Não é do meu feitio e eu não ia realmente falar nada sobre isso, nem escrever, nem comentar com ninguém, apenas porque este programa Big Brother Brasil ao qual vocês assistem simplesmente não atinge o meu patamar de cultura. Entretanto, muitas vezes se torna irritantemente inevitável ficar sabendo de casos decorridos dentro da “Nave Mãe” via comentários alheios e, hoje em dia, mais facilmente ainda através da internet que hoje tem, mais do que nunca, um nível muito baixo entre os brasileiros, mas que é assunto para outro momento.
Foi assim do BBB1 ao BBB5, também do BBB6 ao BBB10 e tem sido do BBB11 a este BBB12 – que confesso só saber o número de sua edição porque sei que sempre coincide com o número do ano em questão. Um bocado de pessoas confinadas numa casa onde, teoricamente, coisas acontecem ao vivo 24/7 e nós, telespectadores, temos acesso às suas intimidades. Porque o ser humano gosta disso. Ser humano gosta do fútil. Ser humano gosta de cuidar da vida dos outros, embora diga que não e só falte sair as ruas apenas com suas roupas de baixo em protesto para que, como sempre, OS OUTROS parem de cuidar de sua vida e passem a cuidar das próprias. Mas ignorância e hipocrisia são características típicas, principalmente do brasileiro cuja cultura tenho alcance, por isso não vou falar das outras. E desde sempre, ou desde 2001, vi o sentido de tudo isso e não me interessei nesse tipo de entretenimento, muito embora tenha que conviver com aqueles que se interessam. Tendo isso em vista, é mais do que comum ficar a par de caso ou outro que acontece ali e se irritar e/ou tentar ignorar, da mesma forma que é fácil saber quando seus vizinhos de cima estão fazendo sexo quando seu prédio quase não tem projeto de acústica. Assim também foi o último caso que vem dando o que falar. Algo relacionado a estupro.
Como todos os outros casos, tenho em minha cabeça que não me envolverei em tal futilidade e com este não seria diferente. Porém, uma amiga que, obviamente, não terá seu nome citado, bem como as outras pessoas que se voltam a este digníssimo entretenimento ímpar similar à Política do Pão e Circo só que pior, sem o pão, não se conteve e veio me perguntar ontem o que eu achava sobre o caso. Com toda a sutileza de um cachorro peludo que acaba de sair de uma piscina e vai até entre as mulheres que tomam sol esticadas no chão para se chacoalhar e tirar a água de seus pêlos de que me é característica, respondi que não estava acompanhando e mal estava sabendo o que ocorrera. A garota pareceu juntar toda sua indignação acumulada em mais de vinte anos de vida como se a Terra tivesse parado de girar e vomitou sobre mim uma pergunta clássica: “Meu Deus! Em que bolha você vive?!?!”
Como sempre defendi à risca um dos maiores ensinamentos de meu amigo Tom, “Não discuta sobre aquilo que não sabe.”, disse a ela que parecia interessante o caso – afinal, da forma como ela falou, eu deveria ser um ignorante e tentei mascarar essa falha em minha personalidade por não saber sobre o caso BBB12 – e que buscaria conhecimento para que só depois falasse sobre o assunto. Enfim, busquei e decidi escrever porque, vocês sabem, eu tenho esta necessidade de falar, filosofar e dissertar quando algo me incomoda.
Vamos aos fatos mais relevantes:
Um rapaz negro e uma moça gostosa – regular palavras para quê? ela é mesmo – que se envolveram numa festa, entuxaram a cara de álcool e se recolheram na mesma cama, debaixo do mesmo edredom. Câmeras a posta, começaria a putaria. Fui assistir ao vídeo do momento e… sério que vocês enxergaram um estupro ali? Eu vi um edredom se mexendo, uns gemidos e depois de muito tempo consegui identificar quem era quem e em que posição estavam em relação ao outro e vocês viram UM ESTUPRO, crianças do meu Brasil varonil? Estupro é o que vocês fazem com meus ouvidos e olhos há doze anos falando a respeito sobre esse programa!
Muito bem, chilique à parte, descobri que o rapaz estava sendo julgado, a mulher estava sendo julgada, o meu papagaio estava sendo julgado, e todo mundo falando que ela estaria inconsciente, dormindo, ou qualquer coisa que dê a entender que a moça estava fora da capacidade de decidir se queria ou não fazer aquilo – ou receber aquilo – com o rapaz. Em primeiro lugar, a envolvida relatou que estava sim consciente e que quando o clima começou a esquentar ela o mandou sair da cama e ele saiu. Apesar de que ela deixou a dúvida de talvez não ter certeza no outro dia sobre o que acontecera depois de dormir, mas até aí, você, meu amigo que gosta de umas biritas, nunca falou isso também sobre não lembrar daquela gordinha da noite anterior? E em segundo lugar, se isso é caracterizado como estupro, começo a me preocupar com o tamanho da lista de estupros que já cometi por causa desse negócio chamado álcool. Não me entendam mal. Nunca abusei de ninguém, que eu me lembre, mas certamente já me envolvi bêbado com garotas também bêbadas e sei lá o que aconteceu. Aliás, o cara não estava bêbado também? E se foi ela quem armou tudo isso para o cara?
Sendo assim, só me vem uma coisa na mente: a Rede Globo é FODA! Sim, foda mesmo, no sentido de inteligente, gênio, esperto. Não, não gosto da Globo assim como você provavelmente está pensando que também não gosta, apesar de você assistir ao BBB, mas eu devo admitir que ela sabe o que faz e faz muito bem! A forma como ela manipula as coisas, as informações, as MENTES FRACAS das pessoas é genial e, depois de tantos anos, tornou-se extremamente eficiente em fazer isso. Hoje mal se conhece a veracidade deste reality show, mal se sabe sobre as falcatruas e manipulações que o mesmo sofre, mas mesmo assim, o povo é fiel à audiência como um cachorro que espera ao lado da porta todos os dias seu dono que foi para a guerra voltar. E a Globo sabe disso, conhece seu público e sabe a melhor forma de fazer com que a história se desenrole para que todos falem, discutam e dêem, cada vez mais, de forma contagiante, ibope ao show. Tudo foi tão milimetricamente armado, revisado, exposto, que até as autoridades meteram o nariz na “Nave Mãe” que é conduzida e pilotada pelo mestre idolatrado, e tido como sábio, Bial. E foi aí que a Globo se consagrou vitoriosa. Quando até mesmo aqueles que muito têm o que fazer se voltaram, como o Olho de Sauron que muito tem o que monitorar se volta suibtamente para quem veste O Anel, para o programa tanto quanto o público para tentar resolver o caso que, neste momento, era a menor das preocupações da administração da emissora e do BBB. A Globo é foda!
Na realidade, quando pouco sabia sobre o tema de estupro n’A Casa, eu torci para que crescesse sim. Mas de forma que virasse um escândalo e que acabasse com o reality show. Quando vi que as autoridades tinham se metido ali vibrei de supetão, ingênuo, pois torcia para que fosse um escândalo tão grande que o programa tivesse de ser interrompido ou que fosse declaradamente sua última edição. Quase caí nos tentáculos manipuladores da Globo mesmo não me interessando pelo BBB.
Ontem, meditando sobre tudo o que se passou e no que a Globo tinha conquistado, tive a notícia de que o rapaz fora expulso do jogo e me veio em mente uma atitude que eu, se estivesse no lugar da mulher envolvida, faria: Chegaria na primeira câmera, logo depois do jovem sair da casa, e diria “Eu estava consciente, estava querendo e digo mais, foi muito bom! Estupro é o cara#%$!”
Pensando nisso tive a idéia de quão ingênuos e ineficientes todos são para quando da resolução do caso. Se a Globo quisesse realmente resolver, era fácil colocá-los numa sala com TV – poderia até ser o quarto lá onde eles votam cujo nome me fugiu agora – junto com as devidas autoridades, junto com o Boninho, o Bial, um telespectador para testemunha, o meu papagaio de novo, o papa, enfim, e passar o vídeo para todos assistirem. Viram para a mulher e perguntam: “E AÍ, FILHA? TAVA QUERENDO OU NÃO TAVA QUERENDO?” Como quem diz “Foi estupro ou não?”. É fácil. Acontece que o povo quer decidir por ela se foi estupro quando na realidade quem tem que dar a última carta é ela. Se ela virasse e falasse “sim, foi estupro, não tinha consciência”, pronto. E se ela virasse “não, não foi, eu queria mesmo e estava consciente”, pronto também. Assim como acontece na vida real, a mulher contata a polícia e relata o estupro. Afinal, reality show não era para ser sobre a vida real?
Era muito fácil resolver o problema, não precisaria de nenhum metido a inteligente, a advogado, a delegado, ao diaboa4 falando sobre código penal, direitos humanos, mimimi, blablablá. O que precisa mesmo é de gente inteligente, gente que não se liga em futilidade e que ao menos se preocupa em não ser manipulado pela Globo que é SÓ MAIS UM meio de manipulação do nosso sistema atual. Mas é como já disse, o ser humano gosta de não pensar e como já dizia o professor de Artes Cênicas da Unicamp, Roberto Mallet, “tendem a inércia, ao adormecimento, se deixarmos, o homem vira de lado e dorme”.
E para completar, finalmente então respondendo à primeira pergunta:
Acho que o correto não é perguntar em que bolha EU vivo.