Seu sorriso

Que ele já é lindo acima da média já se sabe, mas o porquê de seu sorriso me ser tão especial e marcante eu jamais poderei explicar utilizando termos de beleza… Não há nesse mundo algo tão belo, tão simples e ao mesmo tempo com tanto destaque que seus traços quando sorri. Seus olhos igualmente lindos quase se fecham até tomarem a forma de dois pontos claros sobre um rosto maravilhosamente natural.

Não consigo pensar em outro alguém para exemplo de beleza, muito embora existam tantos padrões de beleza e possivelmente, mesmo que improvável, o seu possa não ser o maior e mais aceitável. Ainda que isso seja apenas uma hipótese, não escondo que vejo muitos rostos lindos por aí, mas nenhum me dá a emoção e sentimento de beleza natural quanto o seu, nem tampouco me despertam vontade de sorrir outros sorrisos como fazem os seus lábios sorrindo.

 

Estrelas do céu

Você se lembra daquela noite em que caminhamos juntos de pés molhados na areia sob o som, vento e reflexo da lua que vinham do mar? Uma praia que outrora tinha crianças que fantasiavam dentro e fora de seus castelos de areia tão rústicos quanto enormes em suas imaginações e que tinha agora, de um lado, apenas um homem pensativo tentando afogar sua vida em uma garrafa; do outro lado, luzes da pequena cidade litorânea que se afundava na ressaca da madrugada já pela metade; entre eles, eu, você, nossos dedos entrelaçados e um enorme rastro de pegadas que nos seguia.

Promessas jogadas ao ar iam e vinham no ritmo das ondas. Já cansados e sentados encarando a imensidão negra e hipnotizante, busquei seu olhar e me peguei confuso ao ver dois pontos misturados ao punhado de estrelas de luzes intensas ao fundo. Percebi para onde olhar ao buscar as duas mais ofuscantes.

A praia era vazia como o mar ininterrupto. Quantas poesias e declarações de amor aquelas águas já teriam escutado antes das minhas? Precisava de algo novo, diferente, único. Decepcionar o mar é como decepcionar a si mesmo. As águas são antigas e sabem o que ouvem. Muito mais, sabem o que falam. Sua maresia possui um motivo e fui muito feliz em perceber. Como com um guia, prestei atenção nas palavras que o mar dizia e, gradativamente, fui descobrindo o que lhe falar. Pensei que nunca seria capaz de falar coisas daquele tipo e, no final, me dei conta de que não precisei surpreender mar nenhum. Ele me ajudara e me encaminhara para o mais compensador dos tesouros. O que dinheiro nenhum compra e o que em lugar nenhum se encontra igual. Seu sorriso surgiu em tempo que suas estrelas quase se fecharam. Seus lábios se mexiam, mas eu não podia ouvir o que dizia, ainda estava sob o efeito do mar e do seu sorriso. São muitas coisas para um mesmo homem como eu racionalizar. Leva tempo. Tempo suficiente para não perceber sua mão sobre a minha e sua aproximação.

Como de supetão, estava deitado na areia e você em cima de mim com suas mãos em minhas bochechas me dando leves beijos apaixonados. Não achava mais as duas estrelas. Seus olhos fechados foram como um aviso de que deveria fechar os meus também. Momentos depois, lado a lado, admiramos o céu de um jeito que me fez viajar até a próxima galáxia. O mar cochichando e a grande escuridão sobre nós me foi tirando a atenção de tudo o que ainda restava. Perdi meus sentidos e finalmente caí no sono. Lembro-me de sentir por último o calor de sua macia mão esquerda em cima da minha direita.

Gritos, latidos e um clarão surgiram. Amanhecera e famílias agora chegavam para mais um dia de férias. Um homem com seu cachorro. Aquele da garrafa sumira assim como nossas pegadas e as estrelas. Hoje voltamos para casa, caminhando e rindo. Seus cabelos que tanto insisti para deixar crescer balançavam ao vento. Despedi-me do mar mais uma vez e agradeci por tanto que fizera por mim, prometendo que voltaria mais uma vez não dando por satisfeito com o que vira na noite anterior, com novas esperanças, novos sorrisos, mas sempre buscando o melhor caminho para o mais belo par de estrelas.

So, so you think you can tell… a show?

Conforme prometido, venho escrever sobre a segunda metade do espetáculo que foi o show do quase-ninguém Roger Waters em sua turnê mundial onde reproduz o quase-nada álbum The Wall. A primeira parte você encontra clickando aqui. Após o intervalo de cerca de vinte minutos que caiu em ótima hora para que todos se sentassem, recuperassem a consciência e se tocar de que, “bom, inacreditável”, as luzes se apagam novamente e repentinamente os primeiros dedilhados de Hey You soam das caixas de som. N’O Muro, a projeção de um muro mesmo. Dando, através da animação, textura aos tijolos montados no palco deixando-os ainda mais reais. As notas dessa música ainda ficam rondando minha cabeça. Absolutamente nada se via além de um Muro enorme e o som. Confesso que aproveitei o momento que nada no palco acontecia para fechar pela primeira vez meus olhos por mais de meio segundo. Deixei-o fechado por uns trinta segundos só canalizando minha atenção para o que entrava em meu ouvido. O baixo, a guitarra, a percussão… Um momento que jamais esquecerei.

As próximas músicas, Is There Anybody Out There?Nobody Home, e Vera foram tocadas respeitando a tensão perfeita que é passada pelas próprias músicas. De volta ao palco, um Roger Waters interpretando claramente alguém melancólico, arrependido, com problemas e sem apoio algum de qualquer espécie buscando um chão para pisar. Nas caixas de som que se espalhavam pelo estádio, o som das ligações e da telefonista conversando com o personagem Pink sobre a ligação que se completara, mas que logo se encerrava por parte do outro lado da linha. Roger encarnou Pink e se mostrou nos telões da mesma forma que Pink se mostra no filme. Abatido, sem sua mulher, sem rumo. Chegou a ser realmente emocionante ver as animações n’O Muro e encaixar com o contexto. Porém, subconscientemente, algo chamava mais a atenção de todo e qualquer ser vivo que estava dentro daquele estádio assistindo ao show. Estaria chegando a hora. O auge. O ápice da euforia. De certo que o álbum inteiro é genial, muito embora ironicamente seja talvez por unanimidade escolha de todos que Comfortably Numb é a música. O momento. A reprodução sonora dos orgasmos musicais.

Já calibrados pela amoção das quatro primeiras músicas do segundo álbum, começava a gritaria e cantoria de Bring The Boys Back Home que marcaria o momento que antecedia o ápice do show. Cada segundo da música marcava para mim um instante a menos para um dos melhores e mais marcantes momentos de minha vida. Eu prestava a atenção na música que foi genialmente reproduzida e projetada em imagens no telão com mensagens escritas, mas acho que não dei toda a atenção merecida. Apenas me lembro de que fiquei parado, em pé, olhando, cantarolando baixinho os quatro versos, sem me mexer e segurando minha capa de chuva enrolada nas mãos, apertando-a com uma força tão desnecessária quanto impulsiva. Cantarolei “Don’t leave the children on their own, no, no; Bring the boys back home!” enquanto Roger gesticulava e cantava com euforia e convicção estes dois últimos dos quatro únicos versos da música ali ao centro e em frente ao Muro que agora só levava os escritos “Bring The Boys Back Home”. Ao final disso, as caixas de som ambiente reproduziram as mesmas falas da telefonista e de outras personagens que aparecem ao longo do álbum assim como na música original mostrando que a música acabara e começaria a próxima. A Próxima! Em cerca de cinco segundos antes do fim desta, senti meu estômago parar em minha garganta. Segurei uma repentina vontade de chorar. O som aumentara e como um maestro de orquestra, Roger gesticula com uma das mãos e segura seu microfone próximo a boca com a outra perguntando, finalmente, ao público… “Is there anybody out there?”

Dois segundos. Foi o tempo que percebi como provavelmente todos ali, incluindo eu mesmo, sabiam o que viria, ainda assim reagiram como numa súbita explosão de adrenalina. Uma gritaria ensurdecedora e uma chuva de flashes de máquinas fotográficas invadiram todo o Morumbi. Minha barriga parecia ter um vácuo. Minhas pernas amoleceram. Meu rosto contorcido pregando os olhos e, enfim, a projeção d’O Muro mudou e o primeiro acorde da maior e melhor terapia para a alma que também é conhecida como Comfortably Numb soou. Numa fração de segundo, o estádio virara de pernas para o ar e, em uníssono, a música foi executada. Ao primeiro refrão, uma inevitável esperança de que um senhor de cabelos curtos e grisalhos aparecesse com sua tradicional guitarra Fender na plataforma que surgira acima d’O Muro logo se extinguiu. Era claro que David Gilmour não acompanharia Roger Waters em sua turnê para tocar Comfortably Numb com toda a sua genialidade mundo a fora como fez na Inglaterra repentinamente como vocês podem ver clicando aqui. Mas valeu ter esperanças. Se o show estava rompendo barreitas do acreditável, sei lá, em minha cabeça eu queria acreditar que David surgiria, embora soubesse que isso não aconteceria de fato. Não aconteceu, ao contrário disso, o segundo vocalista e o guitarrista da banda fizeram suas partes muito bem. Cumpriram seu papel. O guitarrista ainda teve a humildade talvez de não reproduzir o solo da música inteiramente da forma original. Ele claramente modificou, a sua maneira, deixando permanecer apenas a harmonia da música. Um músico talentoso, ficou um bom solo perante a injusta posição de substituir a composição e execução angelical de David Gilmour num dos considerados maiores e melhores solos de todos os tempos da música mundial. Quanto ao Muro, a animação agora finalmente mostrava a quebra das barreiras, o auge do caos e revolta dentro do personagem Pink que agora mudaria totalmente seu caminho e vida. No meio do solo, Roger encenava um Pink que queria se libertar batendo as mãos n’O Muro como quem quisesse quebrá-lo. Até que ele dá quatro passos para trás, pega impulso e bate forte num ponto exato onde a animação mudaria por completa. Agora se projetava o muro se estilhaçando bem a partir do ponto onde Roger batera. Um efeito e animação extraordinário igual ao do vídeo cujo link coloquei acima referindo-me à presença de David Gilmour no show inglês. Assim se desenrolou ao som do solo modificado até o fim da música.

Orgasmos musicais múltiplos, gritarias e incontáveis flashes depois, The Show Must Go On. Literalmente. Parecia que o show acabara ali depois de tanta emoção, mas o show precisava continuar com a música de mesmo nome da expressão. Um momento de agradecimento merecido depois de tantos aplausos e reconhecimento e Roger anuncia Run Like Hell enquanto um enorme balão de Porco surge em frente ao palco. Homens da produção seguravam o grande balão e ficavam andando com ele percorrendo todo o espaço reservado para isso no meio da pista. Eles ficariam rondando o campo até o final do show fazendo o Porco desfilar. Fato interessante que chamou a atenção, pois o Porco era totalmente costumizado, com símbolos, desenhos e mensagens escritas em português como a mais marcante “Muita fé, pouca luta.”. A frente d’O Muro, Roger e alguns atores começavam uma encenação numa coreografia perfeita que interpretava a música como no filme – sempre seguindo o filme. Homens uniformizados surgiam no palco carregando coisas como uniformes, pequenas bandeiras e tudo que começava a ser relacionado ao personagem Pink depois de sua completa revolta. Nesse clima começou Waiting For The Worms. Roger já estava trajado devidamente como Pink. Com um sobretudo de couro, óculos escuros e portando um megafone na mão pregando seus dizeres como no filme e música. Poucas pessoas falam dessa faixa do álbum, mas na minha opinião ela é extremamente marcante por dois motivos. O primeiro deles se deve ao fato dos acordes e sonoridade mesmo. A melodia é marcante por si só a ponto de ficar na cabeça por dias. O segundo motivo seria, e mais uma vez me referindo ao filme, pela marcha dos martelos, símbolos da ordem criada por Pink. Aqueles martelos marchando formaram uma cena muito marcante e até virou um dos símbolos mais lembrados quando se fala em Pink Floyd. Por trás d’O Muro, em plataformas suspensas, homens uniformizados surgiam com bandeiras enormes que representavam o novo exército. A animação n’O Muro projetava martelos que marchavam de um lado ao outro ligando as duas arquibancadas, bandeiras etc. O círculo central do palco que ficava atrás d’O Muro recebia a projeção do próprio logotipo do exército. Um momento arrepiante que ficará na memória para sempre.

Terminada a marcha dos martelos e o muro reaparece na projeção. Agora se via um boneco, um boneco que representava um ser humano desolado. Começava o julgamento. A animação de The Trial foi exatamente como no filme. Seres caricaturados que interagiam diretamente com o boneco e falavam de sua participação na história. Gosto de chamar a atenção para um dos primeiros versos dessa faixa que tanto fala para nós e que, pela sua melodia infantil às vezes é subestimada: “The prisoner who now stands before you was caught red-handed showing feelings! Showing feelings of an almost human nature! This will not do!”. Como bem se encaixa no contexto do álbum, em bom português: “O prisioneiro que agora está diante de vocês foi pego em flagrante demonstrando sentimentos! Sentimentos de uma natureza humana. Isso não se faz!”. As animações da música continuaram idênticas às animações do filme, dando-nos a oportunidade de assisti-lo num telão em forma de muro enorme. Via-se o professor e a mãe de Pink, mais tarde o juíz que julga as atitudes do personagem durante a história do álbum como nojentas a ponto de fazer com que ele, juíz, quisesse defecar. Tudo igual ao filme. Até que chega ao final da música, em seus últimos versos: “I sentence you to be exposed before your peers! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL…”, ou “Eu lhe sentencio a se expôr diante de seus semelhantes! DERRUBEM O MURO!…” e esse verso era repetido em uníssono em todo o estádio do Morumbi. Todos gritando, repetindo e pedindo para que O Muro fosse derrubado expondo toda a intimidade de Pink. Para a surpresa de todos ali presentes, todos os tijolos empilhados e encaixados pela produção e que formavam O grande Muro do palco foram derrubados. O Muro caiu para frente reabrindo a visão para o palco. Um momento que me fez parar de gritar e colocar as duas mãos na cabeça como quem pensa “PUTA MERDA! O QUE FOI QUE EU FIZ?!”.

Um último estrondo e todos os membros da banda, acompanhados de seu líder, ficam enfileirados de fronte aos “destroços” d’O Muro para tocarem juntos a última das músicas. Outside The Wall foi interpretada, cada um dos membros portava seu instrumento e, no final dos versos, manteram a melodia enquanto Roger apresentava cada um deles enquanto iam saindo, descendo do palco, um por vez, sob incansáveis aplausos da platéia. Enquanto isso, o grande balão de Porco que rondava o estádio fora puxado para baixo no meio do povo da pista, propositalmente, até que chegou ao alcance e sumiu em meio a multidão. Por fim, sobrando apenas o grande gênio no palco, ele mais uma vez em bom português agradece a todos uma última vez e fazendo sinal de tchau, desce e some do palco. Era o fim da história do personagem Pink, era o fim do álbum The Wall, era o fim do mais espetacular show de minha vida.

“Muita fé, pouca luta.”

Cá estou para falar sobre o show. Sobre o espetáculo. Enfim, sobre aquilo que aconteceu ontem e que até agora não achei uma palavra para adjetivar. Por outro lado, eu que sempre tive ideias fracas para os títulos de meus textos, desta vez tinha uma enorme lista para escolher que iam desde “The Happiest Days Of Our Lives” até “The prisoner who now stands before you
Was caught red-handed showing feelings.”, passando por inúmeras outras citações referentes ao genial álbum The Wall e até a outra de Wish You Were Here que reservei para a segunda parte deste texto, mas a verdade é que, depois do que vi ontem, “Muita fé, pouca luta.” foi uma frase que me marcou muito por dois motivos. O primeiro deles porque é profunda e se encaixa perfeitamente no contexto do álbum/turnê e o segundo deles porque, afinal, ela estava escrita n’O Porco!

Eu ainda estou sob efeitos da euforia. Em meu último post dizia que sofria de uma ansiedade sem tamanho. A expectativa era enorme. Tão enorme que até me deixava com medo de ir ao show e me decepcionar. Mas não consegui, a ansiedade só aumentou a cada hora que passava e eu teria que abrir mão de qualquer decepção caso não fosse exatamente o que eu esperava. Na pior das hipóteses, seria um showzão que eu iria curtir muito e que me faria ver um dos meus ídolos e um dos maiores ícones da história da música no mundo inteiro, tocando músicas de mesma importância. Com uma hipótese dessas não teria muito a perder além de jogar expectativa fora. Enfim, fui e se tiver que resumir em pouquíssimas palavras eu diria: Toda a expectativa foi muito pouca, isso sim.

Um espetáculo mesmo. Um show típico de Pink Floyd. É assim que descrevo o evento de ontem quando me perguntam como foi. Se você não compreende o que “um show típico de Pink Floyd” significa, então seria inútil tentar explicar os mínimos detalhes a você, pois você ainda assim sairia pensando que foi um show muito bom e apenas. Não, não foi. – Aliás, é até difícil de explicar a quem tem noção do que é, mas que não assistiu ao filme de mesmo nome The Wall, porque o show faz referência ao filme o tempo todo com decorações, animações e efeitos especiais. – Falei que o show do AC/DC foi o maior show de minha vida no sentido de produção. Continua sendo. O show do Roger Waters está num patamar totalmente a parte, numa classificação totalmente nova. Superou e muito a produção e emoção de todos os outros dezenove shows que já fui. Apesar de toda a palhaçada que pela primeira vez fico sabendo sobre arrastões e roubos – pena de quem levou a pior nessa -, o resto foi tudo tranquilo como todo e qualquer show de música de qualidade. Aliás, eu fiquei sabendo de supostos arrastões só hoje de manhã porque vieram me perguntar sobre isso. Confesso que vi dois policiais correndo em suas motos com a sirene ligada na saída, mas na hora me pareceu algo como perseguição a um vendedor ambulante. Típico e convencional. Nada de alarmante. Agora entendo o porquê daquela agitação, mas ainda assim não vi nada. Quanto aos flanelinhas, sim, cobravam caro mesmo, mas dos dez shows grandes que fui, todos eles tivemos que pagar por lugares na rua com preços abusivos. Isso não é novidade e, agora que a mídia deu atenção a isso, deixou um marco negativo ao show injustamente, porque não é a primeira e nem será a última vez. Entretanto, claro que por outro lado é ótimo que comecem a pegar no pé disso aí. Vai que resolve, né… vai que…

A partir de agora, tenha em mente que estas fotos estão em miniatura e que, ao clickar nelas, elas magicamente se ampliam.

Eu achava que já tinha visto um palco grande. Na realidade, o palco em si nem era tão grande, mas a parte interativa com o público, ou seja, O Muro, se extendia de um lado ao outro ligando as arquibancadas do Morumbi causando até espanto. Um Muro montado tijolo por tijolo que deviam ter pouco mais de 1×0,5m cada um. Roger e sua banda ficavam ao centro do palco onde O Muro era aberto e ia sendo montado gradativamente pela produção, fechando-o cada vez mais a cada música. As partes de Another Brick In The WallThe Happiest Days Of Our Lives chegaram e surpreenderam a todos. Com as luzes apagadas e portando de um sistema de som 3D – imagine você em uma sala com um home theater fodido para caralho – com caixas de som que envolviam o estádio inteiro, um único e fortíssimo holofote projetava uma luz que percorreu toda a platéia, inclusive arquibancadas, ao som do helicóptero do álbum. Meu amigo, vou ser muito sincero, o som estava tão alto, tão bem definido e tão bem dissipado pela qualidade 3D que eu juraria ter um helicóptero pousando no meio do gramado se estivesse de olhos vendados apenas escutando o barulho. Logo após, o barulho de avião caindo e, como numa tirolesa, um aviãozinho viaja de uma das iluminações principais do estádio até o palco atingindo um pedaço d’O Muro. Sincronizado com o som. Perfeito. Em seguida, após Another Brick In The Wall part II - que por sinal contou com a participação de crianças representando os “alunos” e que até “atacavam” o boneco inflável enorme d’O Professor surgido no palco – Roger tocou uma versão diferente, simples e acústica da mesma música dedicada especialmente a Jean Charles de Menezes, brasileiro morto no metrô inglês anos atrás. Uma homenagem particular que ele tem feito em todos os shows no mundo inteiro e que coube perfeitamente no contexto.
Numa homenagem muito bonita que se extendeu a todas as pessoas vítimas e mortas injustamente por conta do governo indiretamente, guerras e terrorismo, Roger agradeceu a presença de todos e dedicou o show a essas pessoas. Detalhe, falou tudo em um surpreendente português que deixaria muitos gringos com inveja. A animação do show que consistia em uma projeção em altíssima resolução no próprio Muro que ia se fechando, os tijolos iam recebendo as fotos de cada um deles. Em determinado momento, todos os tijolos que já estavam montados carregavam a imagem de uma vítima, deixando O Muro igual a um homérico mosaico de fotos lado a lado.

O Muro ia se fechando e o primeiro álbum chegando a sua metade com a “alienação” e “fechamento” da mente. Após uma apresentação muito emocionante de Mother, O Muro recebeu em animação os clássicos aviões de guerra que despejam bombas em Goodbye Blue SkyReferindo-se sempre ao combate à alienação produzida pelo capitalismo radical – que numa ironia muito grande contrastou com um show de produção milhonária e ingressos, para variar, caríssimos – as bombas dos aviões na animação eram cifrões e logotipos de marcas famosas como Shell e Mercedes-Benz, além das clássicas cruzes representando a morte das pessoas. Algumas outras grandes marcas foram “mencionadas” como L’Oréal, Apple etc.

Young Lust começava a ser tocada e as animações projetavam mulheres semi-nuas e nuas como na revolta mental do personagem Pink do/no filme. Já em Don’t Leave Me Now, com O Muro já quase totalmente fechado, Roger a interpretou

perfeita e melancolicamente num cenário de quarto que tinha sido montado numa abertura repentina de uma parte d’O Muro mais ao lado direito do palco. Caminhando já para as duas últimas músicas do primeiro álbum, faltando apenas uns vinte tijolos para completarem O Muro, Roger passou para o lado de trás, junto com o resto do palco e da banda, e começou a cantar de lá, deixando à nossa visão apenas a extraordinária animação projetada n’O Muro que agora faltavam cerca de cinco tijolos. Em Goodbye Cruel World, faltava apenas um, por onde se enxergava a silhueta de Roger cantando sob uma luz azul intensa ao fundo, a única luz acesa no Morumbi.

Suas últimas palavras foram os versos da música: “Goodbye all you people; There’s nothing you can say; To make me change; My mind; Goodbye.” e um estrondo como um trovão ao terminar de recitá-los, somados ao apagar da luz e, finalmente, o encaixe do último tijolo d’O Muro marcaram o final do primeiro álbum e a completa alienação do personagem Pink.

Com isso, tivemos um intervalo de cerca de quinze a vinte minutos que, aproveitando O Muro agora completo e totalmente fechado, uma mensagem de agradecimento foi projetada no mesmo aos familiares que enviaram as fotos de seus parentes vítimas homenageados logo no começo que dizia: “I would like to thank all of you who have sent in photos of fallen loved ones. We will remember them. -Roger”.

Durante o passar desses vinte minutos, as fotos – desta vez maiores – e ao lado delas os perfis de cada pessoa “citada” aparecia no muro montando um novo mosaico só com as mesmas, sendo substituídas por novos rostos gradativamente.

Assim terminou genialmente a primeira parte do álbum The Wall. A segunda parte eu você encontra aqui. ;)

“Is there anybody out there?”

Roger Waters - The WallPrimeiro de abril de dois mil e doze e não estou aqui para falar do dia da mentira, embora eu tenha um tema separado que envolva isso, mas prefiro falar sobre coisas mais emocionantes e interessantes. Até porque eu provavelmente terminarei de escrever isso já no dia dois. A essa hora muitos se dirigem para suas casas após sair do Estádio do Morumbi. Muitos dentre esses muitos não sabem, muitos dentre esses muitos ainda não se tocaram, mas talvez eles possam ter apreciado um dos maiores espetáculos dos tempos atuais e, felizmente, não estou falando de um jogo de futebol.

Quem me conhece sabe que , com orgulho, posso me considerar um veterano de shows e este orgulho se deve ao fato de que a maioria de meu repertório consiste em shows grandes. Grandes em emoção, mas também em tamanho de produção e da banda. Coisas que podemos guardar em meio de nossas lembranças para contar aos netos numa tarde de domingo com a família. Na segunda década do terceiro milênio, com apenas vinte e dois anos e em meio de uma cultura musical que deixa muito a desejar, componho uma parte da humanidade que admira as boas músicas que marcaram as décadas da juventude de uma geração anterior. Músicas de bandas consagradas para todos os tempos que fizeram histórias únicas, porém milhões de fãs no mundo inteiro. Eu, aqui, um deles.

Falando de grandeza no que se diz respeito não ao nível emocional, mas apenas na importância e valor da banda em si, dentre todos os grandes shows que fui, talvez o show do AC/DC tenha sido o maior deles. Como já disse, não estou colocando emoções aqui porque possivelmente AC/DC não seja emocionalmente o maior show de minha vida, mas se tratando de tamanho e importância de uma banda, acredito que eles são os caras que ocupam a primeira posição da minha lista. No entanto, algo de extremo valor está para acontecer comigo. Hoje/Ontem, no dia da mentira – voltando agora aqueles supracitados que estão chegando agora em suas casas -, aconteceu no Estádio do Morumbi o show do pequeníssimo e quase sem importância Roger Waters de uma pequeníssima turnê em tributo ao pequeníssimo e quase sem importância álbum The Wall. Álbum este que é um dos pequeníssimos e quase sem importância álbuns de uma pequeníssima e quase sem importância banda que leva a alcunha de Pink Floyd, atualmente, infelizmente, com suas atividades encerradas. Um dos shows. O outro, que era para ser o primeiro na terra da garoa lá no dia 31 de março, foi adiado para o dia 3 próximo, terça-feira. Data que confirma um marco que ainda nem aconteceu em minha vida.

Algo de extremo valor porque reunirá as duas grandezas em questão. Pink Floyd conseguiu se tornar minha banda preferida nos últimos anos. Dotados de uma genialidade sobre-humana, Nick Mason, Richard Wright (R.I.P.) e principalmente Roger Waters e, mais ainda, David Gilmour, juntos, atingiram um dos mais profundos e delicados níveis que separam a música da mais pura manifestação da alma. Claro, esta é minha opinião, mas acredito que não fuja muito do que bons admiradores de música têm a dizer. Sendo assim, poderei juntar a grandeza em emoção com a grandeza em valor de quem se apresenta. Ou parte dela. Roger Waters é o único dos Pink Floyd que se apresenta nesta turnê – salve exceção de um show na Inglaterra que atingiu um patamar tão épico que renderia um texto inteiro e por isso não me atreverei a escrever menos que isso por ele. Portanto, e sem ingratidão nenhuma, conformo-me com a presença de apenas um dos gênios, talvez o segundo maior deles ao meu ver, na apresentação que acontecerá nesta terça-feira.

Penso que muitos não compreendam o valor desta turnê. Aliás, penso que mesmo eu não compreenda, visto que certamente encontrarei pessoas da geração passada que vivenciaram o auge desta arte. Esses caras sim sabem do que essa brincadeira se trata. Mas sem parar para pensar nos outros, pensando apenas em mim, estou cheio de adrenalina e euforia já dias antes do grande momento e não paro sequer um minuto de pensar em como tudo acontecerá. Enquanto escrevo este texto, enquanto faço trabalhos para a faculdade, enquanto converso com pessoas, estou constantemente escutando músicas do Pink Floyd só para acalmar (ou aumentar) a euforia. Pego-me vagando em uma viagem sem fim no meio das notas e solos de cada música e não sei explicar qual é o sentimento relacionado a isso.

Num espetáculo que certamente será grande – Pink Floyd sempre foi considerada uma banda com shows de produções tão enormes quanto impressionantes -, abrirei todas as minhas emoções para o que verei e tentarei guardar na memória todos os detalhes possíveis de momentos que já sei que serão absurdamente especiais. A expectativa é grande e acredito que superará e muito o enorme show do AC/DC. Acho que acima disso somente se uma apresentação de David Gilmour. E, por que não sonhar?, ainda acima disso, Roger Waters e David Gilmour juntos, num mesmo palco novamente, compartilhando os mesmos versos das mesmas músicas, quiçá Comfortably Numb, música que para mim tem um solo de guitarra que é mais que uma terapia para a alma. Imagino tudo isso e lágrimas caem de meus olhos por saber da remota possibilidade de isso acontecer. Mas não serei mal agradecido! Jamais. Verei um dos maiores gênios da música muito em breve. Por que não sonhar em ver o outro grande, e talvez maior ainda, gênio até o fim de minha vida? Se algum dia os dois quiserem se juntar numa oportunidade que me faria vender minha casa, esposa e filhos para prestigiar, poderei descansar finalmente em paz para toda a eternidade.

Pela primeira vez na história deste blog, escrevo sobre uma emoção que vem antes de algo acontecer. Algo tão grandioso que me faz transbordar emoções a cada minuto que antecede o evento. Neste momento, já estou no dia 2 de abril. Amanhã terei um marco em minha vida e, assim que me recuperar da ressaca e dos múltiplos orgasmos musicais da noite, talvez nos próximos dias voltarei a escrever sobre isso já com uma visão diferente de algo que virou passado.

Penso inclusive em fazer um post só para Comfortably Numb qualquer dia, se a preguiça deixar.

Louca sanidade

Dias como esse é que desperto um certo medo. Medo de mim mesmo no que diz respeito ao meu estado de humor. Deparo-me contra meu próprio desânimo e pergunto-me até onde ele alcança. Ao mesmo tempo que exijo sair com várias pessoas e/ou para lugares muito agitados para que assim eu possa perder minha cabeça e esquecer de minha vida, também sinto a vontade de me jogar e me afogar no poço de mágoas que há muito reside em mim e até hoje não tive coragem de explorá-lo pelo puro medo inicialmente citado.

Já não sinto tanta liberdade para fazer o que quer que seja com quem quer que seja. Cada vez mais seleto com as coisas que me oferecem e com a companhia que escolho. Todo meu medo se canaliza e parece finalmente tomar um caminho diante da bifurcação anterior. Pessoas me entediam e me enjoam cada vez mais. Paciência me é escassa cada dia mais e a intolerância só aumenta. Estou muito próximo de passar pela bifurcação e escolher deixar de fazer tudo com os outros para então fazer nada sozinho. Começo a ver sentido nos personagens fictícios que se isolam em balcões de bares matando de overdose alcoólica quase que literalmente suas amarguras da vida. Já não vejo como loucura, em tempo que antes via – e sei disso. Talvez por tal eu esteja com a irônica sanidade de me ver louco.

Não culpo ninguém por não conseguir me entreter, muito embora fique com a sensação de que ninguém me é suficiente. Não porque sou melhor que os outros – e finalmente vi isso -, mas porque estou num estado de sanidade tão mais avançada que os que estão ao meu redor que isso está me deixando realmente louco e insatisfeito.

Cento e uma velas no bolo.

Uma estrela centenária brilha esta noite. Hoje, por volta das 17h30, minha bisavó faleceu. Ela deixa este mundo 101 anos após adentrá-lo e não, não errei o número. 101 anos de lições e exemplos dos quais participei menos – e sinto dizer que foi bem menos – de um quarto do total. Sinto-me triste? Não, pelo contrário, sinto-me orgulhoso e satisfeito o suficiente para fazer jus a sua idade. Da última vez que perdi alguém que de alguma forma ocupava um espaço do meu existir, escrevi um texto que não dizia muito do que queria, mas que pareceu o suficiente para quem precisava de algo para ler ou escutar, mesmo que a intenção não fora exatamente essa, mas que fico feliz de que tão surpreendente quanto não intencionalmente ajudou como ajudou. Hoje, como se trata de minha família, escrevo para mim o que vier a ser necessário para mim, para o meu desabafo. Sendo assim, portanto, aproveitarei para falar de um assunto que inegavelmente me atrai em ambos os sentidos da expressão: a morte.

O que é a morte? Morte para mim é o fim, o término de uma etapa. E como todo fim e toda etapa tem um começo e um processo, acredito que seja mais fácil entender antes o que são esses dois que se resume em algo chamado “vida”. O que é vida? A vida é uma das coisas, senão a coisa, mais antiga que se conheceu. Acho que a primeira coisa que algum ser pensante pensou, mesmo que não tivesse consciência disso, foi sobre a existência da vida. Desde então o ser pensante, que agora chamarei de ser humano, lida com a vida da melhor forma que pode e lhe convém, o que engloba altos e baixos, o que engloba lados ruins, o que engloba emoções, o que engloba tristeza, o que engloba maus estados de espírito. E a evoluação continua, passa pelas eras, civilizações criadas, histórias e culturas diferenciadas, os anos passam, até aque chegamos nos dias atuais. E nos dias atuais, o que se resume de uma vida são altos e baixos, o que engloba mau estado de espírito, o que engloba um motivo, o que engloba a perda, o que engloba o tema em questão.

O ser humano não sabe perder. Nunca soube e finge que sabe. E o mais interessante de tudo é que um dos piores estados de espírito que se pode descrever numa vida atualmente se trata justamente na perda de alguém, ou seja, uma pequena parte ou momento de toda uma vida se encontra com o fim de outra. O mau estado de um se depara com a ausência de estado de outro, atenção, desde sempre. Há milhares e milhares de anos, pelo menos desde que a história, em memória e registros feitos pelo homem, pode alcançar, o ser humano sofre com a perda. Sofre com a morte. E assim comprovo e fica muito claro o fato de que o ser humano não sabe perder. Existem perdas menores e maiores, mas ainda são perdas e aquele que sente é porque não está totalmente preparado.

O fim de uma vida, e agora falamos objetivamente da morte, é tratado e encarado pela maioria de nós, em muitas partes do mundo, da mesma forma. O ser humano vê a morte como algo totalmente inusitado, como se não acontecesse com ninguém e, como num ápice de insanidade mental, assusta-se e tende a não aceitar quando ocorre. Sinto muito. Lamento. Não é assim. Sábios são aqueles que sabem disso. Ingênuos são aqueles que sabem e vivem cada dia como se fosse o último. Muito sábios são aqueles que tentam e conseguem viver cada dia como se fosse único – parafraseando um professor de filosofia e filósofo pelo qual tenho muito respeito, Mário Sérgio Cortella.

Minha bisavó deixa nosso mundo e minha família depois de 101 anos. Hoje tenho 22 e já reclamo e me sinto velho. Tão velho quanto envergonhado por saber tão pouco, de tudo, sobre tudo, enquanto uma carismática senhora parte com mais de quatro vezes mais experiência em anos de altos e baixos e estados de espírito que eu nem sequer sei dizer se um dia terei, mas que certamente e infelizmente, entre eles, muitas perdas ainda virão e muitos apertos por não saber perder ainda todos nós sentiremos.

Em memória de minha adorável bisavó Alice, ou Biga, como a costumávamos carinhosamente chamar, pelos seus cento e um anos de altos e baixos, de estados de espírito, de voltas ao Sol e de primaveras e outonos que ela deixou para trás e que, certamente, com sua ausência, conseguiu extender por mais tantos anos até que o último de nossa família que dela lembre também se perca.

Satisfação

Por muito tempo busquei – e não quer dizer que pararei de buscar – a perfeição no texto. Busquei escrever algo que me deixasse realmente satisfeito e que me fizesse pensar “Sim, este texto ficou realmente muito bom. Nada a reclamar.”, mas nunca consegui fazê-lo. Até que hoje eu achei o consolo de que e quem precisava.

“Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.”
–Mário Quintana

Típicas qualidades

Sou um típico cara de muitos conhecidos e poucos amigos. Sou um típico cara de muitas mulheres, poucas paixões e nenhum amor. Sou um típico cara que tenta enxergar ao invés de somente olhar. Sou um típico cara que sei que nada sei e quero saber sempre mais, o que não quer dizer que sempre busque saber mais, pois também tenho meus defeitos e deslizes de inércia. Sou um típico cara com defeitos, o que não quer dizer que somente eles eu sempre transpareça – embora deixe essa impressão para muitos e em quantidade demasiada -, pois também tenho minhas qualidades e as qualidades, só enxergam aqueles que sabem que nada sabem, aqueles que mesmo com corriqueiras inércias ainda querem saber o mais e, enfim, aqueles que sabem não somente olhar.

Não exatamente minha opinião sobre o caso BBB12.

Não é do meu feitio e eu não ia realmente falar nada sobre isso, nem escrever, nem comentar com ninguém, apenas porque este programa Big Brother Brasil ao qual vocês assistem simplesmente não atinge o meu patamar de cultura. Entretanto, muitas vezes se torna irritantemente inevitável ficar sabendo de casos decorridos dentro da “Nave Mãe” via comentários alheios e, hoje em dia, mais facilmente ainda através da internet que hoje tem, mais do que nunca, um nível muito baixo entre os brasileiros, mas que é assunto para outro momento.

Foi assim do BBB1 ao BBB5, também do BBB6 ao BBB10 e tem sido do BBB11 a este BBB12 – que confesso só saber o número de sua edição porque sei que sempre coincide com o número do ano em questão. Um bocado de pessoas confinadas numa casa onde, teoricamente, coisas acontecem ao vivo 24/7 e nós, telespectadores, temos acesso às suas intimidades. Porque o ser humano gosta disso. Ser humano gosta do fútil. Ser humano gosta de cuidar da vida dos outros, embora diga que não e só falte sair as ruas apenas com suas roupas de baixo em protesto para que, como sempre, OS OUTROS parem de cuidar de sua vida e passem a cuidar das próprias. Mas ignorância e hipocrisia são características típicas, principalmente do brasileiro cuja cultura tenho alcance, por isso não vou falar das outras. E desde sempre, ou desde 2001, vi o sentido de tudo isso e não me interessei nesse tipo de entretenimento, muito embora tenha que conviver com aqueles que se interessam. Tendo isso em vista, é mais do que comum ficar a par de caso ou outro que acontece ali e se irritar e/ou tentar ignorar, da mesma forma que é fácil saber quando seus vizinhos de cima estão fazendo sexo quando seu prédio quase não tem projeto de acústica. Assim também foi o último caso que vem dando o que falar. Algo relacionado a estupro.

Como todos os outros casos, tenho em minha cabeça que não me envolverei em tal futilidade e com este não seria diferente. Porém, uma amiga que, obviamente, não terá seu nome citado, bem como as outras pessoas que se voltam a este digníssimo entretenimento ímpar similar à Política do Pão e Circo só que pior, sem o pão, não se conteve e veio me perguntar ontem o que eu achava sobre o caso. Com toda a sutileza de um cachorro peludo que acaba de sair de uma piscina e vai até entre as mulheres que tomam sol esticadas no chão para se chacoalhar e tirar a água de seus pêlos de que me é característica, respondi que não estava acompanhando e mal estava sabendo o que ocorrera. A garota pareceu juntar toda sua indignação acumulada em mais de vinte anos de vida como se a Terra tivesse parado de girar e vomitou sobre mim uma pergunta clássica: “Meu Deus! Em que bolha você vive?!?!”

Como sempre defendi à risca um dos maiores ensinamentos de meu amigo Tom, “Não discuta sobre aquilo que não sabe.”, disse a ela que parecia interessante o caso – afinal, da forma como ela falou, eu deveria ser um ignorante e tentei mascarar essa falha em minha personalidade por não saber sobre o caso BBB12 – e que buscaria conhecimento para que só depois falasse sobre o assunto. Enfim, busquei e decidi escrever porque, vocês sabem, eu tenho esta necessidade de falar, filosofar e dissertar quando algo me incomoda.

Vamos aos fatos mais relevantes:
Um rapaz negro e uma moça gostosa – regular palavras para quê? ela é mesmo – que se envolveram numa festa, entuxaram a cara de álcool e se recolheram na mesma cama, debaixo do mesmo edredom. Câmeras a posta, começaria a putaria. Fui assistir ao vídeo do momento e… sério que vocês enxergaram um estupro ali? Eu vi um edredom se mexendo, uns gemidos e depois de muito tempo consegui identificar quem era quem e em que posição estavam em relação ao outro e vocês viram UM ESTUPRO, crianças do meu Brasil varonil? Estupro é o que vocês fazem com meus ouvidos e olhos há doze anos falando a respeito sobre esse programa!

Muito bem, chilique à parte, descobri que o rapaz estava sendo julgado, a mulher estava sendo julgada, o meu papagaio estava sendo julgado, e todo mundo falando que ela estaria inconsciente, dormindo, ou qualquer coisa que dê a entender que a moça estava fora da capacidade de decidir se queria ou não fazer aquilo – ou receber aquilo – com o rapaz. Em primeiro lugar, a envolvida relatou que estava sim consciente e que quando o clima começou a esquentar ela o mandou sair da cama e ele saiu. Apesar de que ela deixou a dúvida de talvez não ter certeza no outro dia sobre o que acontecera depois de dormir, mas até aí, você, meu amigo que gosta de umas biritas, nunca falou isso também sobre não lembrar daquela gordinha da noite anterior? E em segundo lugar, se isso é caracterizado como estupro, começo a me preocupar com o tamanho da lista de estupros que já cometi por causa desse negócio chamado álcool. Não me entendam mal. Nunca abusei de ninguém, que eu me lembre, mas certamente já me envolvi bêbado com garotas também bêbadas e sei lá o que aconteceu. Aliás, o cara não estava bêbado também? E se foi ela quem armou tudo isso para o cara?

Sendo assim, só me vem uma coisa na mente: a Rede Globo é FODA! Sim, foda mesmo, no sentido de inteligente, gênio, esperto. Não, não gosto da Globo assim como você provavelmente está pensando que também não gosta, apesar de você assistir ao BBB, mas eu devo admitir que ela sabe o que faz e faz muito bem! A forma como ela manipula as coisas, as informações, as MENTES FRACAS das pessoas é genial e, depois de tantos anos, tornou-se extremamente eficiente em fazer isso. Hoje mal se conhece a veracidade deste reality show, mal se sabe sobre as falcatruas e manipulações que o mesmo sofre, mas mesmo assim, o povo é fiel à audiência como um cachorro que espera ao lado da porta todos os dias seu dono que foi para a guerra voltar. E a Globo sabe disso, conhece seu público e sabe a melhor forma de fazer com que a história se desenrole para que todos falem, discutam e dêem, cada vez mais, de forma contagiante, ibope ao show. Tudo foi tão milimetricamente armado, revisado, exposto, que até as autoridades meteram o nariz na “Nave Mãe” que é conduzida e pilotada pelo mestre idolatrado, e tido como sábio, Bial. E foi aí que a Globo se consagrou vitoriosa. Quando até mesmo aqueles que muito têm o que fazer se voltaram, como o Olho de Sauron que muito tem o que monitorar se volta suibtamente para quem veste O Anel, para o programa tanto quanto o público para tentar resolver o caso que, neste momento, era a menor das preocupações da administração da emissora e do BBB. A Globo é foda!

Na realidade, quando pouco sabia sobre o tema de estupro n’A Casa, eu torci para que crescesse sim. Mas de forma que virasse um escândalo e que acabasse com o reality show. Quando vi que as autoridades tinham se metido ali vibrei de supetão, ingênuo, pois torcia para que fosse um escândalo tão grande que o programa tivesse de ser interrompido ou que fosse declaradamente sua última edição. Quase caí nos tentáculos manipuladores da Globo mesmo não me interessando pelo BBB.

Ontem, meditando sobre tudo o que se passou e no que a Globo tinha conquistado, tive a notícia de que o rapaz fora expulso do jogo e me veio em mente uma atitude que eu, se estivesse no lugar da mulher envolvida, faria: Chegaria na primeira câmera, logo depois do jovem sair da casa, e diria “Eu estava consciente, estava querendo e digo mais, foi muito bom! Estupro é o cara#%$!”
Pensando nisso tive a idéia de quão ingênuos e ineficientes todos são para quando da resolução do caso. Se a Globo quisesse realmente resolver, era fácil colocá-los numa sala com TV – poderia até ser o quarto lá onde eles votam cujo nome me fugiu agora – junto com as devidas autoridades, junto com o Boninho, o Bial, um telespectador para testemunha, o meu papagaio de novo, o papa, enfim, e passar o vídeo para todos assistirem. Viram para a mulher e perguntam: “E AÍ, FILHA? TAVA QUERENDO OU NÃO TAVA QUERENDO?” Como quem diz “Foi estupro ou não?”. É fácil. Acontece que o povo quer decidir por ela se foi estupro quando na realidade quem tem que dar a última carta é ela. Se ela virasse e falasse “sim, foi estupro, não tinha consciência”, pronto. E se ela virasse “não, não foi, eu queria mesmo e estava consciente”, pronto também. Assim como acontece na vida real, a mulher contata a polícia e relata o estupro. Afinal, reality show não era para ser sobre a vida real?

Era muito fácil resolver o problema, não precisaria de nenhum metido a inteligente, a advogado, a delegado, ao diaboa4 falando sobre código penal, direitos humanos, mimimi, blablablá. O que precisa mesmo é de gente inteligente, gente que não se liga em futilidade e que ao menos se preocupa em não ser manipulado pela Globo que é SÓ MAIS UM meio de manipulação do nosso sistema atual. Mas é como já disse, o ser humano gosta de não pensar e como já dizia o professor de Artes Cênicas da Unicamp, Roberto Mallet, “tendem a inércia, ao adormecimento, se deixarmos, o homem vira de lado e dorme”.

E para completar, finalmente então respondendo à primeira pergunta:
Acho que o correto não é perguntar em que bolha EU vivo.