So, so you think you can tell… a show?

Conforme prometido, venho escrever sobre a segunda metade do espetáculo que foi o show do quase-ninguém Roger Waters em sua turnê mundial onde reproduz o quase-nada álbum The Wall. A primeira parte você encontra clickando aqui. Após o intervalo de cerca de vinte minutos que caiu em ótima hora para que todos se sentassem, recuperassem a consciência e se tocar de que, “bom, inacreditável”, as luzes se apagam novamente e repentinamente os primeiros dedilhados de Hey You soam das caixas de som. N’O Muro, a projeção de um muro mesmo. Dando, através da animação, textura aos tijolos montados no palco deixando-os ainda mais reais. As notas dessa música ainda ficam rondando minha cabeça. Absolutamente nada se via além de um Muro enorme e o som. Confesso que aproveitei o momento que nada no palco acontecia para fechar pela primeira vez meus olhos por mais de meio segundo. Deixei-o fechado por uns trinta segundos só canalizando minha atenção para o que entrava em meu ouvido. O baixo, a guitarra, a percussão… Um momento que jamais esquecerei.

As próximas músicas, Is There Anybody Out There?Nobody Home, e Vera foram tocadas respeitando a tensão perfeita que é passada pelas próprias músicas. De volta ao palco, um Roger Waters interpretando claramente alguém melancólico, arrependido, com problemas e sem apoio algum de qualquer espécie buscando um chão para pisar. Nas caixas de som que se espalhavam pelo estádio, o som das ligações e da telefonista conversando com o personagem Pink sobre a ligação que se completara, mas que logo se encerrava por parte do outro lado da linha. Roger encarnou Pink e se mostrou nos telões da mesma forma que Pink se mostra no filme. Abatido, sem sua mulher, sem rumo. Chegou a ser realmente emocionante ver as animações n’O Muro e encaixar com o contexto. Porém, subconscientemente, algo chamava mais a atenção de todo e qualquer ser vivo que estava dentro daquele estádio assistindo ao show. Estaria chegando a hora. O auge. O ápice da euforia. De certo que o álbum inteiro é genial, muito embora ironicamente seja talvez por unanimidade escolha de todos que Comfortably Numb é a música. O momento. A reprodução sonora dos orgasmos musicais.

Já calibrados pela amoção das quatro primeiras músicas do segundo álbum, começava a gritaria e cantoria de Bring The Boys Back Home que marcaria o momento que antecedia o ápice do show. Cada segundo da música marcava para mim um instante a menos para um dos melhores e mais marcantes momentos de minha vida. Eu prestava a atenção na música que foi genialmente reproduzida e projetada em imagens no telão com mensagens escritas, mas acho que não dei toda a atenção merecida. Apenas me lembro de que fiquei parado, em pé, olhando, cantarolando baixinho os quatro versos, sem me mexer e segurando minha capa de chuva enrolada nas mãos, apertando-a com uma força tão desnecessária quanto impulsiva. Cantarolei “Don’t leave the children on their own, no, no; Bring the boys back home!” enquanto Roger gesticulava e cantava com euforia e convicção estes dois últimos dos quatro únicos versos da música ali ao centro e em frente ao Muro que agora só levava os escritos “Bring The Boys Back Home”. Ao final disso, as caixas de som ambiente reproduziram as mesmas falas da telefonista e de outras personagens que aparecem ao longo do álbum assim como na música original mostrando que a música acabara e começaria a próxima. A Próxima! Em cerca de cinco segundos antes do fim desta, senti meu estômago parar em minha garganta. Segurei uma repentina vontade de chorar. O som aumentara e como um maestro de orquestra, Roger gesticula com uma das mãos e segura seu microfone próximo a boca com a outra perguntando, finalmente, ao público… “Is there anybody out there?”

Dois segundos. Foi o tempo que percebi como provavelmente todos ali, incluindo eu mesmo, sabiam o que viria, ainda assim reagiram como numa súbita explosão de adrenalina. Uma gritaria ensurdecedora e uma chuva de flashes de máquinas fotográficas invadiram todo o Morumbi. Minha barriga parecia ter um vácuo. Minhas pernas amoleceram. Meu rosto contorcido pregando os olhos e, enfim, a projeção d’O Muro mudou e o primeiro acorde da maior e melhor terapia para a alma que também é conhecida como Comfortably Numb soou. Numa fração de segundo, o estádio virara de pernas para o ar e, em uníssono, a música foi executada. Ao primeiro refrão, uma inevitável esperança de que um senhor de cabelos curtos e grisalhos aparecesse com sua tradicional guitarra Fender na plataforma que surgira acima d’O Muro logo se extinguiu. Era claro que David Gilmour não acompanharia Roger Waters em sua turnê para tocar Comfortably Numb com toda a sua genialidade mundo a fora como fez na Inglaterra repentinamente como vocês podem ver clicando aqui. Mas valeu ter esperanças. Se o show estava rompendo barreitas do acreditável, sei lá, em minha cabeça eu queria acreditar que David surgiria, embora soubesse que isso não aconteceria de fato. Não aconteceu, ao contrário disso, o segundo vocalista e o guitarrista da banda fizeram suas partes muito bem. Cumpriram seu papel. O guitarrista ainda teve a humildade talvez de não reproduzir o solo da música inteiramente da forma original. Ele claramente modificou, a sua maneira, deixando permanecer apenas a harmonia da música. Um músico talentoso, ficou um bom solo perante a injusta posição de substituir a composição e execução angelical de David Gilmour num dos considerados maiores e melhores solos de todos os tempos da música mundial. Quanto ao Muro, a animação agora finalmente mostrava a quebra das barreiras, o auge do caos e revolta dentro do personagem Pink que agora mudaria totalmente seu caminho e vida. No meio do solo, Roger encenava um Pink que queria se libertar batendo as mãos n’O Muro como quem quisesse quebrá-lo. Até que ele dá quatro passos para trás, pega impulso e bate forte num ponto exato onde a animação mudaria por completa. Agora se projetava o muro se estilhaçando bem a partir do ponto onde Roger batera. Um efeito e animação extraordinário igual ao do vídeo cujo link coloquei acima referindo-me à presença de David Gilmour no show inglês. Assim se desenrolou ao som do solo modificado até o fim da música.

Orgasmos musicais múltiplos, gritarias e incontáveis flashes depois, The Show Must Go On. Literalmente. Parecia que o show acabara ali depois de tanta emoção, mas o show precisava continuar com a música de mesmo nome da expressão. Um momento de agradecimento merecido depois de tantos aplausos e reconhecimento e Roger anuncia Run Like Hell enquanto um enorme balão de Porco surge em frente ao palco. Homens da produção seguravam o grande balão e ficavam andando com ele percorrendo todo o espaço reservado para isso no meio da pista. Eles ficariam rondando o campo até o final do show fazendo o Porco desfilar. Fato interessante que chamou a atenção, pois o Porco era totalmente costumizado, com símbolos, desenhos e mensagens escritas em português como a mais marcante “Muita fé, pouca luta.”. A frente d’O Muro, Roger e alguns atores começavam uma encenação numa coreografia perfeita que interpretava a música como no filme – sempre seguindo o filme. Homens uniformizados surgiam no palco carregando coisas como uniformes, pequenas bandeiras e tudo que começava a ser relacionado ao personagem Pink depois de sua completa revolta. Nesse clima começou Waiting For The Worms. Roger já estava trajado devidamente como Pink. Com um sobretudo de couro, óculos escuros e portando um megafone na mão pregando seus dizeres como no filme e música. Poucas pessoas falam dessa faixa do álbum, mas na minha opinião ela é extremamente marcante por dois motivos. O primeiro deles se deve ao fato dos acordes e sonoridade mesmo. A melodia é marcante por si só a ponto de ficar na cabeça por dias. O segundo motivo seria, e mais uma vez me referindo ao filme, pela marcha dos martelos, símbolos da ordem criada por Pink. Aqueles martelos marchando formaram uma cena muito marcante e até virou um dos símbolos mais lembrados quando se fala em Pink Floyd. Por trás d’O Muro, em plataformas suspensas, homens uniformizados surgiam com bandeiras enormes que representavam o novo exército. A animação n’O Muro projetava martelos que marchavam de um lado ao outro ligando as duas arquibancadas, bandeiras etc. O círculo central do palco que ficava atrás d’O Muro recebia a projeção do próprio logotipo do exército. Um momento arrepiante que ficará na memória para sempre.

Terminada a marcha dos martelos e o muro reaparece na projeção. Agora se via um boneco, um boneco que representava um ser humano desolado. Começava o julgamento. A animação de The Trial foi exatamente como no filme. Seres caricaturados que interagiam diretamente com o boneco e falavam de sua participação na história. Gosto de chamar a atenção para um dos primeiros versos dessa faixa que tanto fala para nós e que, pela sua melodia infantil às vezes é subestimada: “The prisoner who now stands before you was caught red-handed showing feelings! Showing feelings of an almost human nature! This will not do!”. Como bem se encaixa no contexto do álbum, em bom português: “O prisioneiro que agora está diante de vocês foi pego em flagrante demonstrando sentimentos! Sentimentos de uma natureza humana. Isso não se faz!”. As animações da música continuaram idênticas às animações do filme, dando-nos a oportunidade de assisti-lo num telão em forma de muro enorme. Via-se o professor e a mãe de Pink, mais tarde o juíz que julga as atitudes do personagem durante a história do álbum como nojentas a ponto de fazer com que ele, juíz, quisesse defecar. Tudo igual ao filme. Até que chega ao final da música, em seus últimos versos: “I sentence you to be exposed before your peers! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL…”, ou “Eu lhe sentencio a se expôr diante de seus semelhantes! DERRUBEM O MURO!…” e esse verso era repetido em uníssono em todo o estádio do Morumbi. Todos gritando, repetindo e pedindo para que O Muro fosse derrubado expondo toda a intimidade de Pink. Para a surpresa de todos ali presentes, todos os tijolos empilhados e encaixados pela produção e que formavam O grande Muro do palco foram derrubados. O Muro caiu para frente reabrindo a visão para o palco. Um momento que me fez parar de gritar e colocar as duas mãos na cabeça como quem pensa “PUTA MERDA! O QUE FOI QUE EU FIZ?!”.

Um último estrondo e todos os membros da banda, acompanhados de seu líder, ficam enfileirados de fronte aos “destroços” d’O Muro para tocarem juntos a última das músicas. Outside The Wall foi interpretada, cada um dos membros portava seu instrumento e, no final dos versos, manteram a melodia enquanto Roger apresentava cada um deles enquanto iam saindo, descendo do palco, um por vez, sob incansáveis aplausos da platéia. Enquanto isso, o grande balão de Porco que rondava o estádio fora puxado para baixo no meio do povo da pista, propositalmente, até que chegou ao alcance e sumiu em meio a multidão. Por fim, sobrando apenas o grande gênio no palco, ele mais uma vez em bom português agradece a todos uma última vez e fazendo sinal de tchau, desce e some do palco. Era o fim da história do personagem Pink, era o fim do álbum The Wall, era o fim do mais espetacular show de minha vida.

“Muita fé, pouca luta.”

Cá estou para falar sobre o show. Sobre o espetáculo. Enfim, sobre aquilo que aconteceu ontem e que até agora não achei uma palavra para adjetivar. Por outro lado, eu que sempre tive ideias fracas para os títulos de meus textos, desta vez tinha uma enorme lista para escolher que iam desde “The Happiest Days Of Our Lives” até “The prisoner who now stands before you
Was caught red-handed showing feelings.”, passando por inúmeras outras citações referentes ao genial álbum The Wall e até a outra de Wish You Were Here que reservei para a segunda parte deste texto, mas a verdade é que, depois do que vi ontem, “Muita fé, pouca luta.” foi uma frase que me marcou muito por dois motivos. O primeiro deles porque é profunda e se encaixa perfeitamente no contexto do álbum/turnê e o segundo deles porque, afinal, ela estava escrita n’O Porco!

Eu ainda estou sob efeitos da euforia. Em meu último post dizia que sofria de uma ansiedade sem tamanho. A expectativa era enorme. Tão enorme que até me deixava com medo de ir ao show e me decepcionar. Mas não consegui, a ansiedade só aumentou a cada hora que passava e eu teria que abrir mão de qualquer decepção caso não fosse exatamente o que eu esperava. Na pior das hipóteses, seria um showzão que eu iria curtir muito e que me faria ver um dos meus ídolos e um dos maiores ícones da história da música no mundo inteiro, tocando músicas de mesma importância. Com uma hipótese dessas não teria muito a perder além de jogar expectativa fora. Enfim, fui e se tiver que resumir em pouquíssimas palavras eu diria: Toda a expectativa foi muito pouca, isso sim.

Um espetáculo mesmo. Um show típico de Pink Floyd. É assim que descrevo o evento de ontem quando me perguntam como foi. Se você não compreende o que “um show típico de Pink Floyd” significa, então seria inútil tentar explicar os mínimos detalhes a você, pois você ainda assim sairia pensando que foi um show muito bom e apenas. Não, não foi. – Aliás, é até difícil de explicar a quem tem noção do que é, mas que não assistiu ao filme de mesmo nome The Wall, porque o show faz referência ao filme o tempo todo com decorações, animações e efeitos especiais. – Falei que o show do AC/DC foi o maior show de minha vida no sentido de produção. Continua sendo. O show do Roger Waters está num patamar totalmente a parte, numa classificação totalmente nova. Superou e muito a produção e emoção de todos os outros dezenove shows que já fui. Apesar de toda a palhaçada que pela primeira vez fico sabendo sobre arrastões e roubos – pena de quem levou a pior nessa -, o resto foi tudo tranquilo como todo e qualquer show de música de qualidade. Aliás, eu fiquei sabendo de supostos arrastões só hoje de manhã porque vieram me perguntar sobre isso. Confesso que vi dois policiais correndo em suas motos com a sirene ligada na saída, mas na hora me pareceu algo como perseguição a um vendedor ambulante. Típico e convencional. Nada de alarmante. Agora entendo o porquê daquela agitação, mas ainda assim não vi nada. Quanto aos flanelinhas, sim, cobravam caro mesmo, mas dos dez shows grandes que fui, todos eles tivemos que pagar por lugares na rua com preços abusivos. Isso não é novidade e, agora que a mídia deu atenção a isso, deixou um marco negativo ao show injustamente, porque não é a primeira e nem será a última vez. Entretanto, claro que por outro lado é ótimo que comecem a pegar no pé disso aí. Vai que resolve, né… vai que…

A partir de agora, tenha em mente que estas fotos estão em miniatura e que, ao clickar nelas, elas magicamente se ampliam.

Eu achava que já tinha visto um palco grande. Na realidade, o palco em si nem era tão grande, mas a parte interativa com o público, ou seja, O Muro, se extendia de um lado ao outro ligando as arquibancadas do Morumbi causando até espanto. Um Muro montado tijolo por tijolo que deviam ter pouco mais de 1×0,5m cada um. Roger e sua banda ficavam ao centro do palco onde O Muro era aberto e ia sendo montado gradativamente pela produção, fechando-o cada vez mais a cada música. As partes de Another Brick In The WallThe Happiest Days Of Our Lives chegaram e surpreenderam a todos. Com as luzes apagadas e portando de um sistema de som 3D – imagine você em uma sala com um home theater fodido para caralho – com caixas de som que envolviam o estádio inteiro, um único e fortíssimo holofote projetava uma luz que percorreu toda a platéia, inclusive arquibancadas, ao som do helicóptero do álbum. Meu amigo, vou ser muito sincero, o som estava tão alto, tão bem definido e tão bem dissipado pela qualidade 3D que eu juraria ter um helicóptero pousando no meio do gramado se estivesse de olhos vendados apenas escutando o barulho. Logo após, o barulho de avião caindo e, como numa tirolesa, um aviãozinho viaja de uma das iluminações principais do estádio até o palco atingindo um pedaço d’O Muro. Sincronizado com o som. Perfeito. Em seguida, após Another Brick In The Wall part II - que por sinal contou com a participação de crianças representando os “alunos” e que até “atacavam” o boneco inflável enorme d’O Professor surgido no palco – Roger tocou uma versão diferente, simples e acústica da mesma música dedicada especialmente a Jean Charles de Menezes, brasileiro morto no metrô inglês anos atrás. Uma homenagem particular que ele tem feito em todos os shows no mundo inteiro e que coube perfeitamente no contexto.
Numa homenagem muito bonita que se extendeu a todas as pessoas vítimas e mortas injustamente por conta do governo indiretamente, guerras e terrorismo, Roger agradeceu a presença de todos e dedicou o show a essas pessoas. Detalhe, falou tudo em um surpreendente português que deixaria muitos gringos com inveja. A animação do show que consistia em uma projeção em altíssima resolução no próprio Muro que ia se fechando, os tijolos iam recebendo as fotos de cada um deles. Em determinado momento, todos os tijolos que já estavam montados carregavam a imagem de uma vítima, deixando O Muro igual a um homérico mosaico de fotos lado a lado.

O Muro ia se fechando e o primeiro álbum chegando a sua metade com a “alienação” e “fechamento” da mente. Após uma apresentação muito emocionante de Mother, O Muro recebeu em animação os clássicos aviões de guerra que despejam bombas em Goodbye Blue SkyReferindo-se sempre ao combate à alienação produzida pelo capitalismo radical – que numa ironia muito grande contrastou com um show de produção milhonária e ingressos, para variar, caríssimos – as bombas dos aviões na animação eram cifrões e logotipos de marcas famosas como Shell e Mercedes-Benz, além das clássicas cruzes representando a morte das pessoas. Algumas outras grandes marcas foram “mencionadas” como L’Oréal, Apple etc.

Young Lust começava a ser tocada e as animações projetavam mulheres semi-nuas e nuas como na revolta mental do personagem Pink do/no filme. Já em Don’t Leave Me Now, com O Muro já quase totalmente fechado, Roger a interpretou

perfeita e melancolicamente num cenário de quarto que tinha sido montado numa abertura repentina de uma parte d’O Muro mais ao lado direito do palco. Caminhando já para as duas últimas músicas do primeiro álbum, faltando apenas uns vinte tijolos para completarem O Muro, Roger passou para o lado de trás, junto com o resto do palco e da banda, e começou a cantar de lá, deixando à nossa visão apenas a extraordinária animação projetada n’O Muro que agora faltavam cerca de cinco tijolos. Em Goodbye Cruel World, faltava apenas um, por onde se enxergava a silhueta de Roger cantando sob uma luz azul intensa ao fundo, a única luz acesa no Morumbi.

Suas últimas palavras foram os versos da música: “Goodbye all you people; There’s nothing you can say; To make me change; My mind; Goodbye.” e um estrondo como um trovão ao terminar de recitá-los, somados ao apagar da luz e, finalmente, o encaixe do último tijolo d’O Muro marcaram o final do primeiro álbum e a completa alienação do personagem Pink.

Com isso, tivemos um intervalo de cerca de quinze a vinte minutos que, aproveitando O Muro agora completo e totalmente fechado, uma mensagem de agradecimento foi projetada no mesmo aos familiares que enviaram as fotos de seus parentes vítimas homenageados logo no começo que dizia: “I would like to thank all of you who have sent in photos of fallen loved ones. We will remember them. -Roger”.

Durante o passar desses vinte minutos, as fotos – desta vez maiores – e ao lado delas os perfis de cada pessoa “citada” aparecia no muro montando um novo mosaico só com as mesmas, sendo substituídas por novos rostos gradativamente.

Assim terminou genialmente a primeira parte do álbum The Wall. A segunda parte eu você encontra aqui. ;)

“Is there anybody out there?”

Roger Waters - The WallPrimeiro de abril de dois mil e doze e não estou aqui para falar do dia da mentira, embora eu tenha um tema separado que envolva isso, mas prefiro falar sobre coisas mais emocionantes e interessantes. Até porque eu provavelmente terminarei de escrever isso já no dia dois. A essa hora muitos se dirigem para suas casas após sair do Estádio do Morumbi. Muitos dentre esses muitos não sabem, muitos dentre esses muitos ainda não se tocaram, mas talvez eles possam ter apreciado um dos maiores espetáculos dos tempos atuais e, felizmente, não estou falando de um jogo de futebol.

Quem me conhece sabe que , com orgulho, posso me considerar um veterano de shows e este orgulho se deve ao fato de que a maioria de meu repertório consiste em shows grandes. Grandes em emoção, mas também em tamanho de produção e da banda. Coisas que podemos guardar em meio de nossas lembranças para contar aos netos numa tarde de domingo com a família. Na segunda década do terceiro milênio, com apenas vinte e dois anos e em meio de uma cultura musical que deixa muito a desejar, componho uma parte da humanidade que admira as boas músicas que marcaram as décadas da juventude de uma geração anterior. Músicas de bandas consagradas para todos os tempos que fizeram histórias únicas, porém milhões de fãs no mundo inteiro. Eu, aqui, um deles.

Falando de grandeza no que se diz respeito não ao nível emocional, mas apenas na importância e valor da banda em si, dentre todos os grandes shows que fui, talvez o show do AC/DC tenha sido o maior deles. Como já disse, não estou colocando emoções aqui porque possivelmente AC/DC não seja emocionalmente o maior show de minha vida, mas se tratando de tamanho e importância de uma banda, acredito que eles são os caras que ocupam a primeira posição da minha lista. No entanto, algo de extremo valor está para acontecer comigo. Hoje/Ontem, no dia da mentira – voltando agora aqueles supracitados que estão chegando agora em suas casas -, aconteceu no Estádio do Morumbi o show do pequeníssimo e quase sem importância Roger Waters de uma pequeníssima turnê em tributo ao pequeníssimo e quase sem importância álbum The Wall. Álbum este que é um dos pequeníssimos e quase sem importância álbuns de uma pequeníssima e quase sem importância banda que leva a alcunha de Pink Floyd, atualmente, infelizmente, com suas atividades encerradas. Um dos shows. O outro, que era para ser o primeiro na terra da garoa lá no dia 31 de março, foi adiado para o dia 3 próximo, terça-feira. Data que confirma um marco que ainda nem aconteceu em minha vida.

Algo de extremo valor porque reunirá as duas grandezas em questão. Pink Floyd conseguiu se tornar minha banda preferida nos últimos anos. Dotados de uma genialidade sobre-humana, Nick Mason, Richard Wright (R.I.P.) e principalmente Roger Waters e, mais ainda, David Gilmour, juntos, atingiram um dos mais profundos e delicados níveis que separam a música da mais pura manifestação da alma. Claro, esta é minha opinião, mas acredito que não fuja muito do que bons admiradores de música têm a dizer. Sendo assim, poderei juntar a grandeza em emoção com a grandeza em valor de quem se apresenta. Ou parte dela. Roger Waters é o único dos Pink Floyd que se apresenta nesta turnê – salve exceção de um show na Inglaterra que atingiu um patamar tão épico que renderia um texto inteiro e por isso não me atreverei a escrever menos que isso por ele. Portanto, e sem ingratidão nenhuma, conformo-me com a presença de apenas um dos gênios, talvez o segundo maior deles ao meu ver, na apresentação que acontecerá nesta terça-feira.

Penso que muitos não compreendam o valor desta turnê. Aliás, penso que mesmo eu não compreenda, visto que certamente encontrarei pessoas da geração passada que vivenciaram o auge desta arte. Esses caras sim sabem do que essa brincadeira se trata. Mas sem parar para pensar nos outros, pensando apenas em mim, estou cheio de adrenalina e euforia já dias antes do grande momento e não paro sequer um minuto de pensar em como tudo acontecerá. Enquanto escrevo este texto, enquanto faço trabalhos para a faculdade, enquanto converso com pessoas, estou constantemente escutando músicas do Pink Floyd só para acalmar (ou aumentar) a euforia. Pego-me vagando em uma viagem sem fim no meio das notas e solos de cada música e não sei explicar qual é o sentimento relacionado a isso.

Num espetáculo que certamente será grande – Pink Floyd sempre foi considerada uma banda com shows de produções tão enormes quanto impressionantes -, abrirei todas as minhas emoções para o que verei e tentarei guardar na memória todos os detalhes possíveis de momentos que já sei que serão absurdamente especiais. A expectativa é grande e acredito que superará e muito o enorme show do AC/DC. Acho que acima disso somente se uma apresentação de David Gilmour. E, por que não sonhar?, ainda acima disso, Roger Waters e David Gilmour juntos, num mesmo palco novamente, compartilhando os mesmos versos das mesmas músicas, quiçá Comfortably Numb, música que para mim tem um solo de guitarra que é mais que uma terapia para a alma. Imagino tudo isso e lágrimas caem de meus olhos por saber da remota possibilidade de isso acontecer. Mas não serei mal agradecido! Jamais. Verei um dos maiores gênios da música muito em breve. Por que não sonhar em ver o outro grande, e talvez maior ainda, gênio até o fim de minha vida? Se algum dia os dois quiserem se juntar numa oportunidade que me faria vender minha casa, esposa e filhos para prestigiar, poderei descansar finalmente em paz para toda a eternidade.

Pela primeira vez na história deste blog, escrevo sobre uma emoção que vem antes de algo acontecer. Algo tão grandioso que me faz transbordar emoções a cada minuto que antecede o evento. Neste momento, já estou no dia 2 de abril. Amanhã terei um marco em minha vida e, assim que me recuperar da ressaca e dos múltiplos orgasmos musicais da noite, talvez nos próximos dias voltarei a escrever sobre isso já com uma visão diferente de algo que virou passado.

Penso inclusive em fazer um post só para Comfortably Numb qualquer dia, se a preguiça deixar.

Wonderful Tonight

Já é tarde da noite e ela está imaginando quais roupas irá vestir. Ela se maquia e escova seu longo e loiro cabelo.
Então ela me pergunta “Eu estou bonita?” e eu respondo “Sim. Você está maravilhosa esta noite!”

Nós vamos a uma festa e todos se viram para olhar esta linda mulher que anda ao meu lado comigo.
Então ela me pergunta “Você está bem?” e eu respondo “Sim. Eu me sinto maravilhoso esta noite!”

Eu me sinto maravilhoso porque vejo a luz do amor nos seus olhos e a maravilha disso tudo é que você simplesmente não se dá conta do quanto eu te amo.

É hora de ir para casa agora e eu estou com dor de cabeça, então eu lhe dou as chaves do carro e mais tarde ela me põe para dormir.
E então eu digo a ela, enquanto apago a luz, “Querida, você estava maravilhosa esta noite…”

(Eric Clapton)

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

 

(Oswaldo Montenegro)

Música é Vida

Outro dia escutando música percebi há quanto tempo não fazia isso. Absorvendo mentalmente aqueles acordes, veio-me uma sensação de alívio, sensação de leveza. O tempo passara mais rápido enquanto me concentrava naquilo e não poderia ser diferente. Concluí então que faltava mais música em minha vida.

Durante estes períodos escuros pelos quais caminhamos, conseguimos ver umas luzes perdidas no fim da estrada. Como um brilho. Então, este brilho se espalha e nos dá um banho de paz e neutralidade. Subitamente nossos problemas são ignorados de tal forma que aparentemente tenham se acabado para sempre. Somos contaminados pelo prazer de cada nota, como se não só soubéssemos qual é a próxima, tirando pelo fato de já conhecermos a música, mas como se, de forma surreal, aquela e somente aquela se encaixasse não só na melodia, na teoria musical, mas também no momento em que você está ali escutando.

O prazer de escutar obras primas elaboradas com a alma mais cristalina daqueles gênios que chamamos de músicos é comparável aos bons momentos da vida. Contagiam a mente e nos tiram de qualquer que seja nossa rota, entregando-nos ao êxtase, como num estado de nirvana.

Esta arte que mistura várias áreas de estudo, mas que na real, nada de estudo importa. O que importa é o fazer acontecer, fazer sentir e colocar para fora aquilo que ninguém pode tirar. Como grande parte de nossa existência, de nosso ser, somos e construímos a música de nossas vidas. Vida, vida, vida, música, música… Quanta vida num só texto.

Cada passo, um acorde. Cada grande momento, um refrão. Divinos são aqueles com estas tais almas puras que construíram várias vidas que servem de inspiração para nossas músicas. Músicas paralelas, feitas com o mais cristalino sentimento. Vidas paralelas para onde migramos sem perceber. Por isso música é vida.

E já no último compasso desta vida paralela, voltamos à nossa partitura original e nos damos conta de que necessitamos de mais tríades, mais tétrades em nosso cotidiano. A verdade é que muitos vivem por viver. Poucos vivem para fazer arte, viverem a música de suas próprias vidas.

Construa sua vida como os gênios que construíram suas músicas a ponto de quase hipnotizar seus ouvintes. Saia desta monotonia e faça com que sua música seja também inspiração para a vida dos outros. É o que quero que entenda quando digo que falta mais vida em sua música.