Conforme prometido, venho escrever sobre a segunda metade do espetáculo que foi o show do quase-ninguém Roger Waters em sua turnê mundial onde reproduz o quase-nada álbum The Wall. A primeira parte você encontra clickando aqui. Após o intervalo de cerca de vinte minutos que caiu em ótima hora para que todos se sentassem, recuperassem a consciência e se tocar de que, “bom, inacreditável”, as luzes se apagam novamente e repentinamente os primeiros dedilhados de Hey You soam das caixas de som.
N’O Muro, a projeção de um muro mesmo. Dando, através da animação, textura aos tijolos montados no palco deixando-os ainda mais reais. As notas dessa música ainda ficam rondando minha cabeça. Absolutamente nada se via além de um Muro enorme e o som. Confesso que aproveitei o momento que nada no palco acontecia para fechar pela primeira vez meus olhos por mais de meio segundo. Deixei-o fechado por uns trinta segundos só canalizando minha atenção para o que entrava em meu ouvido. O baixo, a guitarra, a percussão… Um momento que jamais esquecerei.
As próximas músicas, Is There Anybody Out There?, Nobody Home, e Vera foram tocadas respeitando a tensão perfeita que é passada pelas próprias músicas. De volta ao palco, um Roger Waters interpretando claramente alguém melancólico, arrependido, com problemas e sem apoio algum de qualquer espécie buscando um chão para pisar.
Nas caixas de som que se espalhavam pelo estádio, o som das ligações e da telefonista conversando com o personagem Pink sobre a ligação que se completara, mas que logo se encerrava por parte do outro lado da linha. Roger encarnou Pink e se mostrou nos telões da mesma forma que Pink se mostra no filme. Abatido, sem sua mulher, sem rumo.
Chegou a ser realmente emocionante ver as animações n’O Muro e encaixar com o contexto. Porém, subconscientemente, algo chamava mais a atenção de todo e qualquer ser vivo que estava dentro daquele estádio assistindo ao show. Estaria chegando a hora. O auge. O ápice da euforia. De certo que o álbum inteiro é genial, muito embora ironicamente seja talvez por unanimidade escolha de todos que Comfortably Numb é a música. O momento. A reprodução sonora dos orgasmos musicais.
Já calibrados pela amoção das quatro primeiras músicas do segundo álbum, começava a gritaria e cantoria de Bring The Boys Back Home que marcaria o momento que antecedia o ápice do show. Cada segundo da música marcava para mim um instante a menos para um dos melhores e mais marcantes momentos de minha vida. Eu prestava a atenção na música que foi genialmente reproduzida e projetada em imagens no telão
com mensagens escritas, mas acho que não dei toda a atenção merecida.
Apenas me lembro de que fiquei parado, em pé, olhando, cantarolando baixinho os quatro versos, sem me mexer e segurando minha capa de chuva enrolada nas mãos, apertando-a com uma força tão desnecessária quanto impulsiva. Cantarolei “Don’t leave the children on their own, no, no; Bring the boys back home!” enquanto Roger gesticulava e cantava com euforia e convicção estes dois últimos dos quatro únicos versos da música ali ao centro e em frente ao Muro que agora só levava os escritos
“Bring The Boys Back Home”. Ao final disso, as caixas de som ambiente reproduziram as mesmas falas da telefonista e de outras personagens que aparecem ao longo do álbum assim como na música original mostrando que a música acabara e começaria a próxima. A Próxima! Em cerca de cinco segundos antes do fim desta, senti meu estômago parar em minha garganta. Segurei uma repentina vontade de chorar. O som aumentara e como um maestro de orquestra, Roger gesticula com uma das mãos e segura seu microfone próximo a boca com a outra perguntando, finalmente, ao público… “Is there anybody out there?”
Dois segundos. Foi o tempo que percebi como provavelmente todos ali, incluindo eu mesmo, sabiam o que viria, ainda assim reagiram como numa súbita explosão de adrenalina. Uma gritaria ensurdecedora e uma chuva de flashes de máquinas fotográficas invadiram todo o Morumbi. Minha barriga parecia ter um vácuo. Minhas pernas amoleceram. Meu rosto contorcido pregando os olhos e, enfim, a projeção d’O Muro mudou e o primeiro acorde da maior e melhor terapia para a alma que também é conhecida como Comfortably Numb soou.
Numa fração de segundo, o estádio virara de pernas para o ar e, em uníssono, a música foi executada.
Ao primeiro refrão, uma inevitável esperança de que um senhor de cabelos curtos e grisalhos aparecesse com sua tradicional guitarra Fender na plataforma que surgira acima d’O Muro logo se extinguiu. Era claro que David Gilmour não acompanharia Roger Waters em sua turnê para tocar Comfortably Numb com toda a sua genialidade mundo a fora como fez na Inglaterra repentinamente como vocês podem ver clicando aqui. Mas valeu ter esperanças. Se o show estava rompendo barreitas do acreditável, sei lá, em minha cabeça eu queria acreditar que David surgiria, embora soubesse que isso não aconteceria de fato. Não aconteceu, ao contrário disso, o segundo vocalista e o guitarrista da banda fizeram suas partes muito bem. Cumpriram seu papel. O guitarrista ainda teve a humildade talvez de não reproduzir o solo da música inteiramente da forma original. Ele claramente modificou, a sua maneira, deixando permanecer apenas a harmonia da música. Um músico talentoso, ficou um bom solo perante a injusta posição de substituir a composição e execução angelical de David Gilmour num dos considerados maiores e melhores solos de todos os tempos da música mundial. Quanto ao Muro, a animação agora finalmente mostrava a quebra das barreiras, o auge do caos e revolta dentro do personagem Pink que agora mudaria totalmente seu caminho e vida.
No meio do solo, Roger encenava um Pink que queria se libertar batendo as mãos n’O Muro como quem quisesse quebrá-lo. Até que ele dá quatro passos para trás, pega impulso e bate forte num ponto exato onde a animação mudaria por completa.
Agora se projetava o muro se estilhaçando bem a partir do ponto onde Roger batera. Um efeito e animação extraordinário igual ao do vídeo cujo link coloquei acima referindo-me à presença de David Gilmour no show inglês. 
Assim se desenrolou ao som do solo modificado até o fim da música.
Orgasmos musicais múltiplos, gritarias e incontáveis flashes depois, The Show Must Go On. Literalmente. Parecia que o show acabara ali depois de tanta emoção, mas o show precisava continuar com a música de mesmo nome da expressão. Um momento de agradecimento merecido depois de tantos aplausos e reconhecimento e Roger anuncia Run Like Hell enquanto um enorme balão de Porco surge em frente ao palco. Homens da produção seguravam o grande balão e ficavam andando com ele percorrendo todo o espaço reservado para isso no meio da pista. Eles ficariam rondando o campo até o final do show fazendo o Porco desfilar. Fato interessante que chamou a atenção, pois o Porco era totalmente costumizado, com símbolos, desenhos e mensagens escritas em português como a mais marcante “Muita fé, pouca luta.”.
A frente d’O Muro, Roger e alguns atores começavam uma encenação numa coreografia perfeita que interpretava a música como no filme – sempre seguindo o filme. Homens uniformizados surgiam no palco carregando coisas como uniformes, pequenas bandeiras e tudo que começava a ser relacionado ao personagem Pink depois de sua completa revolta. Nesse clima começou Waiting For The Worms. Roger já estava trajado devidamente como Pink. Com um sobretudo de couro, óculos escuros e portando um megafone na mão pregando seus dizeres como no filme e música. Poucas pessoas falam dessa faixa do álbum, mas na minha opinião ela é extremamente marcante por dois motivos. O primeiro deles se deve ao fato dos acordes e sonoridade mesmo.
A melodia é marcante por si só a ponto de ficar na cabeça por dias.
O segundo motivo seria, e mais uma vez me referindo ao filme, pela marcha dos martelos, símbolos da ordem criada por Pink. 
Aqueles martelos marchando formaram uma cena muito marcante e até virou um dos símbolos mais lembrados quando se fala em Pink Floyd. Por trás d’O Muro, em plataformas suspensas, homens uniformizados surgiam com bandeiras enormes que representavam o novo exército. A animação n’O Muro projetava martelos que marchavam de um lado ao outro ligando as duas arquibancadas, bandeiras etc. O círculo central do palco que ficava atrás d’O Muro recebia a projeção do próprio logotipo do exército. Um momento arrepiante que ficará na memória para sempre.
Terminada a marcha dos martelos e o muro reaparece na projeção. Agora se via um boneco, um boneco que representava um ser humano desolado. Começava o julgamento. A animação de The Trial foi exatamente como no filme. 
Seres caricaturados que interagiam diretamente com o boneco e falavam de sua participação na história. Gosto de chamar a atenção para um dos primeiros versos dessa faixa que tanto fala para nós e que, pela sua melodia infantil às vezes é subestimada: “The prisoner who now stands before you was caught red-handed showing feelings! Showing feelings of an almost human nature! This will not do!”. Como bem se encaixa no contexto do álbum, em bom português: “O prisioneiro que agora está diante de vocês foi pego em flagrante demonstrando sentimentos! Sentimentos de uma natureza humana. Isso não se faz!”. As animações da música continuaram idênticas às animações do filme, dando-nos a oportunidade de assisti-lo num telão em forma de muro enorme. 
Via-se o professor e a mãe de Pink, mais tarde o juíz que julga as atitudes do personagem durante a história do álbum como nojentas a ponto de fazer com que ele, juíz, quisesse defecar.
Tudo igual ao filme. Até que chega ao final da música, em seus últimos versos: “I sentence you to be exposed before your peers! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL…”, ou “Eu lhe sentencio a se expôr diante de seus semelhantes! DERRUBEM O MURO!…” e esse verso era repetido em uníssono em todo o estádio do Morumbi. Todos gritando, repetindo e pedindo para que O Muro fosse derrubado expondo toda a intimidade de Pink. Para a surpresa de todos ali presentes, todos os tijolos empilhados e encaixados pela produção e que formavam O grande Muro do palco foram derrubados. O Muro caiu para frente reabrindo a visão para o palco.
Um momento que me fez parar de gritar e colocar as duas mãos na cabeça como quem pensa “PUTA MERDA! O QUE FOI QUE EU FIZ?!”.
Um último estrondo e todos os membros da banda, acompanhados de seu líder, ficam enfileirados de fronte aos “destroços” d’O Muro para tocarem juntos a última das músicas. Outside The Wall foi interpretada, cada um dos membros portava seu instrumento e, no final dos versos, manteram a melodia enquanto Roger apresentava cada um deles enquanto iam saindo, descendo do palco, um por vez, sob incansáveis aplausos da platéia. Enquanto isso, o grande balão de Porco que rondava o estádio fora puxado para baixo no meio do povo da pista, propositalmente, até que chegou ao alcance e sumiu em meio a multidão.
Por fim, sobrando apenas o grande gênio no palco, ele mais uma vez em bom português agradece a todos uma última vez e fazendo sinal de tchau, desce e some do palco. Era o fim da história do personagem Pink, era o fim do álbum The Wall, era o fim do mais espetacular show de minha vida.













