terminou com um gesto típico de arrepio e fazendo o sinal da cruz.

Eu agradeci as informações e disse que sairia então para comer algo e que logo voltaria. Despedi-me, saí do estabelecimento e estava pegando o caminho da primeira estrada quando repentinamente parei e pensei “Por que diabos estou fazendo isso? Não é tão tarde assim e o bar da tal Estrada Velha é mais perto. Eu vou conseguir voltar mais cedo para descansar para amanhã e, afinal, eu estou aqui pra quê? Ficar na minha zona de conforto é que não é. Então vamos de aventura! Até porque estou acostumado a lidar com os assaltos e bandidos da metrópole, não vou lidar com um povo que mora na beira da estrada e que nunca registraram nenhum perigo? Bora lá!”

Peguei a saída da cidadezinha à pé, com minha carteira e minha jaqueta. Andei cerca de dois quilômetros e já não se via mais casas ou estabelecimentos comerciais. Era apenas a estrada e os postes de luz velhos de madeira, apenas do lado direito da estrada, que já estavam acesos, mas com uma luz muito fraca. Passei por um deles onde se via pregado uma placa em formato de seta grande e de madeira, claramente feita à mão há muitos anos, com os escritos “Estrada Velha” em tinta preta. Andei mais alguns metros quando notei o sol radiando seus últimos raios de luz bem à minha frente, por detrás de uma serra que subia e ficava quilômetros além. Não havia mais nada, nem sinal de vida. A estrada era de um asfalto muito velho e quase coberto de terra. À direita só se via uma terra plana e espaçosa. Nada mais. À esquerda se via no horizonte o início das montanhas que formariam a serra adiante. Continuei andando por mais alguns quilômetros quando comecei a me incomodar com o frio e com a distância. Esperava que meu destino fosse bem mais perto do que aquilo, em tempo que agradecia por não ter escolhido a opção da primeira estrada cujas lanchonetes e bares eram ainda mais longes. Andei por mais alguns minutos e comecei a ficar irritado. Estava com fome, a noite havia chegado de vez e já não havia claridade além das lâmpadas dos postes e ainda por cima eu tinha subestimado o frio, como sempre faço. A questão é que já tinha andado distância e tempo o suficiente para voltar de mãos vazias. Ou estômago vazio. Desejava ter me convidado para jantar com a senhora recepcionista, que além de simpática, estava preparando algo muito cheiroso. Já queria que meu espírito aventureiro fosse pro saco.

Andava, andava, andava… O lugar era tão deserto que me fazia ter a impressão de andar e não sair do lugar. Já tinha perdido a noção de quanto tempo estava caminhando na Estrada Velha sem sinal de vida ou de uma taverna, bar, quiçá uma lanchonete. A certa altura, já muito angustiado e considerando realmente voltar, avistei, há uns 600 metros à frente, um cruzamento da Estrada Velha com uma outra estrada qualquer. Vindo dessa outra estrada em direção ao cruzamento, caminhava lentamente uma pessoa. Fiquei eufórico e comecei a correr ao seu encontro. Gritei com uma mão acenando acima da cabeça enquanto a outra fechava a gola da minha jaqueta para me proteger do frio.

– Ei! Ei, você! Aqui! Me ajuda, por favor! – E a pessoa não esboçou nenhuma reação. Eu gritava cada vez com mais força até que minhas cordas vocais falhavam. Foi quando me dei conta de que estava definitivamente com receio da situação na qual me encontrava. Chegando mais próximo do cruzamento, notei que a pessoa estava agora passando por ele, vindo no sentido da direita para a esquerda. Era um homem alto, se eu tenho 1,76 ele devia ter seus 1,90 para mais, vestia uma capa longa e muito preta, botas pretas e o resto a capa cobria. A gola era alta, as luzes dos postes eram tão fracas que mal iluminavam seu rosto. Para ajudar, a luz mais forte ficava atrás dele, ofuscando o pouco do rosto que seria possível de se ver. Eu finalmente o alcancei e falei:

– Ei! Você não me viu correndo e gritando? Enfim, desculpe. Eu queria lhe pedir uma informação. Estou a procura de algum estabelecimento para comer. Estou faminto e preciso voltar para minha pousada naquela cidadezinha que fica ali para trás o quanto antes. Você sabe se encontro algum lugar por aqui? – O homem que estava agora parado e de lado para mim nem sequer reagiu. Já atordoado com a situação, gritei: – PO#%@, CARA! CÊ TÁ ME ESCUTANDO, CAR&$*#?! EU PRECISO DE AJU…

– Não precisa gritar. – Virou-se para mim falando com uma voz grossa, num tom baixo e soberano, mas que por alguma razão parecia vir de todos os lados e fazia o chão de terra tremer. – Ouço muito mais do que imagina.

As luzes dos postes começaram a piscar, dificultando ainda mais a visão. Respirei fundo e falei gaguejando no início:

– Certo, m… me desculpe… ok? Vamos começar de novo. – Suspirei. – Boa noite. Meu nome é ######### e eu estou hospedado na cidadezinha que fica ali atrás. Estou com fome e vim para cá porque me indicaram um estabelecimento que pudesse me vender algo para comer, mas já estou nessa estrada há muito tempo e nã…

– Quanto tempo? – Ele me interrompeu.

– Cara, acho que há uma hora, não sei. – Olhei para meu relógio e notei que ele estava parado marcando 12 horas em ponto. – Bom, não sei. Meu relógio deve ter parado de funcionar e não percebi. Eu saí da cidadezinha com o sol se pondo e aqui estou.

– O sol se pôs muitas horas atrás. Não vê a lua acima de você?

Assustado, olhei para o céu estrelado e uma lua cheia brilhava como nunca vira antes. Eu teria dito que ele estava mentindo ou louco, pois não andei tanto tempo assim, mas a posição da lua, bem acima de mim, estava de acordo com sua fala. Parecia realmente ser muito próximo da meia-noite. Comecei a analisar tudo mentalmente. “Será que perdi tanto a noção do tempo? Será que peguei o caminho errado em algum lugar? Impossível, só tinham duas estradas. Aquela placa dizia que esta era a Estrada Velha. Uma única direção. Só se louca era aquela recepcionista! Não pode ser. Eu deveria ter ido pro mar, andar de lanc…”

– Você pensa demais. – Falou abruptamente num tom mais alto que o anterior. Assustei tanto que dei um pulo. Sua voz e a maneira como falava me arrepiou por inteiro. – Não é à toa que está perdido.

– O… O q… Hãn? O que você quer dizer? – Falei espantado.

– Você deveria parar de escutar o que as pessoas ao seu redor lhe falam para começar a escutar mais o que ELES lhe falam. – Falou virando de costas, pronto para continuar seguindo seu rumo.

– Eles? Eles quem? – Perguntei já não entendendo mais nada do que estava acontecendo ali.

Ele parou, de costas, embaixo de um foco de luz mais forte que o anterior. Sua capa preta brilhava e eu pude ver, desenhado na altura de suas costas, um grande triângulo preenchido na cor vermelha que chamava tanta atenção que parecia saltar para fora dela. Virou apenas sua cabeça sobre seu ombro esquerdo e disse:

– Nem a lua foi capaz de notar, quanto menos aqueles que querem lhe ajudar. Pois saiba que você anda mais bem acompanhado quando está só. – E voltou-se inteiramente para frente e começou a andar devagar. Seu andar era sereno, imponente, parecia que flutuava sobre o chão e que tinha tudo sob seu controle. Fiquei tão impressionado que por alguns instantes esqueci-me do que estava passando. De repente a lâmpada do poste por onde ele passava e piscava finalmente explodiu. Foi um barulho muito forte que me deixou atordoado. Uma dor de cabeça tomou conta de mim. Eu ajoelhei e senti o mundo girar ao meu redor. Urrando de dor, levei minhas mãos à cabeça gritando socorro e só consegui ver a silhueta da capa preta sumindo sob uma nevoeira escura devido à recente falta de luz e sua voz que ecoava por todos os lados. – Você deveria aproveitar mais o tempo que lhe foi concedido assim. Mas não se preocupe, as coisas vão melhorar. – Quando ele finalmente sumiu, cedi minhas forças àquela dor e desmaiei. Quando acordei, minha cabeça estava latejando, mas não doía mais. Levantei-me e fiquei me perguntando quanto tempo passara desacordado. A dor foi tão forte que acordei totalmente desorientado. Olhei para os lados e me vi bem no meio do cruzamento. Todas as luzes estavam funcionando como se nada tivesse acontecido e eu já não sabia de qual lado eu viera, para qual lado aquele homem fora. O cenário era igual para os quatro cantos da rua. Eu estava ferrado. Sabia que a serra estava à minha esquerda, mas apesar da noite limpa, não enxergava mais do que 300 metros à frente e a serra já tinha sumido de vista. O jeito era arriscar um dos quatro caminhos daquele cruzamento e rezar.

Tentei a sorte, tomei o que me parecia mais adequado e saí correndo. Corri, corri, corri muito. A sensação de antes de encontrar aquele homem, de que corria, mas não saía do lugar, repetia-se. Coisas horríveis já passavam pela minha cabeça. Era só o que me faltava passar a noite na estrada, no frio. “E se tiver bichos que podem me atacar? Urubus, sei lá.” pensei. Corri cerca de quinze a vinte minutos, segundo o que minha consciência me dizia. Minha cabeça começou a doer novamente, mas era uma dor muito pequena se comparada a que me fez desmaiar. Pensei que pudesse ser fome e o esforço físico que estava fazendo. Não comia desde o salgado que fingi ser almoço que comprei na rodoviária da minha própria cidade. Avistei algumas centenas de metros à frente uma grande árvore à beira direita da estrada. Grande mesmo, parecia uma figueira de muitos, muitos anos. Era um lugar estranhamente mais claro e logo notei uma figura vermelha embaixo daquela árvore. Tive a impressão de ser uma mulher. Comecei a correr mais rápido ainda até que me aproximei. Era mesmo uma mulher. Vestia um vestido muito vermelho. Ela percebeu minha presença e se virou para mim com um sorriso. Ela era linda e parecia ter seus 27 anos. Nunca imaginaria ver uma mulher daquelas ali, no meio do nada. O que ela fazia ali? Seu cabelo era negro, longo e ondulado, com um enfeite da mesma cor de seu vestido, assim como seu batom, deixando o resto dos cabelos caindo sobre suas costas decotada. Sua pele era branca e perfeita como o luar. Logo percebi que parecia ser uma cigana e lembrei-me do que a senhorinha da pousada havia me dito. Usava um colar de contas prateadas que combinavam com sua sandália. Seus brincos que caíam sobre seus ombros, por sua vez, eram dourados bem como seus adereços na cintura. Era de fato uma cigana. Em sua mão direita, coberta por uma luva preta, abanava um leque lentamente. Não sei quanto tempo perdi olhando hipnotizado para aquela mulher até que ainda ofegante, falei:

– Com licença, moça. Eu estou completamente perdido. Poderia me dizer para onde vai essa estrada? Essa é a Estrava Velha?

A mulher ainda sorrindo me disse com sua voz aveludada e cheia de classe:

– Olá, boa noite. Sim, esta é a Estrada Velha. Ela leva a uma antiga cidade adiante para quem nela caminhar. Diga-me, meu bom homem. O que estás a fazer por estes lados a esta hora?

Espantado com a pergunta, já que eu estava pensando em fazer a mesma, respondi:

– Como disse, estou perdido. Quero voltar para casa, mas não sei o caminho.

– Tu me pareces um pouco assustado. A Estrada Velha leva e traz bons homens assim em apenas uma direção. Como terias te perdido? – Perguntou ainda sorrindo e sem parar de se abanar. Reparei repentinamente que o frio tinha cessado. Ela, inclusive, não estava com roupas adequadas para a temperatura que eu sentira minutos antes. Certamente teria passado muito frio apenas com aquele vestido.

– Aconteceram algumas coisas muito estranhas, moça. Venho de uma cidadezinha na qual estou hospedado, caminhei aparentemente por horas sem perceber. Encontrei um homem que não falou comigo direito e logo depois passei mal e desmaiei. Agora já não sei em que sentido estou.

– Outro homem como tu está a vagar por essas bandas a esta hora? – Indagou curiosa.

– Sim, um homem estranho, falou umas coisas estranhas… que as coisas da minha vida iriam melhorar… Sei lá, umas loucuras assim.

Ela parou de abanar seu leque e seu rosto redondo com um sorriso logo deu lugar a uma expressão de dúvida e espanto. Num tom mais sério perguntou-me:

– Com licença, belo rapaz, poderias me descrever mais esse estranho homem que foi ao teu encontro?

– Ele não veio ao meu encontro. – Respondi sem saber qual a real necessidade daquela conversa. Queria logo ir embora dali, mas aquela moça era tão cativante que me fez ficar. – Nós cruzamos nossos caminhos por acaso. Era um homem alto, mas não tenho muitos detalhes porque não consegui ver seu rosto direito. E ele vestia uma capa que cobria todo o seu corpo.

– Uma capa? Como era essa capa?

– Preta. Muito longa e tinha um triângulo vermelho nas costas. – Falei forçando a memória.

A mulher expressou uma curiosidade que parecia tão grande quanto a minha. Fechou seu leque, colocou-o debaixo de seu braço esquerdo e pegou minha mão direita. Olhou bem para a minha palma e disse:

– Entendo. Tu és realmente mais especial do que imaginei.

– O que quer dizer? – Perguntei com medo de que aquilo se tornasse outra conversa maluca. – Você conhece aquele homem?

– Conheço o que meu povo me conta. Ele não é de se mostrar muito e é de poucas palavras.

– Sabe o que ele queria me dizer com tudo aquilo?

– O que mais ele te disse?

– Disse que eu caminho mais bem acompanhado quando estou sozinho.

– Se ele disse, então acredita.

– Quem é ele? O que ele quer dizer com essas coisas?

– Ninguém sabe o nome dele. Alguns que dizem conhecê-lo o chamam de Zanza. Mas isso não passa de uma lenda e não te podes confiar na palavra de qualquer um. Não se sabe se é seu nome mesmo ou se é porque fica a zanzar por aí. – Respondeu ela tirando os olhos verdes de minha mão e voltando-os para mim.

– Então por que eu devo acreditar no que ele diz? Como sei se era mesmo esse homem que falou? – Perguntei mais interessado que nunca. A essa hora já me esquecera da situação que estava e até da fome.

– Era ele porque a descrição que me deste bate e vejo em teus olhos que não estás a mentir. Lá de onde venho dizem que é um homem muito poderoso e que não se mistura com muitas pessoas, mas que os poucos com quem se mistura são pessoas muito formosas. Poucos se dão o luxo de tê-lo como amigo e que não te deves jamais tê-lo como inimigo ou te arrependerás eternamente. Contam que quando se pensa que ele está a caminhar sozinho para atacá-lo, surgem cem vezes mais criaturas da noite para defendê-lo, mas que mesmo assim ele não precisaria, pois daria conta de todos sozinho. – Abriu novamente aquele sorriso encantador e também o seu leque. – Tu pareces mesmo ser um rapaz de sorte além de muito belo.

– D… Da onde você vem? Mas… Como assim? – Gaguejei sem saber o que mais me espantava naquela conversa. – Afinal o que você está fazendo aqui a essa hora?

A mulher soltou uma gargalhada alta e imponente e continuou:

– Tu és belo, mas não tão esperto assim, não é mesmo? Achei que jamais perguntaria. Muito prazer, meu nome é Maria… – Era Maria. Maria…alguma coisa. Um nome composto. Eu estava tão nervoso que hoje não consigo me lembrar do nome daquela mulher. – Eu moro com meu povo nesta região. Estava aqui apenas a apreciar os presentes que este belo luar me envia todas as noites. Aqui, tome esta rosa. – E esticou sua mão esquerda que não vestia luvas, mas cujo braço estava enfeitado com uma grande quantidade de pulseiras prateadas. Ela me entregou uma rosa vermelha tão viva que lembrava aquele triângulo da capa daquele homem. Não sei da onde aquela flor surgiu que não havia reparado que estava com ela durante todo esse tempo, mesmo tendo prestado atenção em tantos detalhes. – É para retribuir o presente. Ela te trará sorte e te deixará mais calmo em tua caminhada. – Seus olhos brilhavam como verdadeiras esmeraldas.

Hesitei em pegar aquela rosa de uma maneira tão rude que fiquei até com vergonha.

– Que presente? – Perguntei.

– Ora, não és esperto mesmo. – E riu com classe. – Não te preocupes. Que mal uma simples rosa poderá fazer a quem está a caminhar perdido e desorientado? Afinal, tu agora és amigo de Zanza, o poderoso misterioso e eu não seria tão tola de fazer-te nenhum mal. – E me olhou com seu olhar sedutor, balançando seu leque veementemente.

Eu aceitei a rosa. De fato, o que uma flor poderia me fazer de mal? Aliás, que sorte e calma ela poderia me trazer também? Enfim, decidi aceitar apenas para não parecer grosseiro. Era só uma rosa afinal.

– Agora vai. Não te preocupes mais. Estás no caminho certo e a cidade logo aparecerá na vista. Sugiro que não te esqueças do que ouviu essa noite. Tu és um homem afortunado e recebeste uma oportunidade dada a pouquíssimos enquanto outros tantos que se dizem muito mais merecedores nem sequer passaram perto do que tu alcançastes.

Uma parte do meu corpo queria dar o fora dali, mas uma outra grande parte estava completamente hipnotizado e intrigado e me fazia querer ficar ali conversando com aquela mulher por muito mais tempo.

– Sinto ter de te deixar, meu querido. Sinto mesmo. Mas como já disse, não sou tão tola de mexer com os protegidos daquele homem. Não quero que ele pense coisas erradas sobre uma pobre e solitária donzela que fica a vagar por esta velha estrada até a subida da serra ao horizonte. Além disso, já deu minha hora. Faz exatamente seis horas que os sinos tocaram para a chegada da grande hora e o galo logo cantará. A lua não mais brilha com tanta força a partir de agora. – E então eu olhei para o céu e vi que a noite estava se acabando e chegávamos próximos do nascer do sol.

– Obrigado pelo presente. – Ela continuou. – Foi um prazer conhecê-lo.

Eu sem sequer conseguir falar tchau e muito menos imaginar o que seria o tal presente, hesitei, afastei e virei para a direção indicada. Comecei a correr. Minha cabeça já não latejava mais e eu me sentia muito mais calmo e com uma estranha resistência de quem estivera muito bem alimentado. Alguns metros depois voltei meus olhos para trás sobre meu ombro direito e já não via nem a enorme figueira e muito menos a misteriosa mulher. Não quis saber, acelerei o passo em tempo que o dia nascia à minha frente. Estava, de fato, na direção certa. Cinco minutos correndo e avistei a cidadezinha. Passei pelo poste com os dizeres “Estrada Velha” e fui direto acertar minhas contas com a senhora da pousada para ir embora daquele lugar. A cidade ainda não tinha acordado. Entrei na pousada e não havia ninguém na recepção. Corri para meu quarto, peguei a chave e abri a porta agitado. Estava finalmente salvo. Olhei para minha mão e ainda carregava a rosa daquela mulher. De alguma forma aquilo realmente parecia ter me acalmado. Estava já tão consciente que decidi aproveitar para me deitar e descansar por algum tempo. Fui colocar a rosa sobre a poltrona e assustei ao me deparar uma bandeja com pães frescos, manteiga e uma garrafa de leite também fresco nela. Imaginei que a recepcionista tivesse entrado em meu quarto e deixado ali como cortesia para o café da manhã. Sem pensar, ataquei a bandeja que me serviu de banquete. Logo virei para a cama e capotei ao lado da rosa.

Horas depois acordei assustado. Havia dormido tão profundamente que acho que nem devo ter sonhado. Não sabia que horas eram, mas tratei de arrumar minhas coisas rapidamente para ir embora. Taquei minha mochila nas costas e, indo em direção à porta do quarto, parei, olhei para cama e vi aquela rosa lá, vivíssima. Logo lembrei daquela mulher dizendo “que mal uma simples rosa poderá fazer?” e voltei para pegá-la. Tranquei o quarto e caminhei para a recepção. Um senhorzinho muito velho e simples estava lá para me atender.

– Bom dia. – Disse a ele. – Obrigado pelo café da manhã. Perdi a noção do tempo. Poderia por favor fechar minha conta?

O senhor me olhava como quem vira um fantasma. Eu notei o espanto e falei:

– Desculpe-me a agitação. Eu cheguei ontem, não tive a oportunidade de te conhecer. Falei com aquela senhora que fica aqui. – E logo lembrei que passei tudo o que passei porque ela não me deu as orientações corretas, mas não conseguia ficar bravo com uma senhora tão simpática e que ainda teria me servido o café da manhã. – Aliás, agradeça a ela pelo café da manhã, por favor.

– Não há nenhuma senhora aqui, meu senhor. – Falou o homem quebrando seu silêncio.

– Como assim? Aquela senhorinha de cabelos curtos e óculos que mora aí.

– Receio que esteja confuso, senhor. Não há ninguém mais que mora aqui além de mim desde que minha esposa faleceu há 14 anos e você é o único hospede que temos no momento. Aliás, eu nem sequer sabia que você estava por aqui. Aonde conseguiu a chave desse quarto?

Eu estava ficando atordoado novamente, mas respondi:

– Pois foi essa senhora que me deu. Ela me recebeu ontem no final da tarde e me levou até o quarto 7. Tome aqui a chave. – E entreguei a chave na mão dele. – Se não foi ela e o senhor não sabia que eu estava aqui, quem então me serviu o café da manhã?

– Nós não servimos café da manhã, meu senhor. – Disse ele com o olhar tão curioso quanto o meu. – E o quarto 7 está interditado por problemas no encanamento há uma semana. Inclusive ontem no final da tarde eu estava a procura de um encanador e a pousada estava fechada. Não havia ninguém aqui.

Decidi simplesmente não dizer que no dia anterior havia tomado um banho normalmente. O homem já estava tão confuso quanto eu pensando que eu havia invadido a pousada. Paguei logo o que devia e saí apressado. Fui até o ponto de ônibus no qual tinha descido no dia anterior e peguei o primeiro ônibus de volta para casa já querendo tirar outras férias. Um lado da minha consciência queria se livrar daquela rosa e de tudo que me remetesse àquelas memórias, mas não consegui me desfazer dela que acabou durando viva cerca de duas semanas.

Carta a mim mesmo.

Oi, Cássio. Sou eu. Cássio.
Sim, você mesmo, só que do futuro. Estou em 2015, dez anos à sua frente. Louco isso, né? Coisa de filme e tal.

Escrevo porque venho refletindo muito sobre a vida que levei e que você levará. Tentei compilar uma porção de coisas que, se em 2005 eu tivesse a oportunidade de ter eu mesmo, uma década mais experiente, para me falar, eu tentaria pelo menos levar em consideração. Você com 15 anos já está um pouco acostumado a escrever, então sabe que não demoramos muito para concluirmos um texto, certo? Este, no entanto, fiz questão de escrever aos poucos, pois é uma oportunidade única e quis garantir que fosse bem aproveitada. Diferentemente das coisas que a gente escreve que, bom, são alguns sentimentos vomitados.

Sente-se e relaxe. Nenhuma desgraça aconteceu ainda. Sua vida é ótima. Você tem saúde e passa fome só quando quer. Por isso, já começo com o primeiro item:

1- Não seja ansioso. Pare de colocar seus pensamentos e energia no futuro. Posso lhe afirmar que você passará por muitas e boas nos próximos dez anos, mas assim como as poucas e boas que já passou – e garanto, foram poucas mesmo apesar de você firmemente acreditar que tenham sido muitas – você superou, deu um jeito, fez acontecer e está aí hoje, bem. Isso não mudou dez anos para frente. Você encontrará diversos obstáculos e razões para ficar pensando demais em como as coisas serão quando elas finalmente acontecerem. Pare! Deixe para se preocupar com os problemas quando eles finalmente acontecerem e verá que para tudo se dá um jeito. Ou você não estaria aí hoje, vivo. Muito menos eu aqui escrevendo. Perceba que nenhuma ansiedade até hoje realmente valeu a pena. Tudo foi muito menos do que esperávamos.

2- Doe-se. Aproveite o momento. Não se exclua do mundo. Sabe essa parede que criamos em volta de nós? Esse muro? Essa bolha? Destrua-a agora. “Mas e os nossos sentimentos?” Pois é, eles existem e estão aí dentro para serem colocados para fora. Não interessa quantas decepções já tenhamos tido. Todo mundo passa por isso e seria bom que você descobrisse isso o quanto antes. Não faz diferença se as nossas decepções foram maiores ou menores. Aquele que entende o que é se doar mais, passa cada momento mais intensamente, entra de corpo e alma numa situação, num relacionamento, numa oportunidade e realmente vive. E ao contrário do que parece – e tenho certeza que essa é uma dúvida que está na sua cabeça agora – essa é uma prática extremamente boa. Doar-se para o momento e aproveitá-lo é que é ser feliz.

O segredo para a felicidade de segredo não tem nada. Decepções ocorrerão. Se seguir o que digo, provavelmente se decepcionará muito mais do que eu, mas viverá muito mais e quando tiver 25 anos talvez possa escrever um texto muito mais completo, rico e maduro do que este para o nosso Cássio que hoje tem 5 anos lá em 1995 e só se preocupa com Cavaleiros do Zodíaco. Certamente terá também aproveitado muitos momentos gostosos que eu não dei a chance de desabrocharem.

Recentemente descobri que muitos dos problemas que carrego desde a sua época até a minha vêm desse nosso medo de se expor, de se magoar, de passar vergonha. Não tenha medo. Um barco parado no porto está seguro, mas não foi para isso que foram construídos.

3- Seja menos exigente. Falando nisso, aproveite para ser menos exigente. Você não é e nem tem que ser perfeito. Aliás, aprendi recentemente também que ninguém “tem que” nada nesse mundo. Tudo o que fazemos são coisas voluntárias. Tudo, sem exceção. Você não vai à escola porque tem que fazer isso. Você vai porque quer um futuro e sabe que sem ela você não o terá. Eu não trabalho hoje porque tenho que garantir minha vida. Eu trabalho porque eu quero viver bem. Eu poderia abrir mão e sofrer as consequências se assim o quisesse. É uma escolha. Eu poderia desobedecer meus chefes. Terei consequências. Mas ainda é uma escolha. Eu faço o que eles determinam porque eu concordei e escolhi isso. Quem passa por alguma dificuldade pode escolher acomodar-se ou até desistir. Ninguém e nem nós temos que fazer absolutamente nada. Ninguém tem obrigações. Todos temos escolhas. Portanto, pare de querer ser o bonitão porque na verdade você não tem que sê-lo. Você precisa é de autoaprovação e não da aprovação alheia. Aprenda logo cedo e não deixe para aprender só com 24 ou 25 anos que errar não é errado. Você aprenderá muito errando e se decepcionando. Isso lhe fará um ser humano melhor. Não há problema nenhum em errar. Muito pelo contrário. Abandone seu orgulho.

4- Não se culpe pelo seu passado. Lembra que falei para não ser ansioso? Ansiedade é o medo do futuro. Culpa, por sua vez, é o rancor do passado. Pare de pensar em coisas do passado que deram errado. Nada deu errado. Tudo deu da maneira como era possível ter dado. Tire o quanto antes tudo que for arrependimento e rancor de dentro de você. Além desses sentimentos não lhe acrescentarem nada, eles só lhe deixarão louco e isso vai demorar para sair. Acredite. Mais uma vez, não exija demais de si mesmo. Tudo o que fez, mesmo quando errou, você fez da melhor maneira que podia naquele momento, com aquela disposição e cabeça. Sabendo disso, seu nível de exigência se abaixará e verá que o item anterior fará muito mais sentido. Não fique pensando no que poderia ter sido diferente ou melhor. Pense que foi da melhor maneira que você poderia ser e tire o passado de sua cachola. Aproveite o seu momento agora. Apesar de eu escrever uma carta para lhe ensinar e tentar melhorar um pouco sua vida, é importante que entenda que eu não me arrependo de um ponto sequer do que vivi até hoje e é isso que quero lhe passar desde cedo.

5- Saiba se relacionar melhor. Sabe aquela história de “Homem de muitas mulheres, poucas paixões e nenhum amor.”? que você fala já aos 15 anos? Pois é, com 25 eu ainda carrego isso comigo, mas hoje isso não faz muito mais sentido. Nessa próxima década você encontrará alguns amores. Aliás, estamos em setembro e daqui alguns dias você se surpreenderá muito. A essa altura você já deve ter uma ideia de quem seja. Vá fundo. Ela é uma garota de ouro. Mas lembre-se, você se doará no começo e terá a recaída de se fechar. Portanto, tenha em mente todas as palavras que falei sobre doar-se e viver o momento. Mantenha-se aberto com ela e com o resto do mundo. Será duradouro, coisa de vários anos, por isso, é importante que você não cometa o mesmo erro que eu. Depois de um tempo ficará desgastante e você pensará que o problema não é com você, mas com ela. Engano nosso. O problema é que nós deixamos de nos abrir, ficamos exigentes conosco e com o mundo – principalmente com ela – e paramos de aproveitar cada momento. O meu fim foi ruim, mas se você aprender tudo isso logo no começo, poderá fazer uma história diferente. E por mais diferente que essa história seja, para bom ou para ruim, é importante que você a viva intensamente sem medo de errar, tendo a tolerância e sabedoria de que do outro lado existe uma pessoa e que, ao contrário de você, não tem a sua versão 10 anos mais experiente para lhe falar algumas coisas. Ela também tem seus conflitos internos. Respeite-a como o ser humano que ela é, assim como nós.

Depois dessa você conhecerá outras garotas. Sim, acredite, ela não é a única nesse mundão. Das que virão, todas serão tão especiais quanto a primeira – na verdade, tão especiais quanto a singularidade delas as faz. A primeira foi de ouro, as outras também e verá que cada uma será um ouro com um brilho diferente e único. Não as compare jamais. Elas lhe ensinarão muitas coisas e é importante tentar aprender o máximo possível. Aproveite cada instante, sem passado, sem futuro.

Você terá um breve relacionamento com uma pessoa totalmente diferente de todas as outras. Alguém cuja personalidade sempre lhe servirá de exemplo para tudo o que estou falando hoje com 25 anos. O relacionamento será curto mesmo, cerca de um mês e pouco, talvez por você não esperar se envolver com alguém assim e não saber lidar com isso. Mas foi tão curto quanto marcante. Ela continuará sendo sua amiga, ainda que distante, e você ficará muito feliz só de poder conversar com ela de vez em quando em dia de jogo quando a encontrar no bar.

Depois, não estranhe, você se dará conta de que se relacionará com uma garota muito mais nova que você e que isso não é, nem de longe, um sinal de que ela não tem nada para lhe acrescentar. Seja gentil com ela. Você terá passado por coisas que ela ainda não passou, mas reconheça que ela também certamente tem coisas singulares que nem você e nem eu, com 25 anos, imaginamos. Tente passar algumas coisas do que sabe para ela e tente absorver o que ela tem para lhe passar, sempre lembrando que o que é certo para nós pode não ser para os outros. Ela é uma pessoa tão mais nova quanto sensacional e você se surpreenderá muito com isso. Se for como aconteceu comigo, seja delicado na hora de dizer que não quer mais essa relação. Vocês se gostam muito, mas ela terá o jeito dela de reagir e é importante que você seja compreensivo com a confusão que você formará na cabeça dela. Principalmente porque em pouco tempo aparecerá uma nova pessoa maravilhosa em sua vida. De um ouro com único brilho também.

Esta virá de tempos difíceis e é importante que você não os menospreze. Assim como você, ela também teve problemas que, como já falamos, não interessa se são maiores ou menores. É importante que você passe segurança a ela e que saiba lidar com as diversas situações com muita tolerância. Se você não “tem que” ser perfeito, ela também não. Aceite-se e ensine-a a se aceitar. Ela precisa disso e você se sentirá muito bem em poder ajudar. Aproveite também cada momento em seu lado, faça-a de sua grande companheira e amiga para todas as horas – ela saberá retribuir isso extremamente bem – e, de novo, assim como serve para as outras relações anteriores, serve para essa: viva cada momento, doe-se e não se feche.

Se você se fechar durante qualquer que seja o relacionamento, fechará também as portas dele e tudo tenderá a sucumbir eventualmente. Não tenha medo da decepção, Cássio. Você e seus amores serão muito mais felizes juntos! O que falei para uma vale para todas as outras, mesmo as não mencionadas, e isso não significa que elas sejam iguais. (Não as compare! Elas são muito diferentes em muitos aspectos!) Significa que o único igual aí fui eu por não ter aprendido essas coisas a tempo e sempre atraí pessoas únicas, maravilhosas, mas com situações parecidas, ainda que muito diferentes entre si. Repare, então, que toda vez que pensar que o problema está na outra pessoa, na realidade, está em você, só que você ainda não tem maturidade para entender isso sozinho. Respeite-as. Respeite seus familiares. Se elas são pessoas especiais, só podem ter sido pessoas especiais que as criaram. Respeite seus amigos. Largue de intriga. Você tem os seus, elas têm os delas. Saiba confraternizar-se com eles e saiba respeitá-los. Vocês só terão a ganhar com isso.

Depois que cada uma partir e seguir com a vida, se você ficar com algum rancor ou algo mal resolvido, desfoque-se disso. Jogue seu orgulho fora e fale tudo o que precisa falar. Não guarde. Não interessa o que dizem por aí de “dê um gelo”, “deixe que ela sinta sua falta” etc. Não importa o quanto os outros sejam peritos em relacionamentos. O que interessa é o seu bem estar no momento, lembra? Então vá e fale tudo o que estiver sentindo. A garota poderá lhe rejeitar de novo. Não tem problema, pelo menos você não guardará nenhum trauma e terá optado pela melhor opção possível que é e sempre será seguir sua intuição. Garanto, é melhor quebrar seu orgulho e sua cara do que sofrer consequências de problemas mal resolvidos anos depois.

6- Aproveite seus amigos. Você ainda não sabe porque ainda tem 15 anos e está no final do primeiro colegial, mas os amigos que fez aí dentro continuarão sendo seus amigos por (pelo menos) mais dez anos e muito provavelmente para a vida toda. Você se dará conta de que muita gente por aí tem boas amizades, mas pouquíssimos podem dizer que são amizades com duração de 10, 15 ou até 20 anos e verdadeiras. Você nasceu e não teve irmãos, mas sem saber já encontrou um punhado deles por aí e que estarão dispostos a fazer muita coisa por você e vice-versa. O nível de fidelidade entre vocês ultrapassa qualquer descrição que eu possa tentar produzir aqui. Talvez o Cássio de 35 anos possa ter mais maturidade para tentar descrevê-la e, com sorte, ainda estará ao lado desses irmãos. Como dito, viva com seus amigos cada momento. Saiba compartilhar o seu tempo com suas namoradas e com eles. Ambos possuem diferentes importâncias na sua vida e podem muito bem coexistir sem nenhum tipo de problema. Hoje convivo com esses “irmãos” e falamos com muito orgulho que nossa amizade tem mais idade do que você tem hoje aí em 2005. O mais legal disso tudo é que, se você souber disso desde já, você até já saberá de quais caras estou falando. :)

7- Dê mais ouvido a seus pais. Aproxime-se mais deles. Enquanto você não encontrar um sentido para sua vida – e espero que esse tempo dure menos do que durou comigo -, eles serão a sua única razão para existir. Para começar, isso é besteira. É importante saber que eles são adultos e possuem suas próprias vidas assim como você, bem como suas razões para viver. Embora, reforce o quanto puder o elo entre vocês. Ouça mais o que eles têm para falar. Sua mãe tentará lhe alertar e ensinar muitas coisas durante muitos anos e não será à toa. Aliás, de tudo o que aprendi nos últimos tempos, só aprendi porque finalmente me dei a chance de ouvi-la. Quem sabe além desta enorme carta que lhe ensinará muitas coisas (ou não), você também não aprende coisas boas mais cedo. Entenda seu pai. Ele é um ser difícil como você. Sua cabeça dura, ao contrário do que acha, tem origem, nome, sobrenome e seu sangue. Você ainda é novo, portanto tente amaciar as coisas entre vocês três. Não se preocupe. Até seus 25 anos nada de mal acontecerá com seus pais. Mas aproveite mais, muito mais.

8- Você é sua melhor companhia. Não importa quão próximo dos seus pais e familiares você esteja, não importa quantos irmãos você continuará cultivando e novos que encontrará, não importa com quantas garotas douradas você se relacionará. Aprenda desde cedo que você é a sua melhor companhia. É exatamente por isso que eu estou lhe escrevendo. Ninguém melhor do que você mesmo para lhe abordar e dar alguns conselhos. Só você se conhece, só você sabe o que é bom para você. Só você pode lhe fazer feliz. Só você toma suas decisões. Aproveite cada momento para fazer o que gosta, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Você é o único cara que se garante. Você é o único cara que tem a capacidade de dizer o que é bom e o que é ruim para você. Você é o único cara que vai lhe dar a paz que tanto procura. Nunca, em hipótese alguma, deposite essa responsabilidade nos outros. Se souber administrar isso, perceberá que aquelas decepções das quais já falamos e das quais você tanto tem medo serão fichinha. Ninguém pode ser capaz de lhe derrubar senão você mesmo. A sua autoconfiança está aí dentro, junto com sua felicidade e paz que, não por acaso, chamamos de “paz interior”. Pare de procurar aprovação das outras pessoas. A opinião delas não vale nada se não forem usadas para elas mesmas. Só a sua opinião vale. Você tem seus princípios, seus valores. Siga-os. Tem dúvida? Converse consigo mesmo. O que lhe fizer bem, faça. Seja independente, seja seguro de si, seja autossuficiente, seja feliz, seja a sua melhor companhia, seja o seu melhor amigo.

9- Desapegue. Pratique o desapego desde já. Você tem uma mania estranha de querer guardar objetos e pessoas pelo valor e consideração que tem por elas. Saiba dosar isso. Alguns objetos você nunca mais usará, melhor que fiquem só na memória. Algumas pessoas idem. Você não vai querer nem se lembrar mais tarde. Entenda que uma coisa tem que sair de sua vida para que novas possam entrar. Abra as portas para as novas experiências e novas lembranças e deixe de lado pessoas que não lhe querem ou que não lhe fazem bem.

 

Cássio, são muitas coisas para escrever. O texto já ficou enorme e eu queria lhe falar mais, muito mais. A intenção não era lhe ensinar a viver, até porque se fosse eu ficaria aqui escrevendo mais páginas e páginas sobre cada detalhe da nossa vida. Mas não quero e nem devo reviver uma vida. Ela é mais sua do que minha, se é que posso dizer isso. Viva-a você, da melhor maneira possível. Porque é importante que você se atente a todos esses pontos, mas se for para jogar todos esses conselhos fora, jogue, contanto que permaneçam estes: Você é o único dono da sua vida. Você é quem determina o que é melhor para você. Siga seu “eu interior” e aproveite o momento, sem passado e sem futuro. Fazendo isso, saberá ter uma boa vida muito mais excelente do que a minha foi.

Não existe uma carta perfeita, conselhos perfeitos… Texto perfeito. Entretanto, eu já não me cobro mais por ser perfeito. E eu só queria lhe mostrar o quanto isso é incrível!

Aproveite e seja tão feliz quanto você se permitir ser.
Com carinho,

– Você mesmo

Protegido: Amarelo Azedo

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:

Sacada

E então ela o chamou para conhecer sua sacada. O seu céu estrelado. O que só ela, dali, via. Nem se atentaram ao fato de que as nuvens o cobriam e que de estrela mesmo só duas. Mais brilhantes que qualquer uma que pudesse ser vista dali.

Conversa vai e vem, elogios alheios irônicos e azedos despejados naqueles cujas orelhas deveriam queimar. Só um contexto para aquilo que queriam e não tinham coragem de assumir sentados ali no chão. O frio tomava conta do ambiente. Não o frio de frio… quer dizer, o frio também, mas o frio de ansiedade era maior.

Meio que sem jeito ele se aproximou e ela se retraiu. Ela, de lado e fitando qualquer coisa abaixo, com seus longos cabelos castanhos e ondulados jogados do lado esquerdo cobriam sua timidez. Ele sabia que não se pode entrar no mundo de uma mulher sem antes bater na porta e pedir permissão. Muito menos se fosse para fazer bagunça. Mulheres já têm suas bagunças internas que bastam e não precisam da bagunça e irresponsabilidade de muitos homens que só isso têm a oferecer por aí. Tinha que ser com consentimento. Especial. Tinha que fazer certo.

Esperou paciente até que num instante que durou cerca de um milênio ela o fitou, seus olhos, as tais das duas estrelas da noite, brilhando como nunca, foram cobertos por suas pálpebras e, ali, o alívio, a ansiedade, adrenalina e o frio, que virara calor, dominaram a sacada sob o céu que, nublado, era o mais lindo de todos.

Consciência Negra

Sempre perdido nesta escuridão infinita. A sombra que mais parece crescer enquanto procuro sua beirada.
De todos os males, o pior… não sei.
A convivência que me cala com o costume, rotina, para não dizer cansaço.
Não conheço remédios. Nem dos naturais, nem dos químicos e nem dos humanos. Tudo o que conheço é o que alivia. Apenas. Não ataca a raiz. Nem conheço a raiz. Talvez não tenha. Talvez seja eu. Provável.
Ouço que o mundo do lado de lá da sombra é uma utopia e que, na verdade, ninguém lá vive e que a realidade é comum. Está aquém. Do lado de cá. Não sou o único.
Não existe um lado negro da lua de fato. Na verdade, é tudo negro. Pelo menos é o que dizem os velhos sábios da música.
Algo assim. Quero acreditar nisso quando estou são. Muito embora eu esteja já há muito tempo com os olhos na falta de luz e não consiga enxergar o que não é meu.
Então me resta uma música, uma companhia, um copo que nunca fica vazio. O de sempre. Pelo menos o aceitável. Não me perdoaria se fizesse algo que piorasse.
Perco-me dentro de mim. Viagem louca num vazio imensurável. Negro. Denso. Pego-me desprevenido, com cisco nos dois olhos procurando um corrimão. E vamos lá de novo…
Sempre perdido nessa escuridão infinita. Nessa insana consciência negra.

Solidão irônica

Que ironia a dessa solidão…
Como pode?
Tanta gente solitária, junta no mesmo buraco, ainda se sentir só?

Esperar

[…]

Esperar não significa inércia, muito menos desinteresse;
Renunciar não quer dizer que não ame;
Abrir mão não quer dizer que não queira;
O tempo ensina, mas não cura.

(Martha Medeiros)

Caixa de papelão

Deixem-me contar sobre minha vida. Sobre minhas vontades, esperanças.
Quando foi que pedi para ter tudo o que tenho? Quando foi que escrevi meus sonhos num papel e entreguei nas mãos de alguém que chamam de Deus? Dessa realidade que vivo, o que ganharei saindo daqui e por que não consigo ficar em paz?

Essa vida que me prega peças todos os dias como se quisesse me ensinar algo diferente. Dizem que quem insiste no erro é burro. Se for assim, não teria passado da pré-escola. Cometendo os mesmos erros de um garoto de quinze anos, com a consciência de cometê-los. Um misto de orgulho com teimosia e cara-de-pau. Perseverança já não é há muito tempo.

Existe alguém para me salvar? Salvar-me de mim mesmo. Penetrar minhas barreiras que já não sou capaz de abrir e mostrar o quão florido pode ser o mundo do lado de lá, com amor, vulnerabilidade e sentimentos. Tão mais colorido e cheiroso que o mundo do lado de Cá, rústico, cinza, chuvoso e mórbido. Baseado em passados e sem abertura para o futuro. E de que adianta ser se for para ser assim? Ser isso e não ser um ser humano. Abro a janela e vejo o céu chuvoso enquanto sinto o vento gelado cortando meus olhos que doem.

Acompanhado de minha principal companhia que chamam por aí de Solidão, saio de casa na madrugada e caminho enquanto sinto as gotas que caem do céu no topo de minha cabeça. Um sobretudo que se umedece aos poucos me envolve como um abraço. Quente por agora, mas que se esfria com o tempo. Cruzo as ruas, os semáforos, viro esquinas e só o que encontro são extensões de minha companhia. Casais passam dividindo guarda-chuvas enquanto sorriem. Chegarão ao conforto de suas casas sem reclamar da água no corpo, tomarão um banho e se encolherão debaixo de algum edredom em frente a um filme mequetrefe que, para a situação, está mais do que bom. Pergunto-me se essa sombra que tanto insiste em me perseguir faria o mesmo comigo. Uma tigela de pipoca, um copo de refrigerante com gelo. Não é pedir muito.

Andando sem rumo, sento num banco de praça. Apenas a luz de um poste bem acima de mim ilumina o ambiente. A chuva dá uma trégua e aproveito para me aconchegar no pouco de calor que meu próprio corpo produz e penso nas coisas que tenho feito, nas coisas que têm feito comigo, por aí. Tudo o que tenho errado, tudo o que voltaria atrás. Tudo o que tenho feito com as pessoas que não deixo entrar. Todos precisam de alguém. Precisam de um alguém. Meu corpo intacto judiado pelo tempo que se passou se sente só. Uma vez escutei que esse tal de tempo cura qualquer coisa. Bobagem. Uma das maiores que já pude escutar. O tempo fecha buracos, mas jamais apagam as cicatrizes. Há muito que já sinto falta de alguém. Alguém corajoso o suficiente para persistir. Alguém mais forte que eu, que possa me vencer e entrar, cavar até achar o baú onde guardo sentimentos cujos nomes não lembro mais. E que tenha uma escada grande para voltar porque a viagem até o fundo do buraco não é pequena e eu sei que não.

Viver sozinho no mundo não é bom. Queria poder dividir mais alegrias que tristezas. Mais sorrisos e abraços que raiva e ódio. Mais sol e menos chuva.
Levanto do banco, a chuva voltou a cair. O mundo é silencioso, sem música, sem cantos. Com poças de água para todo lado que só aumentam. Um cachorro cruza meu caminho e entra numa caixa de papelão de um beco de onde faz sua casa. Pobre cão. Identifico-me com ele. Pobre cão. Sem um lugar para chamar de seu. Sem alguém para chamar de dono, para se aconchegar nos braços enquanto abana o rabo sem ter que pensar em como será o dia de amanhã. Cachorros são inteligentes, mais que os humanos. Enquanto nós buscamos sabedoria, coragem e iniciativa para viver um dia como se fosse o último, eles são mais espertos e vivem um dia como se fosse único. Amanhã este cachorro acordará e terá esquecido do dia anterior. Da chuva que tomou, do frio que passou, dos chutes que levou. Das comidas que lhe foram rejeitadas e, principalmente, da solidão que o acompanhou. Certo de que o próximo dia será único, ele viverá novamente. Queria ter sua sabedoria.

Passo a passo de volta para casa. Horas se passaram como minutos. A madrugada castigou os filhos da noite. Parado em frente à minha porta de entrada com a chave na mão, penso no que encontrarei lá dentro. Uma pessoa, vestindo uma calça e uma blusa moletom cujas mangas ultrapassam as mãos. Cabelo longo e preso, caído de lado. Cara de preocupação que logo muda quando me vê. Corre ao meu encontro, me abraça com mil palavras a dizer, sem dizer nenhuma. Deitaremos juntos pelo resto da noite, felizes como se eu fosse uma boa pessoa. Duas voltas na chave, uma volta na maçaneta e ninguém do lado de dentro. Da casa e de mim. O mesmo ar, as mesmas cores cinzas e o mesmo tempo chuvoso do lado de fora. Do lado de lá e de Cá. Tiro meus sapatos gastos e encharcados, subo as escadas, jogo minhas roupas molhadas na cadeira e tento preencher uma cama para dois sozinho. Fazendo dela a minha caixa de papelão.

Prosas hoje me são assaz longas
Meu pensamento corre muito rápido para elas
Começo uma e termino pensando que é outra.
Decidi por coisas mais curtas
Que me acompanhem durante essa louca viagem
Mal sabia que a loucura era muito longa para tão curtos versos.

Era suposto que seria diferente. Suposto que tudo seria lindo como prometia e que lágrimas de nenhum tipo caíssem. Era suposto que nós seríamos felizes e que coisas pequenas não nos atingissem.
Era diferente, era lindo, era natural. Hoje só é natural.
Eu me conheço e sei aonde posso chegar…

… E é isso que supostamente me preocupava.

%d blogueiros gostam disto: