Louca sanidade

Dias como esse é que desperto um certo medo. Medo de mim mesmo no que diz respeito ao meu estado de humor. Deparo-me contra meu próprio desânimo e pergunto-me até onde ele alcança. Ao mesmo tempo que exijo sair com várias pessoas e/ou para lugares muito agitados para que assim eu possa perder minha cabeça e esquecer de minha vida, também sinto a vontade de me jogar e me afogar no poço de mágoas que há muito reside em mim e até hoje não tive coragem de explorá-lo pelo puro medo inicialmente citado.

Já não sinto tanta liberdade para fazer o que quer que seja com quem quer que seja. Cada vez mais seleto com as coisas que me oferecem e com a companhia que escolho. Todo meu medo se canaliza e parece finalmente tomar um caminho diante da bifurcação anterior. Pessoas me entediam e me enjoam cada vez mais. Paciência me é escassa cada dia mais e a intolerância só aumenta. Estou muito próximo de passar pela bifurcação e escolher deixar de fazer tudo com os outros para então fazer nada sozinho. Começo a ver sentido nos personagens fictícios que se isolam em balcões de bares matando de overdose alcoólica quase que literalmente suas amarguras da vida. Já não vejo como loucura, em tempo que antes via – e sei disso. Talvez por tal eu esteja com a irônica sanidade de me ver louco.

Não culpo ninguém por não conseguir me entreter, muito embora fique com a sensação de que ninguém me é suficiente. Não porque sou melhor que os outros – e finalmente vi isso -, mas porque estou num estado de sanidade tão mais avançada que os que estão ao meu redor que isso está me deixando realmente louco e insatisfeito.

Cento e uma velas no bolo.

Uma estrela centenária brilha esta noite. Hoje, por volta das 17h30, minha bisavó faleceu. Ela deixa este mundo 101 anos após adentrá-lo e não, não errei o número. 101 anos de lições e exemplos dos quais participei menos – e sinto dizer que foi bem menos – de um quarto do total. Sinto-me triste? Não, pelo contrário, sinto-me orgulhoso e satisfeito o suficiente para fazer jus a sua idade. Da última vez que perdi alguém que de alguma forma ocupava um espaço do meu existir, escrevi um texto que não dizia muito do que queria, mas que pareceu o suficiente para quem precisava de algo para ler ou escutar, mesmo que a intenção não fora exatamente essa, mas que fico feliz de que tão surpreendente quanto não intencionalmente ajudou como ajudou. Hoje, como se trata de minha família, escrevo para mim o que vier a ser necessário para mim, para o meu desabafo. Sendo assim, portanto, aproveitarei para falar de um assunto que inegavelmente me atrai em ambos os sentidos da expressão: a morte.

O que é a morte? Morte para mim é o fim, o término de uma etapa. E como todo fim e toda etapa tem um começo e um processo, acredito que seja mais fácil entender antes o que são esses dois que se resume em algo chamado “vida”. O que é vida? A vida é uma das coisas, senão a coisa, mais antiga que se conheceu. Acho que a primeira coisa que algum ser pensante pensou, mesmo que não tivesse consciência disso, foi sobre a existência da vida. Desde então o ser pensante, que agora chamarei de ser humano, lida com a vida da melhor forma que pode e lhe convém, o que engloba altos e baixos, o que engloba lados ruins, o que engloba emoções, o que engloba tristeza, o que engloba maus estados de espírito. E a evoluação continua, passa pelas eras, civilizações criadas, histórias e culturas diferenciadas, os anos passam, até aque chegamos nos dias atuais. E nos dias atuais, o que se resume de uma vida são altos e baixos, o que engloba mau estado de espírito, o que engloba um motivo, o que engloba a perda, o que engloba o tema em questão.

O ser humano não sabe perder. Nunca soube e finge que sabe. E o mais interessante de tudo é que um dos piores estados de espírito que se pode descrever numa vida atualmente se trata justamente na perda de alguém, ou seja, uma pequena parte ou momento de toda uma vida se encontra com o fim de outra. O mau estado de um se depara com a ausência de estado de outro, atenção, desde sempre. Há milhares e milhares de anos, pelo menos desde que a história, em memória e registros feitos pelo homem, pode alcançar, o ser humano sofre com a perda. Sofre com a morte. E assim comprovo e fica muito claro o fato de que o ser humano não sabe perder. Existem perdas menores e maiores, mas ainda são perdas e aquele que sente é porque não está totalmente preparado.

O fim de uma vida, e agora falamos objetivamente da morte, é tratado e encarado pela maioria de nós, em muitas partes do mundo, da mesma forma. O ser humano vê a morte como algo totalmente inusitado, como se não acontecesse com ninguém e, como num ápice de insanidade mental, assusta-se e tende a não aceitar quando ocorre. Sinto muito. Lamento. Não é assim. Sábios são aqueles que sabem disso. Ingênuos são aqueles que sabem e vivem cada dia como se fosse o último. Muito sábios são aqueles que tentam e conseguem viver cada dia como se fosse único – parafraseando um professor de filosofia e filósofo pelo qual tenho muito respeito, Mário Sérgio Cortella.

Minha bisavó deixa nosso mundo e minha família depois de 101 anos. Hoje tenho 22 e já reclamo e me sinto velho. Tão velho quanto envergonhado por saber tão pouco, de tudo, sobre tudo, enquanto uma carismática senhora parte com mais de quatro vezes mais experiência em anos de altos e baixos e estados de espírito que eu nem sequer sei dizer se um dia terei, mas que certamente e infelizmente, entre eles, muitas perdas ainda virão e muitos apertos por não saber perder ainda todos nós sentiremos.

Em memória de minha adorável bisavó Alice, ou Biga, como a costumávamos carinhosamente chamar, pelos seus cento e um anos de altos e baixos, de estados de espírito, de voltas ao Sol e de primaveras e outonos que ela deixou para trás e que, certamente, com sua ausência, conseguiu extender por mais tantos anos até que o último de nossa família que dela lembre também se perca.